Cientistas e pesquisadores ouvidos na série especial Código da Vida, conduzida pelo jornalista Álvaro Pereira Júnior com a participação do médico geneticista Salmo Raskin, apontam que as terapias de rejuvenescimento financiadas por milionários enfrentam limites biológicos reais e riscos graves à saúde. O empresário norte-americano Bryan Johnson, de 49 anos, gasta cerca de US$ 2 milhões (valor anual aproximado investido em procedimentos médicos) na tentativa de reverter o envelhecimento do próprio corpo, mas a comunidade científica classifica as promessas de alcançar 140 anos de expectativa de vida como peças de marketing sem comprovação técnica.
A corrida para desacelerar o relógio biológico movimenta startups e laboratórios, sobretudo no Vale do Silício, nos Estados Unidos. Ao lado dos avanços no estudo de células e proteínas artificiais no Canadá e na Bélgica, o setor registrou um alerta internacional após a morte de duas crianças submetidas a testes clínicos de edição genética na China.
Bryan Johnson e a fortuna da Braintree aplicada no Project Blueprint
Nascido em 22 de agosto de 1977, Bryan Johnson construiu sua fortuna no setor de tecnologia ao fundar a empresa de pagamentos móveis e web Braintree, companhia que adquiriu o sistema Venmo em 2012 e foi vendida ao PayPal em 2013 pelo valor total de US$ 800 milhões. Com parte desse capital, o fundador da empresa Kernel lançou em 2021 o Project Blueprint, um programa de longevidade monitorado por uma equipe de mais de 30 médicos e especialistas que submete o empresário a uma rotina diária de dezenas de suplementos, dieta restrita e baterias constantes de exames laboratoriais.
A meta declarada por Johnson é completar 50 anos de idade cronológica apresentando indicadores biológicos e físicos equivalentes aos de um jovem de 18 anos. Em julho de 2026, o empresário já havia gerado repercussão ao declarar que cultivou em placa de Petri células do próprio sangue reprogramadas para um estado primitivo, material batizado por ele de “Baby-Bryan” — procedimento que geneticistas explicaram tratar-se apenas de reprogramação celular, e não de clonagem humana.
Quais são as frentes da ciência contra o envelhecimento celular?
Fora dos protocolos individuais de milionários, a investigação acadêmica sobre o envelhecimento concentra esforços em mecanismos internos das células. Uma das linhas principais analisa as mitocôndrias, estruturas responsáveis pela produção de energia celular, enquanto outra busca formas de eliminar as células senescentes — conhecidas popularmente como células “zumbis”, que param de funcionar de maneira adequada e se acumulam no organismo com o passar dos anos, favorecendo o surgimento de doenças degenerativas.
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Na área da genética, laboratórios testam a técnica de edição de base no DNA, ferramenta desenhada para substituir uma única “letra” (nucleotídeo, unidade básica que forma o código genético) e corrigir mutações hereditárias e doenças raras, incluindo enfermidades que provocam a perda de visão. A biologia sintética avança em paralelo na Bélgica, onde cientistas desenvolvem os chamados XNAs (ácidos xeno-nucleicos), moléculas artificiais que cumprem funções semelhantes às do DNA humano, mas contam com uma estrutura química distinta para evitar ataques do sistema imunológico durante a aplicação de futuros medicamentos.
Pesquisas realizadas no Canadá exploram o campo da xenobiologia, ciência que utiliza aminoácidos produzidos em laboratório para criar proteínas artificiais inexistentes na natureza. O objetivo desses estudos é montar moléculas mais resistentes aos danos da oxidação provocada pelo oxigênio no corpo humano, abrindo caminho para novos antibióticos, proteção de tecidos contra o desgaste do tempo e tratamentos para doenças degenerativas.
Mortes de duas crianças em testes com CRISPR na China
A aplicação prática dessas tecnologias em seres humanos esbarra na segurança dos procedimentos, especialmente no uso da técnica CRISPR (ferramenta de edição genética que funciona como uma tesoura molecular) combinada a vírus modificados para transportar o tratamento até as células. O perigo de reações severas do organismo a esses vetores virais ficou evidente na China, onde dois ensaios clínicos voltados ao tratamento de doenças graves terminaram com a morte de duas crianças em 2025, em episódios que vieram a público entre julho e agosto de 2026 após apurações sobre a omissão de dados em artigos científicos.
Em um dos casos registrados em território chinês, uma menina de 6 anos, identificada pelo pseudônimo “Mei”, sofria de uma mutação genética rara que comprometia o neurodesenvolvimento e foi submetida a um estudo liderado pelo neurocientista Zilong Qiu, pesquisador principal no Hospital Xinhua, instituição ligada à Faculdade de Medicina da Universidade Jiao Tong de Xangai. A paciente recebeu uma infusão de vetores virais diretamente no líquido cefalorraquidiano, desenvolveu uma reação imunológica grave ao procedimento direcionado ao cérebro e morreu cerca de uma semana após a aplicação.
O segundo óbito confirmado na China ocorreu durante um ensaio clínico experimental que também utilizava variações da tecnologia CRISPR, desta vez direcionado ao tratamento da distrofia muscular de Duchenne (doença genética degenerativa que enfraquece os músculos). Até a consolidação dos dados da série televisiva nesta quinta-feira, 15 de outubro de 2026, a identidade dessa segunda criança não havia sido divulgada publicamente pela companhia responsável pelo teste, assim como não foi detalhado o nome da universidade ou instituto específico onde atuam os pesquisadores de xenobiologia no Canadá.
Números, locais e dados das pesquisas de longevidade
- Investimento no Project Blueprint: cerca de US$ 2 milhões por ano gastos pelo empresário norte-americano Bryan Johnson.
- Idades de referência do protocolo: o fundador da Braintree tem 49 anos e tenta atingir aos 50 anos os indicadores físicos de uma pessoa de 18 anos.
- Promessa descartada pela ciência: expectativa de vida de 140 anos ou mais, apontada por pesquisadores como discurso de marketing.
- Polos de pesquisa citados: Estados Unidos (Vale do Silício), Bélgica (moléculas sintéticas XNAs), Canadá (xenobiologia e proteínas artificiais), China (testes clínicos com CRISPR) e Brasil (análise médica na série Código da Vida, exibida até quarta-feira, 14 de outubro de 2026).
- Registros fatais em testes: 2 mortes de crianças na China em 2025 após terapias genéticas experimentais com vetores virais, incluindo uma menina de 6 anos em Xangai.
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Diante das reações fatais aos vetores virais e da ausência de fórmulas comprovadas para deter o envelhecimento, os cientistas afirmam que a liberação dessas terapias em larga escala depende de mais anos de testes clínicos rigorosos. A meta viável proyectada pelos pesquisadores para os próximos anos não é a juventude eterna, mas a substituição gradual de medicamentos de uso contínuo por intervenções genéticas aplicadas uma única vez para prevenir ou curar doenças hereditárias.
