Vacinas contra a Covid-19 têm resposta prevista por níveis de anticorpos sentinela no sangue antes da dose

Vacina idoso, vacinação - Halfpoint/Shutterstock.com

Vacina idoso, vacinação - Halfpoint/Shutterstock.com

Pesquisadores do Biodesign Institute da Universidade Estadual do Arizona (ASU), nos Estados Unidos, identificaram que o perfil de anticorpos já presentes no sangue antes da aplicação das vacinas contra a Covid-19 pode prever a intensidade da resposta imunológica de cada indivíduo. O estudo, publicado em 20 de agosto de 2026 na revista científica Cell Press Blue, revelou que modelos de inteligência artificial conseguiram antecipar quais voluntários saudáveis teriam resposta alta ou baixa ao imunizante com mais de 75% de acerto.

A descoberta foi batizada pelos cientistas de “anticorpos sentinela”, termo usado para definir proteínas de defesa formadas em contatos anteriores com microrganismos comuns que servem como termômetro do sistema de defesa. “O que nosso estudo descobriu é que certos biomarcadores, quando analisados com inteligência artificial, podem prever quem tem probabilidade de responder bem a uma vacina, mesmo antes de recebê-la. Isso sugere que algumas pessoas podem estar mais prontas do ponto de vista imunológico do que outras”, afirmou, em tradução livre, Joshua LaBaer, autor sênior do estudo e diretor-executivo do Biodesign Institute da Universidade Estadual do Arizona.

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Como funcionam os anticorpos sentinela na resposta às vacinas?

Foto: Frasco de vacina, vacina – MargJohnsonVA/ Istockphoto.com

Para chegar a essa conclusão, a pesquisa, que teve Lusheng Song, pesquisador da Universidade Estadual do Arizona, como primeiro autor do artigo intitulado “Pre-vaccine sentinel antibodies predict blunted vaccine responses”, foi conduzida por meio da Serological Sciences Network (SeroNet), rede de pesquisa ligada ao Instituto Nacional do Câncer (NCI) dos Estados Unidos, em colaboração com a Icahn School of Medicine at Mount Sinai, os Feinstein Institutes for Medical Research e a Universidade de Minnesota. Os cientistas compararam o perfil sanguíneo prévio dos voluntários com a produção de anticorpos contra o domínio de ligação ao receptor (RBD), uma região específica da proteína spike do coronavírus, após o esquema vacinal inicial e a dose de reforço.

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Três grupos de anticorpos preexistentes contra micróbios que circulam com frequência na população destacaram-se como fortes preditores de uma resposta vacinal robusta, tanto em indivíduos saudáveis quanto em pacientes imunossuprimidos. São eles os anticorpos contra a bactéria Staphylococcus aureus, causadora de infecções na pele, no sangue e nos pulmões; contra o vírus sincicial respiratório (VSR), associado a quadros de bronquiolite e pneumonia; e contra o respirovírus humano 3, também conhecido como vírus parainfluenza humano tipo 3, que provoca infecções respiratórias.

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Os autores ressaltam que a relação identificada é uma associação estatística, e não de causa e efeito. Ter defesas contra essas três infecções comuns não protege diretamente contra o coronavírus nem potencializa o imunizante, mas funciona como um indicador da competência basal do organismo, especialmente das células B produtoras de anticorpos.

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“Se uma pessoa já teve contato com um vírus comum e não tem anticorpos contra ele, isso pode indicar que seu sistema imunológico, por alguma razão, não respondeu como esperado. É uma espécie de fotografia da capacidade do sistema imunológico”, explicou Alfredo Gilio, médico pediatra e coordenador da Clínica de Imunização do Hospital Israelita Albert Einstein.

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O levantamento longitudinal contou com números específicos de amostragem, divisão de grupos clínicos e alvos biológicos testados em laboratório:

  • Total de participantes acompanhados: 4.089 voluntários monitorados pelo período máximo de até 18 meses (tempo no qual 90,4% de 114 anticorpos comuns avaliados mantiveram-se estáveis).
  • Divisão clínica dos grupos: 2.445 voluntários saudáveis e 1.644 pacientes com condições ou tratamentos imunossupressores.
  • Volume de material biológico: 8.687 amostras de sangue analisadas antes e depois da imunização.
  • Painel de antígenos (moléculas reconhecidas pelo sistema imune): 185 tipos diferentes medidos, compostos por 3 alvos do vírus SARS-CoV-2, 157 patógenos virais e bacterianos comuns e 25 autoantígenos ligados a doenças autoimunes.
  • Precisão preditiva da inteligência artificial: pontuação de 0,803 nos controles saudáveis ao combinar o painel de anticorpos com dados clínicos e demográficos em modelos de aprendizado profundo.

