O reajuste de 15,04% no Bolsa Família, programa federal de transferência de renda, recompõe apenas a inflação acumulada desde março de 2023 e fica abaixo da alta de 22,8% registrada pelo salário mínimo no mesmo intervalo. Publicações que circulam nas redes sociais desde o fim de setembro de 2026 omitem que o benefício social passou três anos sem correção e comparam o índice acumulado do programa apenas com o aumento anual mais recente do piso salarial.
Procurado para esclarecer os dados, o Ministério do Planejamento e Orçamento, comandado pelo ministro Bruno Moretti, detalhou a diferença entre os dois índices. “A recomposição de 15% do benefício Bolsa Família corresponde a correção dos valores pela variação inflacionária acumulada do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) entre março de 2023 e agosto de 2026, um período de 3 anos em que não houve reajuste. Isso não ocorreu com o salário mínimo, que manteve valorização real nos últimos 3 anos”, informou a pasta em nota nesta quinta-feira (15).
Comparação entre o Bolsa Família e o salário mínimo de 2023 a 2026
Os conteúdos compartilhados no X e no Instagram trazem uma fotografia do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), segurando um cartão do programa social, acompanhada de legendas que questionam a condução econômica do governo federal. As postagens alegam que a gestão petista concedeu mais de 15% de aumento para quem recebe o auxílio assistencial e apenas 6% para os trabalhadores formais regidos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), legislação que regulamenta as relações trabalhistas no Brasil.
A distorção ocorre porque os vídeos e textos usam bases temporais distintas para cada indicador. Enquanto os 15,04% do Bolsa Família referem-se ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), medido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) ao longo de 42 meses entre março de 2023 e agosto de 2026, a taxa de cerca de 6% citada nas redes sociais diz respeito somente à revisão do salário mínimo aplicada em um único ano.
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O economista e conselheiro do Conselho Regional de Economia de São Paulo (Corecon-SP), Carlos Eduardo Oliveira Jr, aponta que a metodologia das postagens está incorreta por misturar um índice acumulado de três anos com uma variação de 12 meses. “Para uma comparação adequada, o ideal é analisar a evolução acumulada do salário mínimo e do Bolsa Família entre 2023 e 2026, e não comparar o reajuste anual do mínimo com a recomposição acumulada de 15,04% aplicada ao programa social. Nesse critério, o salário mínimo teve um avanço de 22,8%, contra 15,04% do Bolsa Família”, declarou o economista.
Regras de valorização do salário mínimo e evolução desde 2023
A política de valorização do salário mínimo adotada entre 2023 e 2026 determina que o piso nacional seja corrigido todos os anos pela inflação medida pelo INPC em 12 meses até novembro, somada ao resultado do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB, a soma de todos os bens e serviços produzidos no país) de dois anos antes. Pela regra do arcabouço fiscal, mecanismo que controla as despesas públicas federais, esse ganho real acima da inflação fica limitado ao teto de 2,5% ao ano, garantindo aumentos sucessivos no poder de compra dos trabalhadores.
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Com a aplicação dessa fórmula anual, o piso salarial nacional teve quatro valores diferentes no período analisado e acumulou 22,8% de elevação:
- Em 2023: o piso nacional era de R$ 1.320 por mês.
- Em 2024: o valor mensal passou para R$ 1.412.
- Em 2025: a remuneração básica subiu para R$ 1.518 mensais.
- A partir de 1º de janeiro de 2026: o salário mínimo chegou a R$ 1.621 por mês, após reajuste anual de 6,79% (arredondado para 6,8%).
Novos valores do Bolsa Família pelo Decreto nº 13.120
A atualização do programa social coordenado pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, pasta chefiada pelo ministro Wellington Dias, foi oficializada pelo Decreto nº 13.120, publicado em edição extra do Diário Oficial da União em 17 de setembro de 2026. Na ocasião do anúncio, a 17 dias do primeiro turno da eleição presidencial, o governo federal negou motivação eleitoral na medida e afirmou que o percentual apenas repunha as perdas inflacionárias desde março de 2023, quando o modelo atual do programa foi retomado pela Lei nº 14.601/2023. A legislação autoriza o Poder Executivo federal a revisar os valores em intervalos de, no máximo, 24 meses, sendo proibida a redução dos repasses.
Atualmente, o Bolsa Família atende cerca de 19,3 milhões de famílias em todo o território nacional. De acordo com estimativas do Ministério do Planejamento e Orçamento, a correção de 15,04% nos repasses terá um impacto nas contas públicas de R$ 5,8 bilhões em 2026 e de aproximadamente R$ 22 bilhões ao longo de 2027, motivo pelo qual economistas chegaram a questionar o momento da alteração e os riscos fiscais da despesa.
Com a entrada em vigor do decreto na folha de outubro de 2026, todos os componentes financeiros pagos às famílias beneficiárias passaram por atualização:
- Piso mínimo garantido por família: subiu de R$ 600 para R$ 691 mensais.
- Benefício médio estimado por família: passou de R$ 675 para R$ 777 por mês.
- Benefício de Renda de Cidadania (pago por cada integrante da família): aumentou de R$ 142 para R$ 164.
- Benefício Primeira Infância (destinado a cada criança de até sete anos incompletos): foi elevado de R$ 150 para R$ 173.
- Benefício Variável Familiar (pago a gestantes, nutrizes e jovens de sete a 18 anos incompletos): passou de R$ 50 para R$ 58.
Quem tem direito ao Bolsa Família e datas de pagamento em outubro
Para ter direito aos repasses mensais do Bolsa Família, a família precisa estar com os dados atualizados no Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal (CadÚnico), base oficial que identifica a população de baixa renda no país, e apresentar renda mensal de até R$ 218 por pessoa. Além do critério financeiro, a manutenção do pagamento exige o cumprimento de condicionalidades nas áreas de saúde e educação, o que inclui a frequência escolar obrigatória de crianças e adolescentes, a carteira de vacinação em dia e o acompanhamento de pré-natal para gestantes.
Os depósitos com os valores reajustados na folha de outubro de 2026 começam na segunda-feira (19) para os beneficiários cujo Número de Identificação Social (NIS) termina em 1. O calendário segue de forma escalonada nos dias úteis seguintes e se encerra em 30 de outubro de 2026, quando recebem as famílias com NIS final 0.
