Sete dos 16 indicadores que medem a saúde ambiental da Terra atingiram patamares extremos sem precedentes em 2026, segundo uma coalizão internacional conduzida pela Universidade Estadual do Oregon (OSU), sediada em Corvallis, nos Estados Unidos. O levantamento foi publicado na quarta-feira (14) na revista científica BioScience e reúne o trabalho de mais de 60 pesquisadores de diferentes países, que diagnosticam uma rápida perda de estabilidade nos sistemas naturais do planeta. Além dos recordes já quebrados, diversos outros índices monitorados — batizados pelos especialistas de sinais vitais planetários — exibem trajetória de aceleração e agravamento contínuo.
A sétima edição anual do documento recebeu o título “O estado do clima em 2026: desafios e oportunidades”, em tradução livre do inglês, sob o código de identificação científica DOI 10.1093/biosci/biag125. Os autores advertem que a combinação desses fatores amplia o risco de o sistema terrestre ultrapassar pontos de inflexão irreversíveis. “A rápida desestabilização é agora um diagnóstico, e não um alerta para o futuro”, afirmou William J. Ripple, professor catedrático emérito da Faculdade de Silvicultura da Universidade Estadual do Oregon e coautor principal da pesquisa, em comunicado divulgado pela instituição.
Concentração de dióxido de carbono passa de 428 partes por milhão e acelera perda de gelo
Os níveis atmosféricos de dióxido de carbono (CO2), metano (CH4) e óxido nitroso (N2O), os três principais gases responsáveis pelo efeito estufa, chegaram a marcas históricas ao longo de 2026. Esse crescimento decorre diretamente da pressão exercida pelas atividades humanas sobre a biosfera, os oceanos e a própria atmosfera terrestre. Apenas em maio de 2026, a concentração de dióxido de carbono rompeu a barreira de 428 partes por milhão (ppm), medida que indica a quantidade de moléculas do gás a cada milhão de partículas de ar seco. O número representa o maior volume na atmosfera em pelo menos 2 milhões de anos e supera em cerca de 50% os patamares pré-industriais, aferidos no fim do século XVIII, antes da disseminação da queima de carvão e petróleo em larga escala.
A retenção extra de calor provocada por essa camada de gases quase dobrou a velocidade do aquecimento da superfície terrestre nas últimas décadas. Entre 1970 e 2010, a temperatura média global subia em torno de 0,19 °C a cada dez anos; a partir de 2010, a taxa saltou para cerca de 0,36 °C por década. As consequências diretas desse ritmo apareceram nas medições meteorológicas da metade de 2026: o mês de julho foi o mais quente de toda a série histórica na faixa contígua dos Estados Unidos, ao mesmo tempo em que os termômetros registraram recordes globais de temperatura nas águas superficiais dos oceanos.
O balanço oceânico e o volume das massas polares completam a lista dos sete indicadores em situação extrema neste ano. De acordo com dados da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) integrados à análise, o mar absorve mais de 90% do excesso de calor retido na Terra, o que levou o conteúdo térmico dos oceanos e o nível médio global do mar aos maiores índices já medidos. Nas últimas décadas, 56% da elevação costeira resultou da expansão térmica, processo físico pelo qual a água aumenta de volume conforme esquenta. Em paralelo, a espessura mundial das geleiras e a massa de gelo da Groenlândia recuaram aos menores níveis históricos, com o volume extremo de água derretida durante o verão na camada groenlandesa multiplicando-se por seis em comparação às décadas anteriores.
Fontes renováveis alcançam 43% da geração elétrica mundial apesar do pico nos combustíveis fósseis
No capítulo dedicado à matriz energética, o estudo registra que a geração de eletricidade por fontes renováveis e os sistemas de armazenamento em baterias avançaram de forma expressiva, permitindo que a energia limpa superasse a eletricidade gerada a partir do carvão em escala global durante o ano de 2025. As usinas de baixo carbono já respondem por aproximadamente 43% de toda a eletricidade produzida no planeta. O crescimento da demanda mundial por energia, porém, fez com que o consumo somado de petróleo, gás natural e carvão subisse 0,9% em 2025, batendo novo recorde histórico. Com isso, as emissões anuais de dióxido de carbono vinculadas ao setor energético romperam pela primeira vez a linha de 41 gigatoneladas, volume correspondente a 45 bilhões de toneladas curtas no padrão de medição norte-americano.
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“Com as fontes de baixo carbono a fornecerem agora cerca de 43% da eletricidade global, podemos estar a assistir ao surgimento do que chamamos a ‘Era da Eletricidade'”, declarou Christopher Wolf, pesquisador da Terrestrial Ecosystems Research Associates, ex-cientista de pós-doutorado da Universidade Estadual do Oregon e codiretor do trabalho.
Para o especialista, a expansão das usinas solares, eólicas e hidrelétricas ainda é insuficiente diante da queima contínua de derivados de carbono pela indústria e pelos transportes. Wolf pontuou que “isto é um motivo de esperança, mas a utilização de combustíveis fósseis e as emissões ainda estão em níveis recorde, pelo que a transição precisa de ser acelerada drasticamente”.
