Malária: pesquisa da USP descobre receptor de melatonina no parasita e testa composto que trava infecção

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mosquito, aedes aegypt, malária - Kwangmoozaa/Shutterstock.com Foto: mosquito, aedes aegypt, malária - Kwangmoozaa/Shutterstock.com

Cientistas da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com pesquisadores da Université Paris Cité, na França, identificaram o receptor proteico que permite ao parasita causador da forma mais grave da malária detectar o hormônio melatonina no corpo humano. A descoberta, divulgada para o público brasileiro na terça-feira (13), demonstra como o microrganismo sincroniza seu ciclo de multiplicação de 48 horas ao relógio biológico do paciente e abre caminho para novos medicamentos capazes de travar a infecção.

A equipe conduziu os trabalhos no Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) e na Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da USP, com foco no protozoário Plasmodium falciparum. Além de comprovar a função da proteína receptora, os pesquisadores testaram em laboratório uma substância sintética que inibiu o crescimento do parasita sem afetar as células humanas. “Essa descoberta é particularmente relevante porque revela que Plasmodium falciparum possui uma capacidade sofisticada, e até então desconhecida, de perceber e utilizar sinais circadianos do hospedeiro para regular seu desenvolvimento”, afirmou Célia Regina da Silva Garcia, professora do Departamento de Análises Clínicas e Toxicológicas da FCF-USP e líder do grupo de pesquisa.

Como o Plasmodium falciparum usa a melatonina no sangue?

Malária com máscaras, luvas e amostras de laboratório - Erman Gunes/shutterstock.com
Foto: Malária com máscaras, luvas e amostras de laboratório – Erman Gunes/shutterstock.com

Produzida pela glândula pineal, estrutura localizada no cérebro, a melatonina é liberada na corrente sanguínea principalmente durante a noite para regular o ciclo de sono e vigília. Nos mamíferos, esse hormônio atua por meio de estruturas chamadas de receptores acoplados à proteína G (GPCRs), uma família de proteínas encarregada de transmitir sinais químicos externos para o interior das células e que serve de alvo para diferentes medicamentos no mercado. O estudo comprovou que o parasita da malária possui um mecanismo semelhante para reconhecer a presença desse hormônio no sangue e coordenar seu ritmo de desenvolvimento dentro das hemácias, que são os glóbulos vermelhos.

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Uma vez instalado nas células sanguíneas, o protozoário utiliza essa leitura hormonal para avançar de maneira sincronizada até romper a membrana celular e invadir novas estruturas do hospedeiro. Esse rompimento conjunto é o que provoca os quadros clínicos clássicos da doença, marcados por picos periódicos de temperatura corporal conhecidos na medicina como febre terçã. “Em um hospedeiro infectado, grande parte dos parasitas tende a progredir de forma coordenada ao longo de um ciclo de aproximadamente 48 horas, culminando na ruptura das hemácias e na liberação simultânea de novos parasitas na circulação”, declarou a professora Célia Regina da Silva Garcia.

Testes na USP com composto sintético e bloqueio seletivo

Para confirmar qual estrutura do parasita reagia ao hormônio do sono, os cientistas analisaram candidatos genéticos por meio de simulações computacionais (ambiente chamado de in silico) e testes diretos em culturas de células em laboratório (in vitro). O trabalho tem como primeiros autores Bárbara Karina de Menezes Dias (Bárbara Dias), pesquisadora do ICB e da FCF da USP, e Maneesh Kumar Singh, pesquisador de pós-doutorado que atua vinculado tanto à FCF-USP quanto à Université Paris Cité.

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Durante a etapa experimental, a equipe aplicou um composto sintético para verificar se era possível interferir nessa comunicação química sem prejudicar o funcionamento do organismo humano. A substância ativou apenas a proteína do protozoário, poupando os receptores equivalentes das células humanas e impedindo que o agente infeccioso continuasse se multiplicando nas placas de cultivo. “O AR34 ativa o MT-PfSR1, mas não se liga aos receptores de melatonina humanos, mostrando, então, que ele é seletivo. Ou seja, inibe o crescimento do parasita in vitro”, disse a pesquisadora Bárbara Dias.

