Herugavialis cairensis é identificado em calcário usado na construção da Grande Esfinge de Gizé no Egito

Esfinge de Gizé, Pirâmide - pius99/ istockphoto.com

Esfinge de Gizé, Pirâmide - pius99/ istockphoto.com

Um grupo internacional de paleontólogos reavaliou um crânio fossilizado de aproximadamente 45 milhões de anos extraído no Egito e estabeleceu um novo gênero e espécie de crocodiliano pré-histórico, batizado oficialmente como Herugavialis cairensis. A descoberta, detalhada em artigo científico na revista Royal Society Open Science em 7 de outubro de 2026, corrige uma classificação taxonômica que vigorava desde 1927 e reposiciona o animal como um parente antigo da linhagem do atual gavial-indiano. O exemplar foi retirado da mesma formação geológica que forneceu os blocos rochosos usados na Antiguidade para esculpir a Grande Esfinge de Gizé.

A coleta original ocorreu na Formação Mokattam, situada no norte do território egípcio, um depósito de calcário marinho datado do estágio Luteciano do período Eoceno Médio (entre 47,8 milhões e 41,2 milhões de anos atrás). Há mais de 4.000 anos, por volta de 2.500 a.C., os antigos egípcios exploraram intensamente essas mesmas pedreiras para talhar o monumento da Esfinge, erguer as Pirâmides de Gizé e edificar estruturas do Cairo Histórico. Além do réptil recém-reclassificado, essa camada sedimentar preserva vestígios marinhos de peixes, tubarões e baleias primitivas que habitavam águas costeiras rasas quando o norte da África estava submerso.

O trabalho de revisão anatômica foi coordenado por Paul M. J. Burke, pesquisador de pós-doutorado no Museu Sueco de História Natural, em Estocolmo, que iniciou a investigação quando atuava no Departamento de Ciências da Terra da University College London (UCL), no Reino Unido. Ele dividiu a liderança da pesquisa com Philip D. Mannion, professor de paleobiologia na UCL. A equipe conta ainda com a autoria de Stephan N. F. Spiekman, integrante do Museu Estadual de História Natural de Stuttgart, na Alemanha, e dos cientistas egípcios Belal S. Salem, Sara Saber e Hesham M. Sallam, vinculados à Universidade de Mansoura.

Falta da ponta do focinho no crânio SMNS 10575 inspira referência a Hórus

A escolha da nomenclatura científica Herugavialis (“gavial de Hórus”) une a origem geológica nas colinas de Mokattam à mitologia do Antigo Egito, fazendo alusão direta ao deus Heru, conhecido como Hórus, divindade solar frequentemente associada à criação da Grande Esfinge. O epíteto específico cairensis remete à proximidade da área de escavação com a capital egípcia, o Cairo. A conexão simbólica com a estatuária faraônica ganhou força devido ao estado físico da peça principal analisada pelos pesquisadores, identificada nos arquivos museológicos pelo código de catálogo SMNS 10575.

Estátua deus Hórus – frentusha/ istockphoto.com

Com cerca de 45 centímetros de comprimento (aproximadamente 18 polegadas), o crânio está bem preservado, mas exibe uma fratura antiga na extremidade frontal do rostro. Essa perda óssea corresponde ao osso pré-maxilar, deixando o fóssil sem a ponta do focinho, exatamente como ocorre com a estátua da Esfinge de Gizé, famosa por ter perdido a região do nariz ao longo dos séculos. “Dada essa coincidência com o nariz famosamente ausente da Grande Esfinge, decidimos batizar o novo crocodilo em homenagem ao deus egípcio Heru, que possivelmente foi a inspiração para este monumento icônico”, afirmou Philip Mannion, em tradução livre.

Exames de imagem em Stuttgart separam réptil egípcio do falso-gavial asiático

Para investigar o exemplar SMNS 10575 sem causar danos físicos à rocha ou ao osso mineralizado, os especialistas submeteram o crânio abrigado no Museu Estadual de História Natural de Stuttgart a sessões de microtomografia computadorizada (micro-CT). O escaneamento de alta resolução foi combinado à inspeção de outros fragmentos atribuídos à mesma espécie, incluindo porções isoladas do focinho e das mandíbulas. A tecnologia gerou modelos tridimensionais da anatomia endocraniana, revelando cavidades, canais nervosos e suturas internas que permaneciam ocultos em análises visuais externas realizadas no século 20.