Diferenças nas vacinas entre voluntários saudáveis e imunossuprimidos

A análise confirmou que a capacidade de reação varia de forma acentuada conforme a condição clínica prévia do paciente. “Já se sabe há muito tempo que nem todo mundo responde igualmente às vacinas”, disse Gilio. O médico acrescentou o objetivo central da investigação norte-americana: “O estudo procurou responder a uma questão de muito interesse em imunologia e vacinação: se é possível prever, antes da aplicação, quais indivíduos terão uma resposta fraca de anticorpos a determinada vacina que, nesse caso, foi a contra a Covid”.

No modelo de inteligência artificial desenvolvido pela equipe da ASU, o desempenho para antecipar a reação do organismo variou entre os grupos analisados e foi menor entre pessoas submetidas a transplantes e portadores de condições autoimunes. Os percentuais de resposta insuficiente ou elevada registrados após as etapas de imunização variaram de acordo com o quadro de saúde:

  • Receptores de transplantes de órgãos sólidos: 71,6% tiveram resposta fraca de anticorpos após o esquema vacinal inicial, e 37,9% continuaram com resposta fraca ou ausente mesmo após a dose de reforço.
  • Pacientes com mieloma múltiplo: 48,5% apresentaram resposta fraca após a vacinação inicial.
  • Pacientes com doença inflamatória intestinal: 43,0% registraram resposta fraca depois do esquema inicial.
  • Pacientes com doenças autoimunes: 39,0% tiveram resposta fraca após a etapa inicial, enquanto 17,5% mantiveram resposta fraca ou ausente após o reforço.
  • Pacientes com câncer em órgãos sólidos: 17,6% apresentaram resposta fraca após a aplicação inicial.
  • Pacientes com HIV: 9,8% tiveram resposta fraca depois do esquema inicial.
  • Participantes saudáveis: 6,2% apresentaram resposta fraca após o esquema inicial, e 95% atingiram a faixa de resposta alta depois da dose de reforço.

Limitações dos testes de imunidade e regras atuais de vacinação

Além dos anticorpos sentinela, a ciência já reconhece diversos elementos que alteram a eficácia de um imunizante no organismo humano. Entre eles estão a idade — tanto pelo processo de imunossenescência, que reduz a eficiência do sistema de defesa em idosos, quanto pelo sistema ainda em formação nas crianças pequenas —, características genéticas, desnutrição, doenças crônicas e terapias imunossupressoras, a exemplo de quimioterapia, medicamentos pós-transplante e corticoides em doses elevadas. Outro ponto técnico destacado na repercussão médica desta quinta-feira (15) é que a medição de anticorpos no sangue não retrata toda a proteção gerada no corpo.

“A imunidade é muito mais complexa. De forma geral, ela pode ser dividida em imunidade humoral, ligada aos anticorpos, e imunidade celular, formada pela ação das células de defesa”, afirmou Gilio. O trabalho liderado pela Universidade Estadual do Arizona avaliou apenas a imunidade humoral, uma vez que a verificação da resposta celular exige exames laboratoriais mais complexos e pouco utilizados na rotina clínica. Na prática médica atual, o conhecimento sobre esses fatores já dita regras específicas nos postos de atendimento: idosos acima de 60 anos podem receber formulações desenhadas para estimular uma reação mais potente, e imunossuprimidos têm indicação de doses adicionais ou intervalos diferenciados.

“Na prática, temos condutas baseadas nesse conhecimento. O calendário de uma pessoa acima de 60 anos difere do calendário de um adulto de 30 ou 40 anos”, declarou o coordenador do Hospital Israelita Albert Einstein. Embora os pesquisadores da ASU apontem que o mapeamento prévio possa, no futuro, orientar doses mais altas, reforços antecipados, terapias profiláticas com anticorpos ou um melhor desenho de ensaios clínicos, a descoberta é restrita ao ambiente de pesquisa e não tem aplicação imediata para o público em geral. Pacientes não devem procurar laboratórios para realizar exames de sangue de rotina antes ou depois de receber imunizantes.

“O conhecimento científico avança de grãozinho em grãozinho, e isso aqui [esta pesquisa] é um grãozinho. Precisa ser confirmado por outros estudos. Não quer dizer que amanhã vamos dosar esses anticorpos para decidir quem deve receber uma dose a mais. Estamos muito longe disso”, declarou Gilio. Os próprios autores do estudo destacam que ainda não está confirmado se as respostas vacinais mais fracas identificadas pelo perfil de anticorpos sentinela se traduzem diretamente em taxas mais altas de infecções clínicas pós-vacinação, o que exigirá a realização de novos estudos científicos.

Jeronimo Santos: Jeronimo Santos é colaborador da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2016: Formação: Marketing
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