Uso de inteligência artificial para compras no Brasil vai a 72%

7 min de leitura
Conceito de comércio eletrônico AI - echa Tungateja/ istockphoto.com Foto: Conceito de comércio eletrônico AI - echa Tungateja/ istockphoto.com

Cerca de 72% dos consumidores brasileiros afirmam já ter usado ou estar dispostos a utilizar agentes de inteligência artificial (IA) para realizar compras agora ou nos próximos 12 meses, segundo a pesquisa Agentic Commerce Report 2026, da empresa de softwares de pagamento Global Payments, divulgada na terça-feira (13). O índice de 2026 representa quase o dobro dos 39% registrados em 2025 e coloca o Brasil na segunda posição mundial entre sete mercados avaliados, atrás apenas da China.

O percentual brasileiro de 72% soma 24% de entrevistados que já experimentaram compras mediadas por agentes de IA e 48% que declararam intenção de adotar a tecnologia no período de até um ano. “O que mais chama atenção é o nível de adoção do Brasil, que está crescendo de uma forma totalmente acelerada”, disse Juan Pablo D’Antiochia, gerente-geral de Enterprise da Global Payments para a América Latina.

Veja também: Presidente da Google DeepMind alerta para perigos iminentes da inteligência artificial

Brasil registra avanço de 33 pontos percentuais na pesquisa da Global Payments

No levantamento relativo ao chamado comércio agêntico — modalidade em que um software de IA pesquisa, seleciona e compra produtos em nome do usuário —, a rejeição total dos brasileiros recuou de 27% em 2025 para 6% em 2026. Os 22% restantes informaram que talvez utilizem o método. O salto de 33 pontos percentuais na adesão ou intenção de uso no Brasil foi o maior entre todas as nações analisadas, superando o avanço da China (22 pontos percentuais), da França (21 pontos) e do Reino Unido (18 pontos).

De acordo com Juan Pablo D’Antiochia, a expectativa inicial era que mercados com legislações mais protetivas ao consumidor, como o europeu, tivessem maior abertura para o modelo, mas a rotina urbana impulsionou a demanda brasileira por automação. “Quando você olha as grandes cidades brasileiras, vê essa necessidade de tempo da pessoa que está o dia todo na rua, indo de um lado para outro. Esse consumidor tem uma necessidade urgente de delegar atividades”, afirmou o executivo.

compras online
13_Phunkod/shutterstock.com/

Confira também: Inteligência artificial favorece manutenção de regras climáticas

  • China: 86% de adoção ou intenção de uso de agentes de IA e nota média de confiança de 3,97 (escala de 1 a 5)
  • Brasil: 72% de adoção ou intenção de uso e nota média de confiança de 3,80
  • Singapura: 59% de adoção ou intenção de uso
  • Reino Unido: 48% de adoção ou intenção de uso
  • França: 46% de adoção ou intenção de uso
  • Estados Unidos: 45% de adoção ou intenção de uso
  • Austrália: 40% de adoção ou intenção de uso
  • Metodologia: 8.027 consumidores ouvidos pela consultoria The Lantern em maio de 2026

Segurança de pagamento preocupa 50% dos usuários de agentes de IA

Mesmo com o aumento na disposição para delegar compras, metade dos entrevistados no Brasil (50%) aponta a segurança dos dados de pagamento como principal barreira para o uso de agentes de IA. A privacidade e o uso de dados pessoais aparecem na sequência, citados por 45% dos consumidores brasileiros, enquanto 41% relatam receio de que o sistema faça escolhas erradas durante a transação.

Para elevar o grau de confiança nas ferramentas automatizadas, os consumidores ouvidos no país listaram exigências técnicas e regulatórias que condicionam o avanço do setor, abrangendo desde a redução de falhas de interpretação dos sistemas até ajustes na legislação de consumo. No estudo, 41% dos brasileiros declararam exigir confirmação prévia antes da conclusão das compras pelo agente, outros 41% pediram alertas imediatos de transação, 34% cobraram prova de imunidade a ataques cibernéticos e 33% apontaram a necessidade de clareza sobre quem responde por eventuais erros.

Leia também: Inteligência artificial provoca cortes de livros e contratos

“Estamos entrando em uma fase em que a conversa deixa de ser sobre o que a IA é capaz de fazer e passa a ser sobre o que os consumidores estão dispostos a delegar”, declarou D’Antiochia. Segundo o gerente-geral, a automação tende a avançar primeiro em produtos padronizados, com pouca diferença entre marcas e vendidos por várias lojas: “Quando frete, condições de entrega, etc., são iguais, ganha o mais barato, ou o promotor mais amigável”.

Varejistas como Amazon e Magazine Luiza criam agentes próprios de IA

O avanço dos assistentes automatizados levou grandes plataformas de comércio eletrônico a desenvolverem soluções internas enquanto restringem a atuação de robôs externos. A partir de 20 de setembro de 2026, a Amazon passou a bloquear o agente de IA Muse, lançado pela Meta em 8 de setembro de 2026, impedindo que a ferramenta realizasse compras em sua loja sob a alegação de violação dos termos de uso, falta de identificação e coleta de credenciais, ao mesmo tempo em que investe nas ferramentas próprias Alexa for Shopping e Buy for Me.

D’Antiochia prevê que os marketplaces continuarão priorizando assistentes internos antes de fazerem concessões ao mercado. “Há shoppings em que você entra por uma loja e depois acessa o resto do shopping. Todo mundo quer ser essa loja, né? Essa loja é onde você tem que passar de forma obrigatória”, disse o executivo ao comparar o controle de acesso pelas plataformas.

No mercado brasileiro, o Magazine Luiza opera o WhatsApp da Lu, plataforma de comércio conversacional com inteligência artificial que funciona como assistente de compras (personal shopper): o sistema busca produtos, refina sugestões pelo orçamento do cliente e conclui o pagamento no próprio aplicativo, somando mais de R$ 200 milhões em vendas, 9,7 milhões de clientes e 100 mil pedidos em setembro de 2026. O Mercado Livre também desenvolve uma busca aprimorada por IA e realiza testes com um assistente de compras voltado às etapas de pesquisa e decisão.

Tráfego por inteligência artificial no varejo cresceu 203% desde 2025

Os indicadores de 2026 superam os resultados da primeira edição da Pesquisa Internacional de IA Agêntica, realizada entre agosto e setembro de 2025 com cerca de 8 mil pessoas nos mesmos sete países, quando o Brasil havia registrado 39% de intenção de uso e nota média de confiança de 3,18. O crescimento aparece também no tráfego das lojas: dados da Similarweb compilados pelo BTG Pactual mostram que os acessos a sites de varejo gerados por ferramentas de IA subiram 203% entre junho de 2025 e maio de 2026, representando cerca de 0,4% do total de visitas, enquanto nos marketplaces o volume chegou a 46,8 milhões de visitas mensais originadas por IA, alta anual de 237%.

Acompanhe: Golpe com inteligência artificial usa vídeos de fazendeira e respostas automáticas para atrair vítimas

Outro levantamento do setor, o Global Digital Shopping Index 2026 – Brazil, divulgado pela Visa Acceptance Solutions em setembro de 2026, apontou que 53% dos brasileiros que compraram pela internet utilizaram inteligência artificial em alguma etapa recente da jornada. Apesar da adesão dos consumidores, o estudo da Visa indicou que apenas 15% dos varejistas no Brasil possuíam dados de produtos estruturados para leitura direta por agentes de IA.

Bruna Santos é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve e colabora para o portal desde 2024. Formação: Professora.

Notícias relacionadas