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As imagens tomográficas demonstraram que o réptil egípcio possuía órbitas oculares telescopadas, caracterizadas por bordas ósseas elevadas ao redor dos olhos e formadas pela junção de múltiplos ossos cranianos. Os cientistas detectaram ainda um alongamento acentuado nos ossos lacrimais, posicionados logo à frente das cavidades oculares, e notaram a ausência de um processo do osso maxilar dentro da glândula lacrimal — estrutura anatômica presente em todas as espécies de crocodilianos vivos. Somadas às particularidades na parte posterior do crânio e na caixa craniana que alojava o encéfalo, essas feições provaram que o animal integra a base evolutiva dos gavialinos, linhagem do gavial-indiano (Gavialis gangeticus), encontrado no rio Ganges, na Índia.

A descoberta descarta a classificação histórica que vinculava o fóssil diretamente ao grupo do falso-gavial (Tomistoma schlegelii), espécie restrita a ambientes de água doce na Malásia e na Indonésia, no Sudeste Asiático. "Com os dados da tomografia computadorizada, conseguimos reconstruir os ossos e verificar como a morfologia de Herugavialis difere dos dois gaviais atuais", disse Paul Burke. O exemplar já chamava a atenção de paleontólogos em revisões preliminares, mas exigia tecnologia moderna para uma definição precisa. "Já era conhecido e reconhecido como algo distinto, mas um trabalho mais detalhado era necessário para resolver exatamente o que ele representava", declarou Mannion, em tradução livre.

O mapeamento anatômico e estatístico publicado na revista Royal Society Open Science consolidou os parâmetros técnicos e evolutivos da pesquisa:

  • Proporção rostral: o focinho longo e fino, adaptado para a captura de peixes, representa 64% do comprimento total do crânio de cerca de 45 centímetros.
  • Matriz filogenética: o cruzamento de dados sob o critério de parcimônia máxima avaliou 152 espécies e 331 caracteres morfológicos distintos.
  • Histórico fóssil global: a superfamília Gavialoidea soma mais de 40 espécies extintas reconhecidas em mais de 100 milhões de anos de registro na África, Ásia, Europa, América do Norte, América do Sul e Caribe, incluindo achados na Ilha de Sheppey, no Reino Unido.
  • Conservação moderna: apenas duas espécies de água doce sobrevivem na Ásia, sendo o gavial-indiano (Gavialis gangeticus) classificado como criticamente em perigo e o falso-gavial (Tomistoma schlegelii) listado como em perigo de extinção pela Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).
  • Tramitação editorial: o manuscrito científico foi submetido para avaliação em 10 de junho de 2026, aprovado pelos revisores em 31 de julho de 2026 e divulgado em 7 de outubro de 2026.

Escavações de Richard Markgraf no Cairo e um século de classificação

A história museológica do holótipo — peça única de referência utilizada pela ciência para ancorar a descrição formal de uma espécie — remonta às expedições europeias realizadas no norte da África entre o final do século 19 e o início do século 20. O crânio foi desenterrado nas encostas de Mokattam pelo coletor de fósseis alemão Richard Markgraf (1869–1916). Ele passou a atuar na coleta paleontológica em solo egípcio após conhecer o geólogo e paleontólogo alemão Eberhard Fraas (1862–1915) na cidade do Cairo, em 1897, embora o ano exato em que o crânio foi retirado da rocha permaneça desconhecido por falta de diários de campo detalhados.

As primeiras observações científicas sobre os crocodilianos daquela formação rochosa foram redigidas pelo próprio Eberhard Fraas em 1904. Contudo, o batismo taxonômico oficial ocorreu apenas em 1927, quando o paleontólogo Lorenz Müller, pesquisador do Museu de História Natural de Stuttgart, descreveu o material na literatura acadêmica. Baseando-se apenas na semelhança externa do focinho estreito com o do falso-gavial asiático, Müller nomeou a espécie como Tomistoma cairense, designação que permaneceu nos catálogos paleontológicos por quase cem anos até a revisão conduzida pela equipe de Burke e Mannion.

