Cientistas liderados pela Universidade Autônoma de Barcelona (UAB) e pela Universidade Tcheca de Ciências da Vida de Praga comprovaram que a presença de uma árvore ornamental exótica pesa tanto quanto o clima na expansão da abelha-gigante-da-resina (Megachile sculpturalis) pela Catalunha, no nordeste da Espanha. O estudo, publicado em 27 de julho de 2026 na revista científica Oikos, cruzou a localização do inseto com o plantio urbano da árvore-pagode-japonesa (Styphnolobium japonicum), também conhecida como sófora, e identificou um efeito de aceleração mútua entre as duas espécies originárias da Ásia.
Os autores apontaram no artigo, em tradução livre, que “a disponibilidade de S. japonicum foi pelo menos tão importante quanto a adequação climática para moldar a distribuição de M. sculpturalis”. A pesquisa foi conduzida por Daniel Echeandía, pesquisador da UAB e primeiro autor do trabalho, sob supervisão de Carlos Hernández-Castellano, pesquisador do Departamento de Ecologia da Universidade Tcheca de Ciências da Vida de Praga.
O trabalho contou ainda com a coautoria de Jordi Margalef-Marrasé, do Centro de Investigaciones sobre Desertificación (CIDE-CSIC); Marc Riera, do Centre de Recerca Ecològica i d’Aplicacions Forestals (CREAF); Jordina Belmonte, do Institut de Ciència i Tecnologia Ambientals (ICTA-UAB); Julia Lanner, do Departamento de Meio Ambiente e Biodiversidade da Universidade de Salzburgo; e Ricardo Caliari Oliveira, pesquisador da UAB, além da participação da BOKU University, de Viena. Os resultados foram detalhados em comunicado da Faculdade de Medicina Veterinária da UAB em 15 de setembro de 2026.
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Como a árvore-pagode-japonesa impulsiona o avanço da abelha-gigante-da-resina?
Para medir a relação entre a planta e o inseto, a equipe utilizou modelos estatísticos lineares generalizados que avaliaram a presença da árvore-pagode-japonesa dentro de um raio de 2,5 quilômetros (1,6 milha), distância estimada de voo da abelha em busca de alimento. O cruzamento de variáveis demonstrou que a árvore não nativa sustenta a criação de um corredor biológico ao longo das áreas urbanizadas, fenômeno classificado na ecologia como colapso invasivo (invasional meltdown, no termo em inglês), quando uma espécie introduzida facilita a fixação de outra espécie também estrangeira.
Originária da China, a árvore Styphnolobium japonicum floresce durante o verão europeu, nos meses de julho e agosto. Esse calendário coincide com o período de voo e reprodução da Megachile sculpturalis, que vai de junho a setembro. Enquanto em seu habitat original no Leste Asiático a abelha atua de forma generalista e coleta pólen de diferentes plantas, como o kudzu, nas cidades da Europa as análises de pólen mostram que o inseto depende de maneira principal ou quase exclusiva das flores da árvore-pagode-japonesa para alimentar suas larvas.
O levantamento de campo e de bancos de dados como GBIF e iNaturalist, somado à consulta a literatura científica, entomólogos locais e administrações municipais, revelou uma alta concentração da planta na região metropolitana. A rota de entrada do inseto na Catalunha ocorreu provavelmente a partir da França, cruzando a faixa oriental mais baixa da cordilheira dos Pireneus, o que gerou maior concentração no leste catalão. A partir dali, o plantio urbano da árvore asiática passou a facilitar o avanço da frente de invasão em direção ao oeste do território.
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Números e locais do mapeamento da Megachile sculpturalis na Catalunha
Os pesquisadores enviaram pedidos de informação sobre arborização urbana a centenas de prefeituras catalãs e reuniram dados precisos sobre a presença das duas espécies na região:
- 150 ocorrências confirmadas da abelha-gigante-da-resina (Megachile sculpturalis) em território catalão.
- 21.383 exemplares da árvore Styphnolobium japonicum mapeados na área de estudo.
- 240 prefeituras da Catalunha contatadas pela equipe, com 173 respostas (72% do total) e confirmação da presença da árvore em 159 municípios.
- 11.000 árvores da espécie concentradas aproximadamente nas vias públicas da cidade de Barcelona.
- 1.000 exemplares plantados aproximadamente nas ruas do município vizinho de Viladecans.
- 85,56% de taxa de acerto atingida pelo modelo estatístico mais preciso do estudo, que combinou dados de clima, localização geográfica e presença da árvore num raio de 2,5 quilômetros.
Origem na Ásia e chegada da abelha solitária à Europa
Nativa da China, do Japão, de Taiwan e da Coreia do Sul, a Megachile sculpturalis é uma abelha solitária que atinge até 2 centímetros de comprimento corporal, porte superior ao da maioria dos polinizadores nativos europeus. Por não formar colônias nem produzir mel em colmeias coletivas, a fêmea constrói seus ninhos individualmente durante o verão em cavidades já existentes em árvores, jardins privados, estruturas de madeira ou frestas de construções públicas.
A espécie foi a primeira abelha não nativa a se estabelecer no continente europeu. A introdução acidental fora da Ásia ocorreu provavelmente por meio do comércio marítimo internacional de madeira, já que o inseto utiliza orifícios em troncos para depositar seus ovos. O primeiro registro fora do continente asiático ocorreu nos Estados Unidos, em 1994, seguido pela chegada à Europa Ocidental em 2008. Na Península Ibérica, a primeira detecção aconteceu na própria Catalunha, em 2018, ano em que o animal passou a ser monitorado pelo grupo de pesquisa Wildlife Pollinators, da Faculdade de Medicina Veterinária da UAB.
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Recomendações para o plantio urbano e pontos ainda em aberto
No texto publicado na revista Oikos, os cientistas resumiram que, em tradução livre, “a árvore não nativa Styphnolobium japonicum facilita a dispersão da abelha Megachile sculpturalis em uma região não nativa”. Diante do efeito direto do paisagismo das prefeituras sobre a fauna invasora, o grupo alerta para a necessidade de revisar a escolha das árvores usadas em ruas e parques.
Os pesquisadores afirmaram no documento, também em tradução livre, que “essas descobertas destacam o papel que as plantas ornamentais não nativas podem desempenhar na propagação de espécies exóticas e enfatizam a importância de reconsiderar espécies nativas nos plantios urbanos para reduzir tais riscos”. A substituição gradual por flora local nos planos municipais de arborização é apontada pela equipe como medida para limitar a oferta de pólen a insetos recém-chegados.
Apesar da comprovação estatística sobre a distribuição geográfica, a equipe científica informa que duas questões biológicas ainda não estão confirmadas. Os pesquisadores destacam que ainda não se sabe se o consumo do pólen da árvore-pagode-japonesa aumenta efetivamente o sucesso reprodutivo da abelha na Europa — ou seja, a quantidade total de descendentes gerados por fêmea — nem se a árvore recebe, em troca, um serviço de polinização mais eficiente por parte do inseto invasor.
