Fóssil de ninfa com 298 milhões de anos é descoberto em mina de Aveiro

6 min de leitura
Ninfa de inseto fóssil descoberta no Pejão - Divulgação/Helena Couto/Faculdade de Ciências da Universidade do Porto Foto: Ninfa de inseto fóssil descoberta no Pejão - Divulgação/Helena Couto/Faculdade de Ciências da Universidade do Porto

Uma equipe internacional com pesquisadoras da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP) anunciou nesta quarta-feira (14) a descoberta do fóssil de uma nova ninfa de inseto semelhante a uma libélula atual, no distrito de Aveiro, em Portugal. O exemplar tem cerca de 298 milhões de anos e foi localizado nas rochas da mina da Paraduça, na região do Pejão, município de Vale de Cambra.

A coleta no terreno foi feita por Sara Silva, doutora em Geociências pela FCUP, que contou com o trabalho de identificação de Helena Couto, professora jubilada (aposentada com manutenção de vínculo acadêmico) da mesma faculdade e pesquisadora do Instituto de Ciências da Terra (ICT). Especialista em fósseis, Couto destacou a dificuldade de catalogar insetos em fase juvenil (ninfa) daquele período geológico: “As ninfas de insetos do Carbonífero são bastante raras. São difíceis de atribuir a grupos específicos de organismos que têm um ancestral comum, que são geralmente definidos com base nos fósseis de insetos adultos”, afirmou a pesquisadora.

Morfologia da ninfa de 10 milímetros encontrada no Pejão

O exemplar recolhido na antiga exploração de carvão a céu aberto da mina da Paraduça apresenta um corpo com cerca de 10 milímetros de comprimento, preservado na rocha sob a forma de dois moldes externos complementares. Nas marcas deixadas nos xistos, os cientistas conseguiram observar fragmentos de pernas, cercos curtos (apêndices localizados na extremidade traseira do abdômen dos insetos) e um total de oito segmentos corporais visíveis. A ausência completa de asas desenvolvidas foi o indicador morfológico determinante para que a equipe confirmasse que o registro paleontológico pertence a uma jovem ninfa, ou seja, um indivíduo que morreu ainda em estágio imaturo de desenvolvimento antes de atingir a fase adulta.

A análise anatômica revelou que o inseto pré-histórico guarda semelhança morfológica com as ninfas das libélulas modernas, que integram a família Libellulidae e a ordem Odonata. O fóssil exibe um abdômen volumoso e grandes pernas posteriores voltadas para a parte da frente do corpo, características físicas que indicam a possibilidade de um modo de vida aquático durante a fase jovem do animal. Além da proximidade visual com as libélulas, a posição relativa das pernas traseiras em relação ao tronco também mostra paralelos anatômicos com representantes da ordem Plecoptera, grupo de insetos com fases juvenis aquáticas cuja existência é conhecida na paleontologia desde o subperíodo Pensilvaniano.

Arqueologia, arqueólogo - Masarik/shutterstock.com
Foto: Arqueologia, arqueólogo – Masarik/shutterstock.com

Estudo na revista Neues Jahrbuch für Geologie und Paläontologie e datas da descoberta

Antes do comunicado público enviado pela FCUP na quarta-feira, 14 de outubro de 2026, a própria Universidade do Porto havia divulgado a notícia na segunda-feira (12). O artigo científico que descreve formalmente o exemplar do Pejão foi publicado em 15 de setembro de 2026 na revista científica internacional Neues Jahrbuch für Geologie und Paläontologie, publicação especializada nas áreas de geologia e paleontologia.

Além das pesquisadoras portuguesas Sara Silva e Helena Couto, o trabalho científico é assinado por dois especialistas estrangeiros que integram a equipe internacional responsável pela análise do material. São coautores da pesquisa André Nel, entomólogo (especialista no estudo científico de insetos) do Museu Nacional de História Natural, vinculado ao Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS) e à Universidade de Sorbonne, em Paris, na França, e Torsten Wappler, paleontólogo, entomólogo, diretor do Departamento de História Natural e professor na Universidade de Bonn, na Alemanha.

Veja também: Luz ultravioleta expõe detalhes de pele e cartilagem em fóssil de crocodilo de 125 milhões de anos

  • Idade estimada do fóssil: cerca de 298 milhões de anos (Carbonífero Superior, entre 323 e 298 milhões de anos atrás).
  • Dimensões e preservação: corpo de aproximadamente 10 milímetros de comprimento, com 8 segmentos visíveis e 2 moldes externos.
  • Local exato da coleta: mina de carvão a céu aberto da Paraduça, no Pejão, município de Vale de Cambra, distrito de Aveiro, Portugal.
  • Data da publicação científica: 15 de setembro de 2026, na revista Neues Jahrbuch für Geologie und Paläontologie.
  • Datas de divulgação institucional: 12 de outubro de 2026 pela Universidade do Porto e 14 de outubro de 2026 pela FCUP.

Geologia da Bacia Carbonífera do Douro no Carbonífero Superior

O exemplar foi retirado de camadas de xistos formadas durante o Carbonífero Superior (também denominado subperíodo Pensilvaniano, especificamente no estágio Gzheliano), uma divisão de tempo da era Paleozoica que ocorreu aproximadamente entre 323 e 298 milhões de anos atrás. A mina da Paraduça, onde Sara Silva localizou a rocha, faz parte da chamada Bacia Carbonífera do Douro. Em território português, essa formação geológica concentra um dos principais registros continentais preservados daquele intervalo da história da Terra, guardando vestígios de antigos ecossistemas terrestres e de água doce em meio às antigas áreas de extração mineral.

Por que a espécie da ninfa de Aveiro ainda não foi definida?

Apesar do detalhamento dos oito segmentos corporais e das pernas posteriores nos dois moldes externos, os quatro pesquisadores envolvidos no estudo ainda não conseguiram atribuir o fóssil de Vale de Cambra a uma espécie específica. Como explicou a professora Helena Couto, a classificação taxonômica dos grupos de insetos que compartilham um ancestral comum naquele período baseia-se quase sempre nas características anatômicas de exemplares adultos, somando-se ao fato de que a rocha encontrada não preservou detalhes suficientes da estrutura da cabeça nem dos primórdios das asas.

Saiba mais: Pesquisa na China revela flor fóssil de 295 milhões de anos

Para superar essa limitação na classificação biológica do animal, o próximo passo da equipe da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e de seus colaboradores na França e na Alemanha concentra-se em novas buscas paleontológicas na região. A expectativa dos cientistas agora é localizar na Bacia Carbonífera do Douro um novo espécime em melhor estado de conservação, que permita observar com nitidez a morfologia da cabeça e os vestígios iniciais das asas da ninfa.

Beatriz Lima é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024.

Notícias relacionadas