A indústria têxtil Marisol S.A., sediada em Jaraguá do Sul, no Norte de Santa Catarina, iniciou o ano de 2026 com a quitação integral de uma dívida histórica não operacional de R$ 254,2 milhões e a expansão para novos modelos de negócios. Fundada para fabricar chapéus de praia antes de criar marcas de roupas infantis como Lilica Ripilica e Tigor T. Tigre, a companhia superou o passivo financeiro originado há mais de uma década e passou a operar um condomínio industrial compartilhado e o licenciamento de fórmulas alimentares.
O anúncio oficial da liquidação da dívida ocorreu em 19 de janeiro de 2026. Segundo o presidente executivo (CEO) da Marisol S.A. e presidente da Câmara de Desenvolvimento da Indústria Têxtil, Confecção, Couro e Calçados da Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (Fiesc), Giuliano Donini, o encerramento da obrigação financeira encerra um ciclo de restrições para a empresa. “Durante esse período, nossos esforços estiveram totalmente concentrados na retomada do equilíbrio financeiro. Agora, a empresa ganha um respiro para direcionar recursos e energia na retomada gradual das atividades operacionais, com foco em eficiência, rentabilidade e novos modelos de negócio”, afirmou o executivo.
Origem da dívida de R$ 254,2 milhões da Marisol e impacto dos juros
O passivo de valor de face de R$ 254,2 milhões quitado no início de 2026 não teve origem na operação direta das fábricas, mas em títulos de dívida corporativa chamados debêntures, emitidos pela companhia em 2012. A captação financeira daquela época serviu para a aquisição de 60% das cotas e ações da própria empresa que pertenciam a terceiros. Entre os anos de 2020 e 2025, o pagamento desse compromisso enfrentou forte pressão financeira por causa da combinação entre as oscilações do mercado têxtil, a pandemia de Covid-19 e a elevação do Certificado de Depósito Interbancário (CDI), taxa de referência de juros no mercado financeiro que incidia diretamente sobre a correção das debêntures.
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Durante a crise sanitária da Covid-19, a operação industrial da companhia no Nordeste sofreu interrupção direta, o que reduziu o ritmo produtivo no período de maior encarecimento do crédito. “Tivemos que atravessar fatores externos severos, como a pandemia, que paralisou nossa planta no Ceará por 73 dias, além do impacto do CDI elevado sobre a dívida e instabilidades típicas do setor têxtil”, declarou Giuliano Donini ao detalhar os obstáculos enfrentados antes da liquidação do saldo devedor.
Condomínio SisTex da Marisol reduz custos em 11% em Jaraguá do Sul
Com o balanço livre da dívida de 2012, a Marisol avançou na diversificação de receitas dentro de sua planta industrial de aproximadamente 70 mil metros quadrados em Jaraguá do Sul. No local, a companhia implementou o SisTex, primeiro condomínio industrial de sistemistas têxteis do país, formato em que empresas fornecedoras compartilham a mesma infraestrutura fabril com outras indústrias do setor para diminuir a ociosidade do espaço e as despesas operacionais.
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A operação conjunta no condomínio industrial gerou uma redução aproximada de 11% no custo de produção de itens básicos do vestuário, como camisetas brancas. Além do modelo fabril compartilhado e da gestão das marcas Lilica Ripilica, Tigor T. Tigre, Marisol, Mundo Ripilica, Lov’it, Hapier e Pakalolo, a empresa anunciou em 2026 a entrada no setor de nutrição por meio do licenciamento de fórmulas alimentares destinadas ao público infantil.
O compartilhamento produtivo faz parte do planejamento de longo prazo da empresa catarinense. “Ele é parte do olhar criado para 2030 e, portanto, segue alinhado ao nosso Enunciado Estratégico, projetando uma gestão de negócios no modelo de plataforma. A Marisol passa a ser uma articuladora, com capacidade de gerar conexões e trazer ganhos para todos que fazem parte dessa cadeia”, disse Giuliano Donini sobre o condomínio têxtil.
Fundação da Marisol por Pedro Donini e transição dos chapéus às roupas
Antes de atuar no mercado de moda infantil, a Marisol iniciou suas atividades produzindo chapéus de praia confeccionados com fibras naturais e sintéticas. O negócio foi fundado em Jaraguá do Sul por Pedro Donini, irmão do ex-presidente executivo Vicente Donini. A forte associação do acessório com a estação mais quente do ano definiu a identidade da companhia: o nome Marisol surgiu da junção das palavras “mar” e “sol”.
A permanência no ramo de chapelaria durou apenas quatro anos. A empresa abandonou a fabricação de chapéus e ingressou no segmento de vestuário após uma incorporação societária, dando início a uma expansão industrial e comercial que se estendeu do Sul ao Nordeste do Brasil nas décadas seguintes. Os marcos cronológicos dessa transformação incluem:
- 22 de maio de 1964: fundação da Marisol em Jaraguá do Sul (SC) por Pedro Donini para a produção de chapéus de praia;
- 1968: incorporação da Tricotagem e Malharia Jaraguá Ltda., encerrando a linha de chapéus para ingressar na indústria de roupas;
- 1975: inauguração de um novo parque fabril em Jaraguá do Sul, estrutura que se consolidou como a principal unidade produtiva da companhia;
- 1991: lançamento da personagem e marca própria infantil Lilica Ripilica;
- 1993: criação da marca de vestuário infantil masculino Tigor T. Tigre;
- 1997: abertura da loja Mega Store Marisol para ampliar o atendimento aos consumidores, espaço atualmente denominado One Store Marisol;
- 1999: inauguração da unidade industrial em Pacatuba, na região metropolitana de Fortaleza (CE), instalada a partir do ano anterior, com capacidade para 9 milhões de peças de roupas anuais e mais de 2 mil colaboradores à época;
- 2006: assinatura de parceria comercial com a Rosa Chá Stúdio;
- 2008: transição geracional na qual Giuliano Donini assumiu a presidência executiva (CEO) e seu pai, Vicente Donini, passou a presidir o Conselho de Administração, no mesmo ano da compra de 50% da rede de produtos para bebês Blue Pink (rebatizada depois de Babysol).
Parceria da Marisol com a Grendene antecedeu a criação da Lilica Ripilica
O ingresso definitivo no universo de personagens infantis ocorreu após uma experiência conjunta com o setor calçadista no final da década de 1980. Naquele período, a Marisol firmou uma parceria com a fabricante Grendene para desenvolver linhas de roupas que combinassem com as sandálias infantis Melissinha. Quando o acordo comercial chegou ao fim, a indústria de Jaraguá do Sul aproveitou a estrutura produtiva e o conhecimento acumulado no segmento para dar continuidade à linha de forma independente, lançando a personagem Lilica Ripilica em 1991.
Ao direcionar o foco para o público infantil nas décadas seguintes, a companhia também incorporou ao seu portfólio as fabricantes de calçados Frasul e Babysul e estruturou a divisão Marisol Franchising, responsável por expandir a rede de franquias das marcas Lilica Ripilica e Tigor T. Tigre pelo país até a atual fase de gestão em plataforma projetada para 2030.