Onda de calor mata 14 mil pessoas na Europa e incêndios destroem 10,8 milhões de hectares
A equipe responsável pelo levantamento — que conta com a participação de Johan Rockström, diretor do Instituto Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático, na Alemanha, e de Michael E. Mann, pesquisador da Universidade da Pensilvânia — destaca que secas severas, inundações, tempestades e incêndios deixaram de ser ocorrências isoladas. O cientista climático Nico Wunderling, que também atua no instituto alemão de Potsdam, avaliou os resultados de maneira independente e corroborou o quadro de instabilidade. Na sexta edição do relatório, publicada em 29 de outubro de 2025 sob o código DOI 10.1093/biosci/biaf149, a coalizão havia examinado um conjunto mais amplo de 34 sinais vitais e identificado 22 deles em patamares críticos.
O balanço atualizado em outubro de 2026 mostra que o fogo consumiu 10,8 milhões de hectares (cerca de 27 milhões de acres) de cobertura florestal em todo o globo ao longo de 2025, a terceira maior perda anual da série histórica e uma extensão territorial equivalente à do estado norte-americano do Tennessee. Os pesquisadores compilaram também os desastres meteorológicos letais registrados nos 12 meses anteriores à publicação, cujos danos recaem de maneira desproporcional sobre populações de baixa renda no Sul Global e em pequenos países insulares, regiões com menor participação histórica no acúmulo de poluentes. Em outubro de 2025, a passagem do furacão Melissa igualou o recorde de velocidade de ventos no Oceano Atlântico e deixou 95 mortos, concentrados na Jamaica e no Haiti; mais tarde, em junho de 2026, uma onda de calor no continente europeu provocou aproximadamente 14.000 óbitos, conforme cálculos preliminares citados no artigo.
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Projeções indicam formação de El Niño severo e aquecimento de 2 °C antes da metade do século
Os modelos meteorológicos reunidos pela coalizão apontam o desenvolvimento de um evento El Niño de forte intensidade a partir do segundo semestre, fenômeno caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial. Essa condição adiciona calor extra à atmosfera e coloca 2026 na trajetória para figurar entre os anos mais quentes já medidos. Caso a curva de emissões de gases poluentes não sofra cortes rápidos, o planeta poderá cruzar o teto de aquecimento de 2 °C acima da média pré-industrial antes mesmo de 2050, superando a meta de contenção estabelecida em acordos internacionais.
“Acho que há uma possibilidade real de que alguém que tem 30 anos atualmente veja grandes mudanças associadas a pontos de inflexão climáticos durante a sua vida”, disse William J. Ripple, em tradução livre.
Para o horizonte até o ano 2100, estudos revisados pelo grupo calculam que mecanismos naturais de retroalimentação ativados pelo próprio calor — entre eles a queima de florestas, a emissão de metano em áreas úmidas e o degelo do permafrost, camada de solo permanentemente congelado nas regiões próximas ao Ártico — têm potencial para amplificar entre 20% e 30% o aquecimento gerado pela ação humana após 2020. Diante desse cálculo, os cientistas cobram que chefes de Estado abandonem o modelo econômico tradicional de exploração fóssil e implementem ações imediatas de mitigação e adaptação. O documento lista medidas práticas como o resfriamento de áreas urbanas, a recuperação de manguezais e zonas úmidas, a geração solar distribuída, a prevenção de incêndios, o uso racional de recursos hídricos e o estímulo a dietas com maior proporção de alimentos de origem vegetal.
Instituições, autores e indicadores que compõem o levantamento publicado na BioScience
O documento divulgado em 14 de outubro de 2026 dá sequência à iniciativa Declaração Mundial de Cientistas sobre uma Emergência Climática, documento que já reúne cerca de 15.892 signatários distribuídos por 167 países. Os dados técnicos, os responsáveis pela apuração e os sete indicadores que bateram recordes negativos nesta edição estão detalhados nos itens abaixo:
- Instituição coordenadora: Universidade Estadual do Oregon (OSU), localizada em Corvallis, no estado do Oregon, nos Estados Unidos.
- Coautores líderes: William J. Ripple (professor catedrático emérito da Faculdade de Silvicultura da OSU) e Christopher Wolf (pesquisador da Terrestrial Ecosystems Research Associates).
- Corpo científico internacional: mais de 60 coautores, incluindo Johan Rockström (Instituto Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático, da Alemanha), Michael E. Mann (Universidade da Pensilvânia), Unai Pascual, Jillian W. Gregg, Chi Xu, Sarah E. Perkins-Kirkpatrick, Thomas M. Newsome, Jacob Bukoski e Anjal Prakash.
- Os 7 sinais vitais planetários em recorde extremo em 2026: concentração atmosférica de dióxido de carbono (acima de 428 ppm), concentração de metano, concentração de óxido nitroso, conteúdo de calor acumulado nos oceanos, nível médio global do mar, espessura mundial das geleiras e massa da camada de gelo da Groenlândia.
- Identificação da publicação: artigo “The 2026 state of the climate report: challenges and opportunities”, publicado na revista científica BioScience sob o registro DOI 10.1093/biosci/biag125.
