EUA e China preparam acordo de IA para 3º encontro de Trump e Xi em 2026

Trump e Xi Jinping

Trump e Xi Jinping REUTERS/Evelyn Hockstein

Equipes técnicas dos Estados Unidos e da China realizam negociações regulares, confirmadas nesta quinta-feira (15), para estruturar um mecanismo de gestão de incidentes de inteligência artificial (IA) e institucionalizar o diálogo bilateral no setor. O objetivo dos dois governos é apresentar um acordo concreto durante o encontro entre os presidentes Donald Trump e Xi Jinping na cúpula do Fórum de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC), em Shenzhen, na China. A reunião em território chinês será o terceiro encontro presencial entre os dois chefes de Estado ao longo do ano de 2026.

As conversas em nível de trabalho buscam transformar compromissos políticos anteriores em uma estrutura prática de resposta a crises tecnológicas antes da reunião bilateral de novembro. Segundo uma fonte familiarizada com as tratativas, em tradução livre, o encontro em Shenzhen “proporcionará uma boa oportunidade para dar ao diálogo sobre IA uma dimensão política e institucional mais substancial”.

Escopo do mecanismo de inteligência artificial entre Washington e Pequim

O trabalho dos negociadores de Pequim e de Washington ganhou ritmo após a visita de Estado de Xi Jinping à capital norte-americana em setembro de 2026. Naquela ocasião, as duas potências anunciaram planos para abrir um canal de comunicação voltado a incidentes de IA e iniciar um debate formal sobre os riscos e benefícios da tecnologia. Como os anúncios de setembro permaneceram em grande parte declaratórios, a meta atual é fechar um quadro básico de resposta a emergências até a cúpula da APEC, deixando o detalhamento operacional para uma etapa posterior.

Entre as propostas na mesa está a criação de um mecanismo institucional permanente de cooperação tecnológica que reúna autoridades governamentais, centros de pesquisa e representantes da indústria dos dois países. Fontes próximas às conversas diferenciam esse protocolo de segurança e gestão de incidentes de um eventual tratado amplo de cooperação econômica em IA, considerado muito mais complexo devido às diferenças nos sistemas regulatórios domésticos e à rivalidade estratégica bilateral.

Para uma das fontes ouvidas nas apurações, a inteligência artificial emergiu como uma das áreas politicamente mais importantes nas quais Washington e Pequim podem demonstrar que a competição estratégica não impede uma cooperação razoável.

Datas, valores e marcos das negociações entre EUA e China em 2026

  • Maio de 2026: Encontro entre Xi Jinping e Donald Trump em Pequim define o início das negociações formais sobre governança tecnológica, posteriormente adiadas por divergências de escopo e agenda.
  • 8 de setembro de 2026: Agências de segurança dos EUA acusam formalmente empresas chinesas de extrair capacidades de modelos norte-americanos.
  • 20 de setembro de 2026: Reunião preparatória de 8 horas de duração na sede do banco JPMorgan Chase, em Manhattan, Nova York, incorpora o tema da IA às tratativas comerciais.
  • 25 de setembro de 2026: Encerramento da visita de Estado de Xi Jinping a Washington com um consenso de 8 pontos, incluindo o canal de diálogo sobre IA e um acordo de redução tarifária sobre US$ 30 bilhões em mercadorias não sensíveis.
  • 10 de novembro de 2026: Data original de expiração da trégua comercial bilateral antes da prorrogação de dois meses acertada em setembro.
  • 18 e 19 de novembro de 2026: Realização da cúpula da APEC em Shenzhen, na China, data prevista para o terceiro encontro presencial do ano entre Trump e Xi.
Foto: Bandeira da China e EUA, IA Inteligencia Artificial – QQMinh88/shutterstock.com

Propostas de segurança dos EUA e exclusão de semicondutores

A integração definitiva do tema tecnológico na agenda bilateral ocorreu durante a maratona de negociações em Nova York, conduzida pelo secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, pelo representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, cargo equivalente a ministro do Comércio Exterior), Jamieson Greer, e pelo vice-primeiro-ministro da China, He Lifeng. Na pauta comercial e diplomática chinesa, as articulações contam ainda com o negociador comercial internacional Li Chenggang e com o ministro das Relações Exteriores, Wang Yi.

Durante as tratativas de setembro em Nova York, a delegação norte-americana detalhou o que espera do sistema de alerta mútuo. Segundo afirmou Scott Bessent na ocasião, os EUA propuseram que os dois países tenham um mecanismo de notificação. O secretário acrescentou que, assim como em qualquer atividade transfronteiriça, passar de algo mais opaco para mais transparência entre a primeira e a segunda potências mundiais em IA é muito importante.

Pela proposta apresentada por Washington, o protocolo de notificação de incidentes de segurança nacional deve cobrir o surgimento de agentes autônomos fora de controle, o uso indevido de sistemas por atores não estatais e eventuais aplicações da tecnologia em armas biológicas. Por outro lado, os controles de exportação impostos pelos Estados Unidos sobre chips avançados de IA e equipamentos de fabricação de semicondutores foram excluídos das discussões.

Acusações sobre destilação de modelos e disputa pela governança global de IA

O avanço nas conversas sobre segurança ocorre em meio a disputas diretas pelo domínio técnico e regulatório do setor. No plano interno, o governo de Donald Trump rejeitou propostas para desacelerar o desenvolvimento de modelos avançados nos Estados Unidos sob o argumento de manter a vantagem sobre a China, optando por um pacto voluntário de autorregulação com executivos na Casa Branca, classificado pelo presidente como moralmente vinculativo. No cenário externo, os dois países promovem arquiteturas rivais: Washington lidera a rede de parceiros “Pax Silica”, voltada à segurança da cadeia de suprimentos tecnológicos, enquanto Pequim impulsiona a criação da Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial.

Outro foco de atrito envolve a técnica conhecida como destilação de modelos, processo no qual um sistema menor aprende e calibra suas funções a partir das respostas geradas por um modelo mais avançado. O Departamento Federal de Investigação (FBI, a polícia federal dos EUA), a Agência de Segurança Nacional (NSA) e a Agência de Segurança Cibernética e de Infraestrutura (CISA) acusaram formalmente desenvolvedores chineses, incluindo as empresas DeepSeek, Moonshot e Alibaba, de realizarem campanhas coordenadas para extrair e replicar capacidades de sistemas norte-americanos por meio desse método. Scott Bessent classificou o uso da técnica por empresas chinesas como roubo e cópia de propriedade intelectual, enquanto o governo em Pequim rejeitou as acusações e declarou que a destilação é uma prática padrão na indústria global de tecnologia.

Como as negociações técnicas seguem em andamento sob condição de anonimato, ainda não há confirmação sobre os detalhes operacionais exatos do mecanismo de gestão de incidentes nem se o anúncio formal de uma instituição permanente ocorrerá durante a cúpula da APEC. Os dois governos trabalham agora para fechar o texto do quadro básico de resposta a crises antes do início do encontro em Shenzhen, marcado para 18 de novembro de 2026.

Beatriz: Beatriz Lima é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024.