Fóssil da rocha da Esfinge de Gizé revela novo crocodiliano

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Esfinge de Gizé, Pirâmide - pius99/ istockphoto.com Foto: Esfinge de Gizé, Pirâmide - pius99/ istockphoto.com

Uma equipe internacional de cientistas reclassificou um crânio fóssil encontrado nas rochas da Grande Esfinge de Gizé, no Egito, e identificou um novo gênero de crocodiliano extinto batizado de Herugavialis cairensis. O estudo, publicado na revista científica Royal Society Open Science na quarta-feira (7), demonstra que o animal do período Eoceno Médio é um parente antigo da linhagem do atual gavial-indiano, alterando uma classificação taxonômica que durava desde 1927.

O material foi extraído da Formação Mokattam, no norte do Egito, a mesma camada de calcário marinho explorada há mais de 4.000 anos para esculpir a Esfinge (cerca de 2.500 a.C.), erguer as Pirâmides de Gizé e construir parte do Cairo Histórico. A pesquisa foi liderada por Paul M. J. Burke, pesquisador do Museu Sueco de História Natural, em Estocolmo, e ex-pesquisador da University College London (UCL), em conjunto com Philip D. Mannion, professor de paleobiologia na UCL. Também assinam o artigo Stephan N. F. Spiekman, do Museu Estadual de História Natural de Stuttgart, na Alemanha, e os pesquisadores Belal S. Salem, Sara Saber e Hesham M. Sallam, da Universidade de Mansoura, no Egito.

Homenagem ao deus Hórus e semelhança física com a Grande Esfinge de Gizé

Estátua deus Hórus - frentusha/ istockphoto.com
Estátua deus Hórus – frentusha/ istockphoto.com

O nome escolhido para o novo gênero faz referência direta ao deus egípcio Heru (Hórus), divindade associada à própria Grande Esfinge. Além da origem geológica em comum nas colinas de Mokattam, o crânio utilizado como base para a descrição da espécie, catalogado sob o código SMNS 10575, apresenta uma particularidade física: a ponta do focinho, correspondente ao osso pré-maxilar, está quebrada e ausente.

“Dada essa coincidência com o nariz famosamente ausente da Grande Esfinge, decidimos batizar o novo crocodilo em homenagem ao deus egípcio Heru, que possivelmente foi a inspiração para este monumento icônico”, afirmou Philip Mannion, em tradução livre.

Microtomografia do Herugavialis cairensis revela parentesco com o gavial-indiano

Para reavaliar o espécime abrigado no Museu Estadual de História Natural de Stuttgart, na Alemanha, os pesquisadores aplicaram exames de microtomografia computadorizada (micro-CT) no crânio original e analisaram fragmentos atribuídos ao animal, como partes das mandíbulas e do focinho. O procedimento permitiu reconstruir digitalmente a anatomia interna sem danificar a peça e revelou detalhes que passavam despercebidos em observações superficiais. Os exames apontaram órbitas oculares com bordas elevadas formadas por diferentes ossos cranianos, um alongamento dos ossos lacrimais (situados à frente dos olhos), além de diferenças estruturais na parte posterior da cabeça e na caixa craniana, que aloja o encéfalo. Essas feições anatômicas provaram que o réptil pertence à base da linhagem gavialina, grupo do atual gavial-indiano (Gavialis gangeticus), que habita o rio Ganges, na Índia, afastando a hipótese anterior de parentesco direto com o falso-gavial (Tomistoma schlegelii), espécie do Sudeste Asiático.

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“Com os dados da tomografia computadorizada, conseguimos reconstruir os ossos e verificar como a morfologia de Herugavialis difere dos dois gaviais atuais”, disse Paul Burke.

O levantamento quantitativo e anatômico do estudo reuniu métricas específicas sobre a morfologia do animal e a evolução do grupo:

  • Proporção do focinho: o rostro longo e estreito do Herugavialis cairensis ocupa 64% do comprimento total do crânio.
  • Escopo da análise filogenética: os cientistas compararam 152 espécies e 331 caracteres anatômicos para definir a posição evolutiva do fóssil.
  • Registro fóssil mundial: mais de 40 espécies de gavialoides extintos já foram catalogadas no norte da África, Ásia, Europa e América do Norte.
  • Espécies vivas atualmente: apenas 2 espécies de gavialoides de água doce sobrevivem na Ásia (o gavial-indiano e o falso-gavial), ambas ameaçadas de extinção.
  • Cronologia da publicação: o artigo foi recebido pela revista Royal Society Open Science em 10 de junho de 2026, aceito em 31 de julho de 2026 e publicado oficialmente em 7 de outubro de 2026.

