Golpe com inteligência artificial usa vídeos de fazendeira e respostas automáticas para atrair vítimas

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Golpe Foto: Golpe - Foto: tete_escape/ shutterstock.com

O pedreiro Edimar Rocha Martins, de 49 anos, viajou de ônibus de Imperatriz, no Maranhão, até Belo Horizonte, em Minas Gerais, para conhecer uma suposta fazendeira por quem se apaixonou nas redes sociais, mas descobriu que a mulher era uma personagem criada por inteligência artificial. O trabalhador desembarcou na capital mineira no domingo (11) e gastou todo o salário com as passagens e diárias de hotel na cidade.

Sem dinheiro para voltar após a descoberta da fraude, Martins precisou de auxílio da assistência social do município para deixar Minas Gerais. “Estou indo embora e não encontrei ninguém. Gastei meu salário para vir. Fiquem alerta pessoal. Não entrem nessa”, afirmou o pedreiro.

A busca por Jéssica Fazendeira em Belo Horizonte

A personagem virtual com quem o trabalhador interagia se apresentava nas redes sociais pelos nomes de Jéssica Oliveira ou Jéssica Fazendeira. Nos vídeos gerados por computador, a mulher fictícia aparecia em cenários rurais com fazenda, gado e celeiros ao fundo. Nas gravações, ela dizia ser divorciada, morar no interior de Minas Gerais e prometia bancar financeiramente quem aceitasse viver ao lado dela.

“Eu vou sustentar você, se você vier morar comigo aqui no interior de Minas”, dizia a voz gerada por inteligência artificial em um dos registros publicados na página. Em outros conteúdos, a personagem pedia que os usuários enviassem chaves PIX sob a justificativa de que mandaria dinheiro para custear a viagem dos interessados até a propriedade rural. Martins relatou que não transferiu valores nem enviou dados bancários ao perfil, concentrando o prejuízo financeiro apenas nas despesas de locomoção e hospedagem.

Divorciado e afastado do trabalho pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) por causa de um problema na perna que reduz a sua mobilidade, o morador de Imperatriz contou que a solidão após a morte da mãe motivou a decisão de buscar um novo relacionamento fora do estado. “Vim porque me deu a curiosidade de conhecer a pessoa que estava mandando mensagem pra mim, pra ver se era verdade mesmo”, declarou Martins.

Mesmo sem ter um endereço exato da propriedade ou saber em qual município mineiro a mulher morava, o pedreiro decidiu ir até a capital do estado. Ao desembarcar em Belo Horizonte, ele caminhou pelas ruas mostrando fotos da suposta companheira para moradores locais. Sem conseguir respostas, procurou a sede da Rádio Itatiaia para pedir ajuda na localização da fazendeira, momento em que foi avisado de que as imagens eram falsas e produzidas por programas de computador.

“Eu já andei com várias fotos, mostrando e perguntando se alguém conhecia essa pessoa e todos falaram que não. Então, eu me senti enganado”, disse o trabalhador. Ele relatou ainda que o estado emocional influenciou na queda no golpe. “A gente pode até desconfiar, mas quando a pessoa está na solidão, na tristeza, a gente acaba acreditando”, afirmou.

Datas, trajeto e números do caso de Edimar Rocha Martins

A jornada do trabalhador entre o interior maranhense e a capital mineira durou cinco dias entre o embarque inicial e a saída de Belo Horizonte. Os números do episódio e os registros da viagem detalham o alcance da página falsa:

  • Sexta-feira, 9 de outubro de 2026: data em que o pedreiro embarcou no ônibus em Imperatriz, no Maranhão, em direção à Região Sudeste.
  • Mais de 2 mil km (cerca de 2.100 km): distância percorrida por via terrestre até o destino em Minas Gerais.
  • Domingo, 11 de outubro de 2026: dia do desembarque em Belo Horizonte e da descoberta de que a mulher não existia.
  • Mais de 300 mil seguidores: público acumulado pelo perfil da personagem Jéssica Fazendeira nas redes sociais.
  • Terça-feira, 13 de outubro de 2026: data em que o trabalhador deixou a capital mineira de ônibus.

Como funcionam os perfis de inteligência artificial como o de Jéssica Oliveira?

A página que enganou o trabalhador maranhense utiliza sistemas de respostas automatizadas para conversar com os seguidores nos comentários e nas mensagens privadas, além de divulgar anúncios de produtos de uma plataforma de vendas on-line. Até o momento, não há confirmação sobre a identidade de quem administra o perfil de Jéssica Oliveira, nem se outras vítimas chegaram a viajar ou transferir dinheiro via PIX para os responsáveis pela conta.

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De acordo com o professor e especialista em inteligência artificial Marcos Flávio, páginas com essas características empregam robôs de conversação, conhecidos como chatbots, para responder imediatamente às mensagens e simular um diálogo real. “Pessoas mais carentes, que não entendem muito de tecnologia, não sabem diferenciar se é um vídeo falso ou não. E o que dá mais confiabilidade é que eles [as vítimas] mandam mensagem para o perfil e eles recebem uma resposta na hora, as vezes até personalizada. E isso passa uma impressão de que eles estão conversando com uma pessoa real. E muitas vezes não é uma pessoa real que está por trás, é um chat bot, uma inteligência artificial”, afirmou o professor.

O especialista explicou que o objetivo dos criadores desse tipo de conteúdo é obter lucro financeiro a partir do alto engajamento gerado pelas interações. “Esses perfis são feitos para monetizar de diversas formas. Hoje é muito comum as pessoas criarem perfis de IA para ganhar seguidores e depois revender o perfil, ou para anunciar produtos. E muitos usam até deep fakes, usando vídeos com rostos de pessoas famosas, para tentar atrair outros idosos e fingir que são reais”, disse Flávio. O termo deepfake se refere à técnica digital que sobrepõe rostos e vozes reais em vídeos manipulados por inteligência artificial.

Para evitar fraudes semelhantes, o professor orientou que os usuários observem falhas na iluminação dos vídeos, vozes com timbres artificiais e respostas instantâneas que pedem dados ou ações imediatas. O caso registrado em Minas Gerais ocorre em um período de expansão das ocorrências cibernéticas no país: segundo dados da Serasa Experian, as fraudes de identidade digital no Brasil que incluem a criação de perfis falsos e o uso de tecnologia para burlar sistemas de biometria facial tiveram alta de 36,6% no primeiro trimestre de 2026.

Acolhimento na Prefeitura de Belo Horizonte e ida para o Tocantins

Após gastar os recursos que tinha nas diárias de hotel na capital mineira, Martins foi encaminhado ao Serviço de Atendimento e Acolhimento ao Migrante, órgão vinculado à assistência social da Prefeitura de Belo Horizonte. Na unidade municipal, que atende pessoas em situação de vulnerabilidade, ele recebeu alimentação, local para banho, abrigo e orientações sobre como identificar golpes digitais nas redes sociais.

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Natural do Tocantins, o pedreiro decidiu não voltar para a casa onde vivia no Maranhão por associar a cidade ao luto pela perda da mãe. “Eu não quero mais ficar em Imperatriz, não gosto de lá. Eu gostava de lá quando minha mãe era viva. Isso minha família toda sabe. Às vezes, uma solidão dentro de casa acaba trazendo muito transtorno na vida da gente. Por isso que eu vim atrás dela”, declarou Martins. Com uma passagem de ônibus custeada e concedida pela Prefeitura de Belo Horizonte, o trabalhador embarcou na terça-feira, 13 de outubro de 2026, rumo à sua cidade natal, no Tocantins.

Beatriz Lima é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024.

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