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A busca por substâncias que atuem em alvos exclusivos do microrganismo é tratada como prioridade pelas equipes de saúde pública. “Atualmente, o grande desafio para combater a malária é justamente o surgimento de parasitas resistentes aos antimaláricos disponíveis”, afirmou Bárbara Dias.

Ainda não há previsão para o início de testes clínicos em animais (in vivo) ou em seres humanos com o composto sintético avaliado pela USP. Como todas as análises ocorreram apenas em simulações de computador e em culturas celulares de laboratório, novas etapas de investigação são necessárias para atestar a segurança e a eficácia de futuros tratamentos em pacientes.

Cronologia de 26 anos de pesquisas sobre a malária na USP

A identificação do receptor conclui uma linha de investigação iniciada há mais de duas décadas pelos cientistas brasileiros. Nos anos 2000, o grupo coordenado por Célia Regina da Silva Garcia observou pela primeira vez que a melatonina alterava a sincronização do parasita em culturas de células, o que motivou o mapeamento genético nos anos seguintes até a publicação do artigo científico — intitulado, em tradução livre, Identificação do PfSR1-MT como candidato semelhante a GPCR responsivo à melatonina do parasita da malária humana Plasmodium falciparum.

  • Anos 2000 (há 26 anos): equipe da USP descobre que o hormônio melatonina influencia o ritmo de desenvolvimento do parasita da malária em laboratório.
  • Ano de 2008: cientistas mapeiam o genoma do Plasmodium e identificam 4 possíveis receptores semelhantes a GPCRs, dos quais 2 (incluindo o PfSR10) foram selecionados para os testes funcionais recentes.
  • 13 de setembro de 2026: publicação internacional do artigo científico com a comprovação do receptor na revista Current Research in Microbial Sciences.
  • 13 de outubro de 2026: divulgação oficial dos resultados detalhados pela universidade em São Paulo.
  • 14 de outubro de 2026: repercussão das descobertas sobre o ciclo do parasita em âmbito nacional.

Transmissão do Plasmodium e dados da OMS sobre a malária

A malária é uma doença infecciosa aguda transmitida pela picada da fêmea infectada do mosquito do gênero Anopheles, conhecido popularmente no Brasil como mosquito-prego. Existem cinco espécies do gênero Plasmodium capazes de infectar seres humanos, mas duas delas concentram a atenção das autoridades médicas: o Plasmodium vivax e o Plasmodium falciparum. Esta última espécie é a responsável pelas manifestações mais letais da enfermidade, podendo evoluir rapidamente para quadros de edema pulmonar, alterações neurológicas e insuficiência renal ou hepática quando o diagnóstico e o tratamento não ocorrem a tempo. No território brasileiro, a maior parte dos registros se concentra na região amazônica.

Dados globais mostram que a doença voltou a avançar nos levantamentos epidemiológicos mais recentes. O controle da transmissão esbarra tanto em fatores ambientais quanto na capacidade de adaptação do protozoário às drogas convencionais, o que reforça a necessidade de pesquisas voltadas a bloquear o ciclo de vida do parasita dentro das células sanguíneas.

Números da malária e dados institucionais da descoberta na USP

  • Instituições executoras: Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) e Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da USP, em colaboração com a Université Paris Cité (França).
  • Órgãos de financiamento: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).
  • Casos no mundo em 2024: 282 milhões de registros totais segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), um aumento de cerca de 9 milhões de casos (alta de 3%) na comparação com 2023.
  • Balanço nas Américas em 2024: 536.700 casos confirmados e 136 mortes registradas no continente, de acordo com o relatório da OMS.

Maria Clara é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2016: Formação: Atriz.

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