Cacatuas sabem o tamanho do próprio corpo? Pesquisa avalia a percepção das aves

Cacatua - Jane Rix/shutterstock.com

Cacatua - Jane Rix/shutterstock.com

Pesquisadores do Instituto de Pesquisa Messerli, vinculado à Universidade de Medicina Veterinária de Viena, na Áustria, comprovaram que as cacatuas-de-goffin conseguem perceber quando o próprio corpo impede a realização de uma tarefa física. No experimento publicado na revista científica Scientific Reports, 15 aves da espécie Cacatua goffiniana saíram de cima de um tapete em 97,8% das tentativas quando o próprio peso bloqueava uma bola que precisavam entregar aos cientistas.

O trabalho, intitulado Body awareness in Goffin’s cockatoos (Cacatua goffiniana) e registrado no volume 16 sob o artigo 28981 da publicação, representa a primeira adaptação para aves do paradigma experimental conhecido como “corpo como obstáculo” (body-as-obstacle, ou BAO, na sigla em inglês). Antes dos testes conduzidos no laboratório Goffin Lab, na Baixa Áustria, esse método havia sido utilizado pela ciência apenas para investigar a consciência corporal em crianças pequenas e em mamíferos. A primeira autora do estudo e pesquisadora do Instituto de Pesquisa Messerli, Paula Hundegger, descreveu a reação imediata dos animais durante as sessões. “A solução frequentemente se desenrolava em uma sequência muito clara. Uma cacatua pegava a bola, sentia a resistência, saía do tapete e completava a transferência. Vimos esse padrão desde a primeira sessão”, afirmou, em tradução livre.

Como funcionou o experimento com as 15 cacatuas-de-goffin na Baixa Áustria

Para realizar a investigação no Goffin Lab, a equipe selecionou 15 cacatuas-de-goffin que já haviam aprendido previamente a pegar uma pequena bola de madeira com o bico e entregá-la na mão de um pesquisador ao ouvir o comando em inglês “give me” (dê para mim). Na etapa principal do experimento, essa bola de madeira foi amarrada diretamente ao tapete sobre o qual a ave estava apoiada com os pés. Quando o animal puxava a bola para cumprir a tarefa, puxava também a superfície abaixo de si, mas o próprio peso corporal impedia o deslocamento do conjunto e exigia que a ave deixasse o tapete para concluir a entrega.

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Para garantir que o deslocamento das aves não fosse apenas fruto de inquietação, desconforto físico ou movimento casual sob as patas, os cientistas submeteram os animais a diferentes configurações comparativas ao longo do estudo. Na condição crítica, em que o peso da ave realmente prendia a bola ao tapete, os animais saíram da superfície em 528 de 540 testes realizados, alcançando a taxa de 97,8% de resolução do impasse. O padrão de resposta manifestou-se logo na primeira sessão experimental e manteve-se estável em todas as etapas, demonstrando que os indivíduos testados distinguiram entre um bloqueio gerado pelo próprio corpo e uma barreira física externa.

Foto: Cacatua -Cynthia A Jackson/shutterstock.com

Nos cenários de controle desenhados pela equipe austríaca, o comportamento das 15 cacatuas mudou de forma acentuada conforme a mecânica da tarefa. No primeiro teste de controle, no qual a bola de madeira estava totalmente solta e desconectada do tapete, as aves saíram da base em apenas 0,7% das oportunidades, o equivalente a 4 em 540 tentativas. Já no segundo teste de controle, em que a bola foi presa de maneira fixa à mesa ou ao chão gerando uma resistência externa que não era resolvida ao sair do tapete, a frequência de saída caiu para 39,1%, somando 211 em 540 testes. Além disso, um pré-teste específico avaliou se o simples movimento sob os pés causaria a fuga do local, mas as cacatuas permaneceram sobre o tapete em movimento em 99,4% das vezes, totalizando 179 de 180 tentativas de aprovação.

Mais de meio século de testes de espelho e a diferença para a consciência nas cacatuas-de-goffin

A escolha de testar a percepção física das aves ocorre após mais de meio século em que os estudos sobre autoconsciência animal concentraram-se quase exclusivamente no chamado teste da marca no espelho (mirror self-recognition, ou MSR, na sigla em inglês). Esse modelo tradicional depende diretamente da visão para que o indivíduo associe o reflexo observado à própria imagem corporal. Em experimentos anteriores realizados com cacatuas-de-goffin, os pesquisadores não encontraram evidências de autorreconhecimento convencional diante do espelho, embora essas aves sejam reconhecidas na biologia pela capacidade de fabricar e utilizar ferramentas, além de explorar objetos de forma tátil com o bico, a língua e os pés.

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Segundo o coautor correspondente do estudo e pesquisador do Instituto de Pesquisa Messerli, Antonio J. Osuna-Mascaró, a avaliação visual do espelho mede apenas uma fração da percepção que um ser vivo tem de si. O cientista afirmou que provavelmente todos os animais precisam representar a si mesmos de uma forma ou de outra e citou o argumento de Frans de Waal de que um macaco precisa saber se um galho pode suportar seu peso antes de pousar nele, ou se tem força e habilidade para vencer uma luta antes de desafiar outro indivíduo. Para o pesquisador, em comunicado oficial de imprensa divulgado pela Universidade de Medicina Veterinária de Viena em 18 de setembro de 2026, o teste do espelho captura uma dimensão do autoconhecimento, ligada à aparência visual, dentro de um conjunto muito mais amplo que inclui cheiro, tamanho, posição, peso e outras características que ajudam os animais a lidar com desafios físicos e sociais.

Limitações do estudo da Vetmeduni e próximos passos para a cognição de psitacídeos

Os autores do artigo grupo que inclui ainda a pesquisadora principal Alice M. I. Auersperg e os coautores Remco Folkertsma e Rachel Dale ressaltam que o desempenho de 97,8% não prova que as cacatuas-de-goffin possuam um conceito reflexivo de si mesmas semelhante ao dos seres humanos. O estudo, financiado pelo Fundo Austríaco de Ciência (Österreichischer Wissenschaftsfonds, ou FWF) por meio dos projetos START Y 01309 e PAT2728324, tampouco substitui o teste tradicional do espelho, mas comprova a existência de uma consciência corporal voltada diretamente à ação física e à resolução de problemas práticos entre peso, superfície e objeto.

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Para Antonio J. Osuna-Mascaró, os dados abrem caminho para novas abordagens metodológicas na ciência, e os pesquisadores estão aprendendo como a autorrepresentação pode ser estudada em tipos muito diferentes de mentes. Como próximo passo a partir das perguntas abertas pelo experimento de 2026, novas etapas científicas deverão verificar como as cacatuas e outras espécies de psitacídeos respondem a configurações em que precisem contornar o próprio corpo, alterar pontos de apoio ou combinar diferentes movimentos para superar obstáculos físicos.

Beatriz: Beatriz Lima é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024.
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