Geleira Thwaites deve dobrar elevação do nível do mar até 2100

Geleiras, Oceano Antártico - Oleksandr Matsibura/ istockphoto.com

Geleiras, Oceano Antártico - Oleksandr Matsibura/ istockphoto.com

Um estudo sobre a Geleira Thwaites conduzido pela Universidade da Califórnia em Irvine (UC Irvine) e pelo Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) da Nasa projeta que o derretimento dessa formação na Antártida Ocidental pode elevar o nível médio global do mar em até 30 milímetros até 2100. O volume equivale a 3 centímetros, com margem de incerteza de 6 milímetros para mais ou para menos, e representa o dobro da média de 15 milímetros (15,2 milímetros) apontada pelas previsões anteriores sob as mesmas condições climáticas. Os dados constam em artigo publicado na segunda-feira (12) na revista científica Nature Communications.

A nova estimativa de perda de massa ocorre mesmo em um cenário sem aquecimento climático adicional e indica maior risco de inundações costeiras nas próximas décadas. “Há décadas documentamos e quantificamos os impactos das mudanças climáticas sobre os mantos de gelo sensíveis do nosso planeta, mas a percepção crescente, nos últimos anos, do que está acontecendo na parte inferior de geleiras como a Thwaites está provocando uma sensação ainda maior de preocupação”, afirmou Eric Rignot, coautor do estudo, professor de Ciência do Sistema Terrestre na UC Irvine e cientista pesquisador sênior no JPL da Nasa.

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Bombeamento de maré sob a Geleira Thwaites acelera derretimento

Para chegar aos novos números, a equipe de glaciologistas substituiu o conceito tradicional de linha de aterramento, que os modelos convencionais tratavam como uma fronteira estreita e fixa, pelo conceito de zona de aterramento. Na prática, essa zona funciona como uma faixa de vários quilômetros de largura na qual a água do mar, empurrada por correntes alteradas pelas mudanças climáticas, penetra sob pressão abaixo do gelo que está apoiado sobre a rocha no continente antártico, alterando a dinâmica estrutural da formação.

Com a oscilação dos ciclos das marés, ocorre um fenômeno físico denominado bombeamento de maré. Nesse processo, a água oceânica relativamente quente avança vários quilômetros para o interior, ergue a massa de gelo nos períodos de cheia e provoca um derretimento vigoroso diretamente pela base. Essa mecânica acelera o afinamento da estrutura e ajuda a explicar por que as simulações antigas de movimentação lenta não conseguiam acompanhar a velocidade real de aceleração do fluxo de gelo observada pelos cientistas nas últimas décadas.

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“A maioria das projeções até o presente teve dificuldade para acompanhar a rapidez da perda de massa por causa da ausência de processos físicos. Nosso novo modelo com física mais completa consegue corresponder ao registro e então produz projeções que são duas vezes maiores que antes”, declarou Rignot, em tradução livre. O trabalho tem como autor principal Mattia Poinelli, cientista de projeto na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), ex-pesquisador de pós-doutorado na UC Irvine e afiliado ao JPL da Nasa, e conta com a coautoria de Hélène Seroussi, pesquisadora da Faculdade de Engenharia Thayer no Dartmouth College.

Nasa – JHVEPhoto/ Shutterstock.com

Dados técnicos e instituições do estudo sobre a Geleira Thwaites

A pesquisa que revisou o comportamento do manto de gelo antártico reuniu centros acadêmicos dos Estados Unidos e utilizou registros espaciais europeus para calibrar as simulações computacionais:

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  • Título original do artigo: Sea-level contribution from Thwaites Glacier doubles in an observation-constrained ice-sheet model.
  • Data de publicação e divulgação oficial: 12 de outubro de 2026, na revista científica Nature Communications e em comunicado da UC Irvine.
  • Instituições líderes: Universidade da Califórnia em Irvine (UC Irvine) e Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) da Nasa.
  • Instituições colaboradoras: Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), Dartmouth College e Universidade da Califórnia em San Diego (UC San Diego).
  • Base de calibração: quase três décadas de observações, incluindo 20 anos de dados acumulados e leituras de radar de abertura sintética da constelação de satélites finlandeses ICEYE, que mediram oscilações de escala quilométrica no canal principal.

Perda de gelo da Geleira Thwaites desde a década de 1990

Ao incorporar a física da zona de aterramento e calibrar o sistema com os registros de satélite, os pesquisadores reconstituíram alterações históricas na região desde a década de 1990 que se mostraram quatro vezes mais pronunciadas do que as apontadas pelos modelos tradicionais. Desde meados dos anos 1990, a parte ocidental da geleira, setor por onde o gelo escoa com maior velocidade, já registrou um recuo de cerca de 25 quilômetros.

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Localizada no setor da Baía do Mar de Amundsen, região que responde por cerca de um terço da perda de massa da camada de gelo da Antártida, a formação é conhecida popularmente como Geleira do Juízo Final. Ela possui uma área equivalente à da Grã-Bretanha ou à do estado norte-americano da Flórida e, sozinha, já é responsável por 4% de toda a elevação global do nível do mar registrada atualmente. Caso entre em colapso total no futuro, o potencial de elevação média global dos oceanos ultrapassa 60 centímetros (2 pés) apenas com o seu volume, podendo chegar a 3 metros (10 pés) se o evento desencadear o colapso do manto de gelo ao redor.

Risco de descolamento da Geleira Thwaites a partir de 2038

O estudo detalha ainda que a dinâmica da zona de aterramento acelera o desprendimento do gelo das formações rochosas submarinas que exercem retenção física sobre a massa glacial. Atualmente, o fluxo principal da Thwaites é mantido em estabilidade temporária por uma elevação submarina chamada Cume Mouginot.

Nas simulações computacionais que consideram uma zona de aterramento com largura entre 4 e 6 quilômetros, há 60% de probabilidade de a geleira se descolar do Cume Mouginot até o final deste século, em 2100. O modelo indica que esse processo de desprendimento físico pode começar já a partir do ano de 2038.

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“O tronco principal da Thwaites está sendo temporariamente estabilizado pelo Cume Mouginot. Uma vez que esse cume se desprenda, a geleira recuará continuamente por um leito marinho predominantemente retrógrado em direção à sua próxima elevação topográfica, o Cume Sul”, explicou o autor principal, Mattia Poinelli, em tradução livre.

Bruna: Bruna Santos é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve e colabora para o portal desde 2024. Formação: Professora.