Nova datação do relógio molecular muda cálculo sobre evolução das primeiras espécies animais

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escavação de anfíbio Foto: escavação de anfíbio - Jirik V/Shutterstock.com

Um estudo liderado pela Universidade de Oxford propõe que a origem dos animais na Terra ocorreu entre 800 milhões e 700 milhões de anos atrás, após a análise de microfósseis encontrados na Mongólia. A nova estimativa, publicada na revista científica Science Advances em 2 de outubro de 2026, recua o surgimento do reino animal em cerca de 100 milhões a 200 milhões de anos em relação aos fósseis corporais mais antigos já confirmados pela ciência.

O trabalho contou com a participação de pesquisadores da Universidade de Yale, da Universidade da Califórnia em Berkeley e do instituto suíço ETH Zürich. A equipe avaliou mais de 140 amostras da biota de Kheseen, um depósito geológico na Mongólia, utilizando microscopia eletrônica de varredura. “Nossa nova evidência fóssil da Mongólia enfraquece um dos principais argumentos para restringir a origem dos animais ao intervalo Ediacarano”, afirmou Orin M. Lole Durbin, primeiro autor do estudo e doutorando na Virginia Tech, que era graduando na Universidade de Oxford durante a execução da pesquisa, em tradução livre.

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Microfósseis da biota de Kheseen derrubam teto de idade na China

Fóssil de Osteolaemus tetraspis, crocodilo
Foto: Fóssil de Osteolaemus tetraspis, crocodilo – ecologiste/ Shutterstock.com

Durante décadas, a paleontologia utilizou a biota de Weng’an, um sítio fossilífero localizado na China e datado de aproximadamente 590 milhões de anos atrás, como o limite máximo de idade para o surgimento da vida animal multicelular. Como o depósito chinês do período Ediacarano apresenta uma preservação microscópica detalhada, mas não contém nenhum registro definitivo de animais, os cientistas supunham que o reino animal (classificado na biologia como Metazoa) simplesmente não existia naquela época, pois suas estruturas teriam sido obrigatoriamente registradas nas rochas caso estivessem presentes no ambiente.

A análise da biota de Kheseen derrubou essa premissa ao demonstrar que a ausência de registros em um depósito bem conservado não significa a inexistência dessas espécies no planeta. O sítio da Mongólia formou-se entre 550 milhões e 526 milhões de anos atrás — sendo mais de 40 milhões de anos mais jovem que o depósito chinês de Weng’an — e preserva microfósseis com o mesmo nível de detalhe, incluindo espécies microscópicas como Asterocapsoides wenganensis e Knollisphaeridium maximum.

Nenhum fóssil definitivo de animal foi encontrado nas rochas de Kheseen. No entanto, depósitos geológicos da mesma época localizados na Namíbia e no sul da China comprovam que os animais já habitavam a Terra naquele período. Os pesquisadores apontam que os organismos podem ter vivido em ambientes diferentes ou enfrentado condições químicas locais na Mongólia que impediram a sua fossilização.

“A biota de Kheseen quebra o argumento de que os microfósseis excepcionais de Weng’an significam que teríamos visto fósseis de animais no conjunto caso eles existissem na época. Os microfósseis de Kheseen são igualmente bem preservados e, ainda assim, os animais continuam ausentes — apesar do fato de sabermos que naquele ponto eles existiam”, declarou Ross P. Anderson, autor sênior do estudo e professor associado no Museu de História Natural da Universidade de Oxford.

Como o relógio molecular recalibra a origem dos animais para 800 milhões de anos?

Com a invalidação de Weng’an como teto cronológico, a equipe científica precisou buscar referências mais antigas para recalibrar o chamado relógio molecular, uma técnica que compara as diferenças genéticas entre espécies vivas atuais e combina esses dados com a idade de fósseis conhecidos para calcular quando viveram seus ancestrais comuns. Os pesquisadores utilizaram como nova base depósitos rochosos formados entre 850 milhões e 730 milhões de anos atrás, cujas composições químicas teriam capacidade de preservar animais caso eles já habitassem a Terra, o que deslocou a estimativa de origem do reino animal para o intervalo entre o final do período Toniano e meados do período Criogeniano, na Era Neoproterozoica.

As novas referências geológicas aplicadas na calibração do estudo e os demais autores que assinam o artigo científico publicado no volume 12, edição 40, da revista Science Advances estão detalhados a seguir:

  • Formação Svanbergfjellet: depósito geológico localizado na Noruega utilizado como referência temporal.
  • Grupo Bitter Springs: formação rochosa situada na Austrália integrada ao cálculo de recalibração.
  • Grupo Chuar: depósito localizado no estado do Arizona, nos Estados Unidos, incluído na faixa de 850 milhões a 730 milhões de anos atrás.
  • Coautores adicionais da pesquisa: os cientistas Eliel S. C. Anttila e Francis A. Macdonald.

Glaciações globais do Criogeniano e o enigma da explosão cambriana

No registro geológico tradicional, os animais parecem surgir de maneira repentina pouco antes do Período Cambriano, que durou de 539 milhões a 487 milhões de anos atrás, em um evento conhecido na ciência como explosão cambriana. Antes desse intervalo, os fósseis corporais macroscópicos de animais mais antigos e indiscutíveis já encontrados datam de 574 milhões de anos atrás, dentro do período Ediacarano.

Existia, contudo, uma diferença de cerca de 60 milhões de anos entre esses primeiros fósseis confirmados e a presença de biomarcadores químicos lipídicos — vestígios moleculares deixados por organismos vivos — identificados em rochas antigas de 650 milhões a 635 milhões de anos atrás e associados a esponjas primitivas. O recuo proposto pela nova calibração do relógio molecular preenche essa lacuna histórica ao indicar que os primeiros representantes do reino animal eram seres minúsculos e de corpo mole, características que reduziam drasticamente a chance de deixarem marcas físicas nas rochas em comparação com a fauna posterior dotada de conchas e ossos.

A estimativa de que o reino animal surgiu entre 800 milhões e 700 milhões de anos atrás também significa que as primeiras etapas da evolução animal ocorreram antes ou durante as glaciações globais severas do período Criogeniano, iniciadas há cerca de 720 milhões de anos. Nessa época, grande parte da superfície terrestre ficou coberta por gelo, em um fenômeno batizado pela geologia de “Terra Bola de Neve”.

“O momento da origem dos animais, mesmo em formas tão ‘simples’ quanto as esponjas, é de grande interesse. Ele lança luz sobre o que sabemos a respeito das taxas de evolução, do momento das inovações biológicas e dos processos que levaram à diversificação dos animais”, afirmou Derek E. G. Briggs, coautor do estudo, professor de Ciências da Terra e Planetárias na Universidade de Yale e ex-diretor do Museu Peabody de Yale.

Apesar do avanço nas análises genéticas e geológicas, a data exata do surgimento do reino animal permanece incerta, pois os cientistas destacam que o estudo não prova de forma definitiva a existência de animais há 800 milhões de anos, uma vez que nenhum fóssil corporal anterior ao período Ediacarano foi encontrado até o momento.

“Até que essa evidência se torne disponível, a data exata de nascimento do reino animal permanece incerta”, afirmou o professor Ross P. Anderson.

Maria Clara é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2016: Formação: Atriz.

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