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Diversidade no antigo mar de Tétis e o desaparecimento há 6 milhões de anos

Ao contrário dos dois representantes modernos do grupo, que habitam exclusivamente rios continentais asiáticos, o Herugavialis cairensis era um predador adaptado a águas marinhas rasas que cobriam o norte do Egito durante o Eoceno Médio. O cruzamento filogenético demonstrou que o animal não possuía parentesco próximo com outros dois gavialoides que viveram no Paleógeno egípcio na depressão de Faium, localizada ao sul do Cairo: o Paratomistoma courti, originário da Formação Gehannam (Eoceno Médio, de cerca de 41 milhões de anos atrás), e o Eogavialis africanum, resgatado na Formação Qasr el-Sagha (final do Eoceno, com aproximadamente 37 milhões de anos).

“Em nosso artigo, apresentamos as diferenças anatômicas entre Herugavialis e outros gavialoides do Egito. As diferenças são suficientemente claras para confirmarmos que se trata de espécies distintas. Ainda estamos trabalhando para compreender a história evolutiva dos gavialoides, mas nossos resultados indicam que havia três espécies distintas no Egito durante o Paleógeno”, declarou Burke. O pesquisador acrescentou que o animal compõe um quadro mais amplo na região: “Herugavialis cairensis é uma das seis espécies de gaviais que vemos no Mediterrâneo ao longo de um período de 43 milhões de anos, de 66 milhões a 23 milhões de anos atrás. Claro, pode haver ainda mais espécies que simplesmente não conhecemos ainda”, disse Burke, em tradução livre.

Para o coautor egípcio Belal Salem, a separação taxonômica comprova que o norte africano foi colonizado por ondas independentes desses répteis aquáticos. “Essas três espécies não são aparentadas, ou seja, não representam uma sequência evolutiva simples. São linhagens distintas que ocuparam o norte do Egito em diferentes períodos. Juntamente com registros do Marrocos, elas sugerem que o norte da África abrigou uma diversidade considerável de gavialoides ao longo do Eoceno, com diferentes linhagens ocupando ambientes marinhos rasos ao longo da margem sul do mar de Tétis”, afirmou Salem.

Essa fauna costeira sofreu um declínio severo na transição do final do Eoceno para o Oligoceno, quando o resfriamento do clima global e o recuo no nível dos mares reduziram os habitats marinhos rasos, gerando uma lacuna sem fósseis do grupo durante o Oligoceno. Um aquecimento posterior no Mioceno Inferior e Médio (entre 23 milhões e 5,3 milhões de anos atrás) permitiu que novas linhagens recolonizassem a região, deixando fósseis registrados na Itália, em Portugal e em Malta. O desaparecimento definitivo de todos os crocodilianos da bacia mediterrânea ocorreu no final do Mioceno, há cerca de 6 milhões de anos, provocado pela Crise Salina do Messiniano, evento geológico em que o mar Mediterrâneo secou quase por completo. “Durante grande parte dos últimos 50 milhões de anos, a região do Mediterrâneo abrigou uma alta diversidade de crocodilos, incluindo gaviais. No entanto, essa diversidade flutuou ao longo do tempo, parecendo corresponder a mudanças na temperatura global e no nível do mar, antes da perda de todos os crocodilos nesta região como resultado do ressecamento do Mediterrâneo há aproximadamente 6 milhões de anos”, declarou Paul Burke.

Luís Henrique Costa: Luís Henrique Costa é jornalista formado pela FMU, editor-chefe e fundador do Mix Vale, portal de notícias em atividade desde 2013. Responde pela direção editorial do veículo, que cobre Brasil e mundo em economia, benefícios sociais, esportes, tecnologia, ciência e entretenimento. Atua na área há mais de 15 anos e lidera uma equipe de cerca de 15 colaboradores.
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