Aplicativos no celular geram fadiga em 53% dos brasileiros e travam tarefas, aponta estudo da Consumoteca

Celular, Android, Smartphone - TY Lim / shutterstock.com

Celular, Android, Smartphone - TY Lim / shutterstock.com

A pesquisa Cotidiano de Baixa Manutenção, realizada pela consultoria Consumoteca a pedido da empresa de tecnologia 99, revela que 53% dos usuários brasileiros de smartphone sentem ter aplicativos demais instalados no celular. Apresentado na quinta-feira (15) durante o evento 99Tech Summit, no Rio de Janeiro, o levantamento mostra que 74% dos entrevistados já desistiram de concluir uma atividade apenas porque precisariam baixar mais um programa no aparelho.

O cansaço com o acúmulo de ferramentas digitais também se reflete na rejeição a processos longos na internet. Um depoimento de participante reproduzido no levantamento resume a sensação dos usuários diante das telas cheias: “Meu celular tem tanta coisa acumulada que, às vezes, acho que precisava tirar um dia de folga só pra organizar tudo.”

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Excesso de aplicativos cria trabalho invisível na rotina

O antropólogo, escritor e sócio-diretor da Consumoteca, Michel Alcoforado, classificou como trabalho invisível todo o esforço exigido do usuário para administrar os programas instalados, preencher cadastros repetidos, colocar o mesmo endereço em várias plataformas, lembrar credenciais e gerenciar o espaço de armazenamento do telefone. Mesmo quando um serviço digital promete economizar um deslocamento físico, o consumidor passa a calcular o tempo e a atenção necessários para encontrar informações e repetir procedimentos burocráticos na tela antes de decidir se vale a pena instalar uma nova ferramenta.

Foto: Celular e aplicativo – Tânia Rêgo/Agência Brasil

“Você tem um trabalho que é administrar aquilo que teoricamente também ia poder te ajudar”, afirmou Alcoforado durante a apresentação dos dados no Rio de Janeiro.

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Para lidar com a falta de espaço e a desorganização, os proprietários de smartphones adotam rotinas frequentes de exclusão e deixam grande parte das ferramentas sem uso. Os principais índices de comportamento e atrito identificados pelo estudo no uso diário dos aparelhos são:

  • 80% dos brasileiros já desistiram de realizar alguma atividade online devido ao excesso de etapas exigidas;
  • 74% dos usuários fazem limpezas frequentes no aparelho, excluindo aplicativos;
  • 60% declaram utilizar apenas um terço dos aplicativos que mantêm instalados;
  • 49% afirmam se incomodar muito quando esquecem uma senha e precisam recuperá-la.

Fadiga de aplicativos não reduz preferência pelo meio digital

A disposição para enxugar a quantidade de programas instalados no telefone não significa um desejo de abandonar os recursos digitais no dia a dia. Apesar do incômodo com a administração de contas e memórias cheias, a ampla maioria dos participantes mantém a preferência pela resolução de problemas pela internet e avalia ter bom domínio sobre os próprios aparelhos, ainda que essa percepção tenha sido medida por autoavaliação, sem aplicação de teste técnico de competência.

Para Alcoforado, essa familiaridade com os dispositivos varia conforme a classe social, a idade e o tempo de exposição às ferramentas. Os percentuais sobre a relação dos entrevistados com a conectividade e as expectativas para os próximos anos mostram que:

  • 85% dos respondentes se descrevem com algum grau de autonomia no uso do smartphone;
  • 82% preferem resolver uma necessidade pelo celular quando a alternativa exige deslocamento presencial;
  • 58% preferem manter o nível atual de uso ou adotar uma relação mais criteriosa com a tecnologia no futuro;
  • 27% gostariam de contar com ainda mais tecnologia no cotidiano;
  • 16% afirmam desejar uma rotina com menos dependência tecnológica.

Avanço de superapps na estratégia da 99 no Brasil

O levantamento Cotidiano de Baixa Manutenção serviu de base para o anúncio estratégico da 99 em 15 de outubro de 2026, durante o 99Tech Summit. No evento, a empresa apresentou seu posicionamento como superapp — plataforma que reúne diferentes categorias de serviços em um único programa — no mercado brasileiro, integrando transporte individual, entregas, alimentação por meio da 99Food, compras e serviços financeiros pela 99Pay para disputar espaço na tela inicial dos celulares.

A recepção a esse modelo de plataforma concentrada aparece nos dados coletados pela Consumoteca. Cerca de 70% dos entrevistados disseram que gostariam de ter poucos aplicativos capazes de atender a diferentes necessidades. Embora apenas 20% dos consumidores já tivessem ouvido falar no termo superapp antes da aplicação do questionário, 66% demonstraram interesse em utilizar esse tipo de ferramenta após conhecerem a proposta, índice que sobe para 83% no recorte dos usuários que se consideram muito avançados digitalmente.

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“O consumidor vai querer menos aplicativos que resolvam mais coisas da vida”, disse o diretor-geral da 99 no Brasil, Simeng Wang.

Para o diretor de Comunicação da 99, Bruno Rossini, o cenário medido pela consultoria favorece a unificação de ferramentas digitais no país. “Os resultados mostram que o Brasil vive um momento favorável à expansão dos superapps, com consumidores cada vez mais interessados em soluções que integrem diferentes necessidades e simplifiquem a rotina”, declarou o executivo.

Metodologia da pesquisa da Consumoteca

O estudo da Consumoteca ouviu 2.000 brasileiros de 18 anos ou mais, proprietários de smartphones e usuários regulares de aplicativos, por meio de entrevistas online realizadas em outubro de 2026. Após a ponderação estatística dos dados, a etapa quantitativa fechou com uma base analítica de 1.982 respondentes, sem abranger pessoas que não utilizam essas tecnologias.

O levantamento teve ainda uma fase qualitativa composta por quatro grupos online, que reuniram mais de 20 participantes divididos entre consumidores finais, motoristas de aplicativo e entregadores. A investigação limitou-se a mapear hábitos de uso e percepções de conveniência, sem realizar diagnósticos clínicos de dependência tecnológica ou de transtornos de saúde mental associados ao tempo de tela.

Janderson Luiz: Janderson Luiz é colaborador da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024. Formação: Atleta Profissional de Futebol