Pesquisadores da Universidade Carlos III de Madri (UC3M), em Leganés, na Espanha, desenvolveram e testaram em bancada o protótipo de pneu modular ECOTIRE em 6 de outubro de 2026. O equipamento utiliza um sistema de intertravamento mecânico que permite conservar a estrutura principal da roda e substituir apenas a banda de rodagem desgastada, peça que corresponde a menos de 20% do peso total do componente.
Diferentemente dos modelos tradicionais, nos quais a superfície de contato com o solo é fundida à carcaça por vulcanização (processo químico que une a borracha sob calor e pressão), o projeto espanhol emprega geometrias complementares que se fixam sem adesivos. “Ao desgastar-se, um pneu convencional emite partículas muito nocivas para a atmosfera. O uso de uma união mecânica possibilita a combinação de materiais mais sustentáveis e biocompatíveis”, afirmou Daniel García-Pozuelo Ramos, professor associado do Departamento de Engenharia Mecânica da UC3M e pesquisador principal do projeto ECOTIRE.
Como funciona o encaixe mecânico e a borracha do ECOTIRE?
Para construir o protótipo físico em escala, os engenheiros do Departamento de Engenharia Mecânica da universidade projetaram um molde de alumínio dividido em duas partes, capaz de reproduzir as ranhuras de encaixe entre a carcaça e a banda externa. A fabricação contou com o uso de borracha de silicone VMQ.
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A escolha do composto foi detalhada em um estudo conduzido pela pesquisadora Juana Abenojar, autora principal do artigo publicado na revista científica Applied Sciences em 2026, em coautoria com Miguel Ángel Martínez Casanova e Daniel García-Pozuelo. Nos ensaios de laboratório sob condições controladas de atrito e abrasão, a borracha de silicone apresentou maior estabilidade e um nível de deterioração aproximadamente 10 vezes menor em comparação à mistura de borracha convencional, além de formar sulcos menos profundos, embora tenha registrado coeficientes de atrito inferiores.
A integridade estrutural do encaixe em movimento foi aferida em uma segunda pesquisa, publicada no volume 281 da revista científica Measurement (artigo 121968), assinada por Daniel García-Pozuelo, Farshad Afshari, Ramón Gutiérrez-Moizant e Miguel Ángel Martínez Casanova. A equipe submeteu o protótipo a uma bancada com disco rotativo para monitorar a estabilidade de rolamento sob variações de carga normal, raio, pressão de inflagem, deslizamento e ângulo de deriva — medida que calcula a diferença entre a direção para a qual a roda aponta e a trajetória real do veículo.
Especificações técnicas e financiamento do projeto ECOTIRE
O desenvolvimento na sede da universidade na região metropolitana de Madri reúne parâmetros laboratoriais, metas de longo prazo e recursos públicos europeus:
- Proporção da peça removível: a banda de rodagem intercambiável concentra menos de 20% da massa total do pneu.
- Cronograma de evolução: o artigo sobre a fabricação sustentável saiu na revista Sustainability em 24 de janeiro de 2026, antecedido pela validação conceitual publicada na Applied Sciences (volume 15, número 7, artigo 3675) em abril de 2025.
- Financiamento oficial: recursos da Agência Estatal de Investigação da Espanha (vinculada ao Ministério da Ciência, Inovação e Universidades) e dos fundos europeus NextGenerationEU, sob a referência TED2021-129604B-100.
- Continuidade garantida: o projeto nacional SmartETire (referência PID2025-173249OB-I00) iniciou vigência em 1 de setembro de 2026 e segue até 31 de agosto de 2029.
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Sensores do ECOTIRE enviam alertas para carros autônomos
Além da estrutura divisível, a equipe instalou sensores internos com foco em extensômetros para medir deformações, além de testes com acelerômetros e materiais piezoelétricos para monitorar a dinâmica da roda em tempo real. Os dispositivos leem a pressão de contato, o coeficiente de atrito disponível, o ângulo de deriva e as forças transmitidas à pista.
O objetivo da instrumentação é converter o pneu em um componente ativo conectado aos Sistemas Avançados de Assistência à Condução (ADAS, conjunto de recursos eletrônicos que auxiliam o motorista na direção) e aos computadores de carros autônomos. Ao identificar perigos iminentes na via, como placas de gelo ou formação de aquaplanagem, o sistema pode acionar o freio ABS ou o controle de estabilidade antes que o condutor perceba o risco. “Idealizamos um pneu inteligente e instrumentado que forneça dados fundamentais para o veículo e a infraestrutura, adaptando-se perfeitamente às necessidades dos veículos autônomos”, declarou García-Pozuelo.
Mais de 3 bilhões de pneus são vendidos por ano no mundo
A busca por carcaças reaproveitáveis responde ao volume global de descarte do setor automotivo. Dados do portal de pesquisa da UC3M apontam que mais de 3 bilhões de pneus são produzidos e comercializados anualmente em todo o planeta, sendo cerca de 310 milhões de unidades vendidas por ano apenas na União Europeia.
Os cientistas destacam que o desgaste das bandas de rodagem coloca os pneus como o segundo maior gerador de microplásticos nos oceanos. Nos modelos tradicionais, a presença de cintas metálicas de aço fundidas quimicamente à borracha vulcanizada torna o processo de separação e reciclagem complexo e trabalhoso, mesmo quando se recorre à recapagem tradicional.
Alguns parâmetros citados na divulgação inicial ainda não têm confirmação independente, como a proporção exata da escala reduzida do protótipo e os números precisos de pressão em bar que geraram estabilidade total ou separações parciais na bancada, bem como estimativas específicas da Agência Europeia do Ambiente de 2019 e prazos da norma regulatória Euro 7.
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A tecnologia encontra-se em fase experimental e não tem data nem preço definidos para chegar às lojas de autopeças. “O comportamento do nosso pneu já é suficientemente semelhante ao dos pneus convencionais para estarmos muito próximos de o transferir para a indústria pelas mãos de empresas do setor, embora ainda haja um longo caminho a percorrer até que chegue à sociedade”, disse o coordenador do estudo. O próximo passo dos pesquisadores na Espanha é fabricar e testar o pneu modular em escala real, em parceria com empresas da indústria automotiva.
