O neurocirurgião consultor especializado em coluna Anthony Ghosh, do Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido (NHS), sistema público de saúde britânico, alertou em Londres que inclinar a cabeça para olhar telas de celulares e computadores eleva a pressão sobre o pescoço em cinco vezes. Quando o corpo está ereto e alinhado, a força mecânica da cabeça sobre a região cervical é de aproximadamente 5,4 kg (12 libras), mas a curvatura para a frente faz esse peso saltar para cerca de 27 kg a 27,2 kg (60 libras).
“É uma sobrecarga considerável que o pescoço precisa suportar”, afirmou Ghosh, que atua no Queen’s Hospital, na capital britânica. Para preservar a mobilidade das articulações e evitar rigidez muscular, o médico e as diretrizes do órgão de saúde britânico recomendam cinco práticas diárias de movimentação e fortalecimento que dispensam cadeiras especiais ou equipamentos ergonômicos caros.
Sobrecarga do celular no pescoço soma-se ao desgaste após os 40 anos
Durante o uso prolongado de smartphones e notebooks, a projeção da cabeça para a frente e a manutenção dos ombros curvados alteram a distribuição de forças sobre a coluna. Essa postura exige esforço contínuo da musculatura responsável por sustentar o crânio e acelera desconfortos que se somam ao envelhecimento natural do sistema musculoesquelético.
Com o avanço da idade, os tecidos perdem elasticidade e aumentam a rigidez na parte posterior do pescoço, afetando as articulações e os discos intervertebrais. “Ninguém com mais de 40 anos tem uma ressonância magnética da coluna completamente normal. Todo mundo terá algum desgaste nos discos, que são as estruturas que funcionam como uma espécie de amortecedor entre as vértebras. As articulações na parte posterior do pescoço também ficam um pouco mais espessas e rígidas”, declarou Anthony Ghosh.
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Os indicadores clínicos e epidemiológicos apontam a dimensão dos problemas cervicais na população mundial:
- 60% a 80%: proporção da população que sofre de dores no pescoço em algum momento da vida, segundo análise de dados do estudo Global Burden of Disease 2021, levantamento global sobre o impacto de doenças e lesões.
- Quase 50%: parcela de pessoas que enfrentam episódios frequentes ou recorrentes de dor cervical, de acordo com a mesma pesquisa de 2021.
- 3 décadas: período analisado por uma meta-análise estudo que reúne e compara resultados de várias pesquisas independentes publicada em 2025, que identificou aumento na prevalência de escoliose (desvio lateral da coluna) entre crianças e adolescentes, associado ao sedentarismo, à má postura e ao uso excessivo de telas.
Cinco exercícios do NHS e de Anthony Ghosh para a coluna cervical
Para combater a tensão provocada pela imobilidade diante das telas, o neurocirurgião do NHS orienta fazer pausas frequentes nas posições estáticas e movimentar a coluna ao longo do dia. Os cinco cuidados reúnem ajustes posturais, mobilidade articular e fortalecimento dos músculos flexores profundos do pescoço, estruturas internas responsáveis pela estabilização das vértebras cervicais.
Um dos movimentos mais específicos, voltado para corrigir a projeção da cabeça para a frente, é a retração do queixo. Na execução desse exercício, a pessoa deve alongar suavemente o pescoço para cima enquanto recolhe o queixo para trás imaginando segurar um pêssego macio sob o queixo sem amassá-lo e sem deixá-lo cair, mantendo os ombros relaxados, afastando as clavículas, levando as escápulas (ossos das costas na altura dos ombros) para baixo e para trás e contraindo levemente o abdômen profundo, sem pressionar a garganta.
As cinco práticas recomendadas seguem parâmetros exatos de posição, altura e tempo de execução:
- Rotação suave da cabeça (orientação do NHS): sentado com a coluna ereta ou deitado de costas, virar a cabeça lentamente para a direita até uma posição confortável, sustentar por 2 segundos, voltar ao centro e repetir para a esquerda, fazendo de duas a três repetições ao longo do dia.
- Manutenção de postura neutra: conservar o pescoço alinhado à coluna com ombros e costas relaxados, mudando de posição regularmente durante o uso do computador, leitura, direção de veículos ou ao assistir à televisão.
- Retração do queixo: alinhar a coluna cervical recolhendo o queixo suavemente para trás enquanto cresce o pescoço para cima e estabiliza as escápulas.
- Fortalecimento deitado dos flexores profundos: deitar de costas na cama com joelhos dobrados e pés apoiados, aproximar o queixo do peito, colocar uma mão atrás da cabeça para elevá-la cerca de 2,5 centímetros do colchão, retirar o apoio da mão e sustentar a posição por poucos segundos no início, progredindo gradualmente até alcançar 30 segundos.
- Resistência cervical sentado: em uma cadeira com encosto para a cabeça, pressionar suavemente a parte de trás do crânio contra o apoio e, na sequência, levar o queixo em direção ao peito, exercício que pode evoluir para o uso controlado de faixas elásticas de resistência em pessoas com maior condicionamento.
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INTO alerta para dores nos ombros e quando procurar médico
No Brasil, o Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (INTO), órgão vinculado ao Ministério da Saúde, também emite alertas técnicos sobre a condição conhecida como pescoço de texto ou pescoço de celular. Segundo a instituição, a sobrecarga mecânica sobre a musculatura e as articulações cervicais cresce na mesma proporção em que aumenta o ângulo de inclinação da cabeça para a frente, quadro que pode irradiar dores para os ombros e para o dorso.
Do ponto de vista histórico da ergonomia, as mesas planas de trabalho tornaram-se padrão apenas nos últimos 100 anos, impulsionadas pela adoção das máquinas de escrever e, décadas depois, dos computadores pessoais, o que modificou a postura humana e estabeleceu novos padrões de dores na coluna.
