Clima da Terra sofre desestabilização rápida, aponta estudo da OSU

Planeta Terra

Planeta Terra - Object99/shutterstock.com

Uma coligação internacional de cientistas liderada pela Universidade Estadual do Oregon (OSU), em Corvallis, nos Estados Unidos, publicou na revista científica BioScience um relatório que diagnostica a rápida desestabilização do clima da Terra. Dos 16 indicadores climáticos monitorados pelo grupo, chamados de sinais vitais planetários, sete atingiram níveis extremos recordes em 2026, enquanto diversos outros apresentam tendências de agravamento e aceleração.

Intitulado “O estado do clima em 2026: desafios e oportunidades” (em tradução livre do original em inglês, identificado pelo registro científico DOI 10.1093/biosci/biag125), o sétimo relatório anual da coligação adverte sobre o risco crescente de o planeta ultrapassar pontos de inflexão críticos. “A rápida desestabilização é agora um diagnóstico, e não um alerta para o futuro”, disse William J. Ripple, professor catedrático emérito da Faculdade de Silvicultura da Universidade Estadual do Oregon e coautor principal do relatório.

Gases de efeito estufa e o recorde de 428 ppm no clima da Terra

As concentrações na atmosfera dos três principais gases de efeito estufa dióxido de carbono, metano e óxido nitroso  alcançaram novos patamares históricos em 2026, impulsionadas pela sobrecarga de atividades humanas sobre a atmosfera, os oceanos e a biosfera. Em maio de 2026, a marca de dióxido de carbono ultrapassou 428 partes por milhão (ppm), o maior índice registrado no planeta em pelo menos 2 milhões de anos e um volume cerca de 50% acima dos níveis pré-industriais, medidos no final do século XVIII, antes da Era Industrial.

Acompanhe: Perseverance supera marca histórica de distância em Marte

Esse acúmulo de gases que retêm calor acelerou a taxa de aquecimento global para cerca de 0,36 °C por década desde 2010. O reflexo imediato apareceu nas medições de temperatura do meio do ano: julho de 2026 foi o mês mais quente já registrado na história dos Estados Unidos contíguos, período em que as temperaturas globais dos oceanos também bateram recorde histórico.

Além da temperatura superficial da água, o conteúdo de calor acumulado nos oceanos e a elevação do nível do mar atingiram recordes de alta. Nas últimas décadas, 56% da subida do nível do mar foi provocada pela expansão térmica da água oceânica, fenômeno em que o líquido aumenta de volume ao aquecer. No mesmo período, a espessura das geleiras e a massa de gelo da Groenlândia caíram para mínimos históricos, sendo que o volume extremo de água do degelo de verão na camada da Groenlândia cresceu seis vezes nas últimas décadas.

Avanço de 43% na energia limpa e recorde de combustíveis fósseis

O documento que foi publicado aponta também transformações no setor energético, com avanços no armazenamento por baterias e na geração renovável, que superou a eletricidade gerada a carvão em nível mundial durante o ano de 2025. Atualmente, as fontes de baixo carbono fornecem cerca de 43% de toda a eletricidade global, mas o aumento na demanda mundial de energia fez com que o consumo de combustíveis fósseis  petróleo, carvão e gás  crescesse 0,9% em 2025, atingindo níveis recordes e levando as emissões anuais de dióxido de carbono ligadas à energia a superarem pela primeira vez a marca de 41 gigatoneladas, o equivalente a 45 bilhões de toneladas curtas.

Foto: icebergs derretendo geleira – Mozgova/shutterstock.com

“Com as fontes de baixo carbono a fornecerem agora cerca de 43% da eletricidade global, podemos estar a assistir ao surgimento do que chamamos a ‘Era da Eletricidade'”, afirmou Christopher Wolf, pesquisador da Terrestrial Ecosystems Research Associates, ex-pesquisador de pós-doutorado da OSU e coautor principal do relatório.

