Cerca de 700 supermercados na França tiveram seus sistemas de refrigeração invadidos remotamente por hackers na passagem de domingo (11) para segunda-feira (12). Os invasores forçaram o modo de degelo e elevaram a temperatura de geladeiras e congeladores para até 50ºC, o que provocou o descarte de toneladas de alimentos e princípios de incêndio.
O ministro das Finanças da França, Roland Lescure, confirmou nesta terça-feira (13) ao Parlamento francês que os estabelecimentos afetados fazem parte de um universo de 10 mil supermercados no país, mas garantiu não haver risco ao abastecimento nacional. O diretor-executivo da rede Coopérative U, Dominique Schelcher, classificou a ofensiva contra os aparelhos de conservação como um ataque à cadeia de suprimentos francesa, definindo o episódio como “sem precedentes, extremamente grave e inaceitável”, em tradução livre.
Equipamentos da Danfoss e redes atingidas na França
O ataque cibernético atingiu grandes redes varejistas do país, incluindo Intermarché e Netto (ambas do grupo Les Mousquetaires), além de Coopérative U, Carrefour, Monoprix e E.Leclerc. Na rede Coopérative U, 80 das 2 mil unidades sofreram com o superaquecimento, mesmo número de lojas registrado pelo Carrefour, enquanto a Monoprix contabilizou cerca de 30 estabelecimentos afetados (aproximadamente 5% de sua rede). Perto da cidade de Bordeaux, houve um registro isolado de equipamento com a configuração alterada para 150ºC.
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A invasão explorou inicialmente controladores remotos de refrigeração fabricados pela empresa dinamarquesa Danfoss, das séries AK-SM e AK-SC, incluindo os modelos antigos AK-SM 800 e AK-SC 355, que já haviam atingido o fim da vida útil e não recebiam mais atualizações de segurança. Em atualização de alerta publicada em 13 de outubro de 2026, a equipe de resposta a emergências cibernéticas do governo francês (CERT-FR), ligada à Agência Nacional Francesa de Segurança dos Sistemas de Informação (ANSSI), informou que o comprometimento também atingiu controladores das linhas Copeland xweb e Dixell xweb, recomendando desconectar imediatamente os aparelhos da internet pública, usar redes privadas virtuais (VPN) e trocar senhas padrão.
Riscos da internet das coisas após o ataque na França
O secretário-geral da consultoria de cibersegurança Almond, Antoine Hautin, explicou que equipamentos industriais antes isolados passaram a ser conectados à rede para permitir supervisão à distância. Para Olivier Daloy, especialista em segurança cibernética da Zscaler, a convergência entre tecnologia da informação e tecnologia operacional sem proteção adequada deixa “qualquer fábrica ou equipamento” exposto a falhas nos setores de energia, transporte ou automotivo.
“Estamos diante de um ataque à chamada internet das coisas (IoT, na sigla em inglês)”, afirmou Daloy, destacando que essas máquinas não têm tela nem teclado, mas são controladas via rede. Segundo o especialista, no caso dos supermercados franceses, “o risco imediato é o desperdício de alimentos, e o segundo risco é causar um impacto físico, com perigo de incêndio, quando as geladeiras atingem 50º C”.
Antecedentes de falhas na Danfoss e ataques ao varejo desde 2010
O princípio de invasão a equipamentos industriais foi comparado por Daloy ao vírus Stuxnet, que em 2010 danificou centrífugas de enriquecimento de urânio no Irã. Antes do incidente francês, o setor varejista e de dispositivos conectados já acumulava alertas e ataques de grande porte registrados nos últimos anos, demonstrando vulnerabilidades em sistemas comercias, industriais e de consumo doméstico nos Estados Unidos e na Europa:
- Agosto de 2026: pesquisadores da equipe Team82, da empresa de segurança industrial Claroty, alertaram sobre milhares de controladores Danfoss AK-SM 800A expostos na internet e apontaram as falhas CVE-2025-41450 e CVE-2025-41451, corrigidas pela fabricante em 2025.
- Junho de 2025: a distribuidora de congelados United Natural Foods, nos Estados Unidos, tirou sistemas do ar após um ciberataque.
- Abril de 2025: a rede britânica Marks & Spencer sofreu um ataque do grupo Scattered Spider com o ransomware (sequestro digital de dados) DragonForce, gerando perdas de cerca de 300 milhões de libras (R$ 1,9 bilhão).
- Novembro de 2024: a rede Ahold Delhaize USA teve operações interrompidas em mais de 2 mil lojas nos Estados Unidos.
- Ano de 2015: pesquisadores invadiram uma geladeira inteligente da Samsung em Las Vegas e assumiram remotamente o controle de um veículo Jeep, o que provocou o recall de 1,4 milhão de automóveis.
A autoria do ataque na França ainda não foi confirmada, pois nenhum grupo assumiu a ação e não houve pedido de resgate financeiro. O Ministério Público de Paris abriu uma investigação em sua unidade de crimes cibernéticos para identificar os responsáveis e apurar se a invasão ocorreu por falhas em softwares desatualizados ou pelo uso de senhas comprometidas em interfaces expostas na internet.