Trajetória do fóssil SMNS 10575 desde o século 19 até a revisão em Stuttgart

O crânio holótipo (peça de referência única usada para descrever formalmente uma espécie) foi encontrado nas colinas de Mokattam pelo coletor de fósseis alemão Richard Markgraf (1869–1916), que iniciou suas escavações na região após conhecer o geólogo e paleontólogo alemão Eberhard Fraas (1862–1915) no Cairo, em 1897. O ano exato da expedição em que Markgraf recolheu o crânio, contudo, permanece incerto devido à escassez de registros documentais da coleta original.

Em 1904, Eberhard Fraas realizou os primeiros estudos sobre o material egípcio. A descrição formal só ocorreu em 1927, quando o paleontólogo Lorenz Müller, do Museu de História Natural de Stuttgart, classificou o fóssil como Tomistoma cairense por observar semelhanças externas com o falso-gavial atual, mantendo o exemplar sob essa denominação por quase um século.

Três espécies de gavialoides no Egito e a extinção no mar Mediterrâneo

Diferentemente dos gaviais modernos de rios asiáticos, o Herugavialis cairensis vivia em ambientes marinhos rasos no norte do Egito durante o Eoceno Médio. A reavaliação comprova que o animal não teve relação de parentesco direto com outras duas espécies de gavialoides que habitaram o Paleógeno egípcio na região de Faium, ao sul do Cairo: o Paratomistoma courti, da Formação Gehannam (Eoceno Médio, de aproximadamente 41 milhões de anos), e o Eogavialis africanum, da Formação Qasr el-Sagha (final do Eoceno, de 37 milhões de anos atrás).

“Em nosso artigo, apresentamos as diferenças anatômicas entre Herugavialis e outros gavialoides do Egito. As diferenças são suficientemente claras para confirmarmos que se trata de espécies distintas. Ainda estamos trabalhando para compreender a história evolutiva dos gavialoides, mas nossos resultados indicam que havia três espécies distintas no Egito durante o Paleógeno”, declarou Burke.

Para o coautor Belal Salem, a redescrição ajuda a mapear a distribuição geográfica desses répteis no norte do continente africano. “Essas três espécies não são aparentadas, ou seja, não representam uma sequência evolutiva simples. São linhagens distintas que ocuparam o norte do Egito em diferentes períodos. Juntamente com registros do Marrocos, elas sugerem que o norte da África abrigou uma diversidade considerável de gavialoides ao longo do Eoceno, com diferentes linhagens ocupando ambientes marinhos rasos ao longo da margem sul do mar de Tétis”, afirmou Salem.

Na transição do período Eoceno para o Oligoceno, o resfriamento global e a queda no nível dos oceanos provocaram extinções pontuais nas linhagens mediterrâneas. O registro fóssil mostra uma ausência do grupo durante o Oligoceno, seguida por uma recolonização com linhagens distintas no Mioceno Inferior e Médio (entre 23 milhões e 5,3 milhões de anos atrás), cujos vestígios foram localizados na Itália, em Portugal e em Malta. Toda a diversidade de crocodilianos da bacia mediterrânea desapareceu de forma definitiva há cerca de 6 milhões de anos, durante a Crise Salina do Messiniano, evento geológico marcado pelo ressecamento do mar Mediterrâneo.

“Durante grande parte dos últimos 50 milhões de anos, a região do Mediterrâneo abrigou uma alta diversidade de crocodilos, incluindo gaviais. No entanto, essa diversidade flutuou ao longo do tempo, parecendo corresponder a mudanças na temperatura global e no nível do mar, antes da perda de todos os crocodilos nesta região como resultado do ressecamento do Mediterrâneo há aproximadamente 6 milhões de anos”, declarou Paul Burke.

Bruna Santos é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve e colabora para o portal desde 2024. Formação: Professora.

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