Na avaliação do pesquisador, o avanço das renováveis ainda não compensa a queima de derivados de carbono. Wolf declarou que “isto é um motivo de esperança, mas a utilização de combustíveis fósseis e as emissões ainda estão em níveis recorde, pelo que a transição precisa de ser acelerada drasticamente.”

Mortes por calor na Europa e destruição de 10,8 milhões de hectares

Os autores do estudo que incluem o cientista Johan Rockström, do Instituto Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático, na Alemanha, instituição onde também atua o cientista climático Nico Wunderling, que comentou a pesquisa de forma independente relatam que ondas de calor extremas, inundações, secas, tempestades e incêndios florestais deixaram de ser eventos raros. Na edição anterior do documento, o sexto relatório anual publicado em outubro de 2025, a equipe havia monitorado 34 sinais vitais planetários, identificando 22 em níveis recordes.

No levantamento de 2026, o grupo contabilizou a destruição de 10,8 milhões de hectares (cerca de 27 milhões de acres) de cobertura arbórea global por incêndios florestais em 2025, área equivalente ao território do estado norte-americano do Tennessee e a terceira maior perda já registrada. Os cientistas reuniram ainda o balanço de desastres fatais ocorridos nos 12 meses anteriores à publicação, que atingem de forma desproporcional as comunidades menos responsáveis pelas emissões históricas, sobretudo no Sul Global e em pequenos Estados insulares. Em outubro de 2025, o furacão Melissa, que empatou o recorde de furacão mais forte do Atlântico em velocidade de vento, matou 95 pessoas, principalmente na Jamaica e no Haiti; já em junho de 2026, uma onda de calor na Europa causou cerca de 14.000 mortes, segundo estimativas preliminares.

Continue lendo: Oceanos da Terra: fusão de basalto com hidrogênio converte até 70% do óxido de ferro em água em até 3 horas

Quais são as projeções para o clima da Terra até 2050 e 2100?

A previsão de formação de um fenômeno climático El Niño muito forte no segundo semestre coloca 2026 a caminho de se tornar um dos anos mais quentes já registrados na história. Os cientistas alertam que, se o ritmo atual de emissões continuar, o planeta pode atingir o limite de aquecimento de 2 °C acima dos níveis pré-industriais antes do ano de 2050.

“Acho que há uma possibilidade real de que alguém que tem 30 anos atualmente veja grandes mudanças associadas a pontos de inflexão climáticos durante a sua vida”, disse William J. Ripple, em tradução livre.

A longo prazo, pesquisadores citados no relatório estimam que fontes naturais de gases de efeito estufa ativadas pelo próprio aquecimento do planeta como os incêndios florestais, as zonas úmidas e o degelo do permafrost, que é o solo permanentemente congelado das regiões árticas podem ampliar o aquecimento causado por humanos após 2020 em cerca de 20% a 30% até o ano 2100. Para tentar estabilizar o sistema climático e reduzir os danos, o relatório cobra que governos e líderes mundiais abandonem a política de manter os negócios no formato tradicional, cortem emissões e adotem medidas rápidas de adaptação, como resfriamento urbano, restauração de manguezais e zonas úmidas, energia solar distribuída, preparação contra incêndios, conservação da água e transição para dietas baseadas em vegetais.

Fatos que embasam o relatório sobre o clima da Terra

Leia também: Estudo liderado pela Universidade de Zurique acha 750 espécies sem grupo em lagos

  • Instituição líder: Universidade Estadual do Oregon (OSU), sediada em Corvallis, nos Estados Unidos.
  • Coautores principais: William J. Ripple (professor catedrático emérito da OSU) e Christopher Wolf (pesquisador da Terrestrial Ecosystems Research Associates).
  • Outras instituições participantes: Instituto Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático, da Alemanha, representado pelo coautor Johan Rockström.
  • Registro científico do documento: DOI 10.1093/biosci/biag125.
Beatriz: Beatriz Lima é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024.