A poluição por ozônio troposférico gerada pelos incêndios na Amazônia danifica as folhas das árvores sobreviventes e reduz a capacidade da floresta de retirar gás carbônico da atmosfera. Essa perda oculta na absorção de carbono equivale, em média, a 24% de todas as emissões diretas provocadas pela própria combustão do fogo, segundo estudo publicado em 7 de outubro de 2026 na revista científica Communications Earth & Environment.
A pesquisa foi liderada por Flossie Brown, pesquisadora de química atmosférica na ETH Zurich e na Universidade de Exeter. “Os incêndios florestais não liberam apenas CO₂ quando queimam. Eles também contribuem para o aumento do ozônio próximo à superfície, um poluente que danifica as folhas das árvores sobreviventes e reduz sua capacidade de continuar absorvendo carbono depois”, afirmou a autora principal, em tradução livre.
Como o ozônio das queimadas afeta as árvores da Amazônia?
Durante a combustão da vegetação, as queimadas liberam óxidos de nitrogênio e outros gases poluentes na atmosfera que, ao reagirem na presença da luz solar, formam o ozônio troposférico, localizado ao nível do solo. Esse gás penetra nas folhas das árvores por meio de seus poros microscópicos, chamados estômatos, deteriorando o tecido foliar e reduzindo a realização da fotossíntese. Com isso, a floresta perde parte da sua capacidade de absorver dióxido de carbono (CO₂) mesmo em áreas distantes, onde as chamas não chegaram.
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Para mensurar a extensão do problema diante da escassez de medições de longo prazo em superfície na região, os cientistas combinaram o modelo computacional de superfície terrestre JULES e dados de satélites e registros meteorológicos. As simulações foram calibradas com experimentos de exposição de espécies tropicais ao gás, realizados pelo projeto TropOz. Os parâmetros e números exatos apurados pelo modelo incluem:
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- 1997 a 2024: período de 28 anos de observações climáticas e de satélite analisado pela equipe.
- 18% a 35%: intervalo estimado para a queda na absorção de carbono, variando conforme a sensibilidade das árvores tropicais ao gás.
- Quase o dobro: aumento do dano foliar por ozônio registrado na seca recente em comparação com a média da década anterior.
Secas do El Niño e avanço no Arco do Desmatamento da Amazônia
Em condições normais de estiagem sem fogo, as árvores fecham seus estômatos para economizar água, o que bloquearia parcialmente a entrada do poluente, mas a escala das queimadas iniciadas pela ação humana entre agosto e outubro supera essa defesa natural. Os danos mais severos concentram-se no Arco do Desmatamento, faixa onde a limpeza de terras para agropecuária impulsiona o fogo, e agravam-se durante secas extremas associadas ao fenômeno climático El Niño. O levantamento identificou picos de perda oculta de carbono em três grandes secas ligadas ao fenômeno nas últimas três décadas:
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- 1997–1998: primeiro episódio severo de seca extrema analisado na série histórica do estudo.
- 2015–2016: segundo período de estiagem intensa associada ao aquecimento das águas do Pacífico.
- 2023–2024: seca extrema mais recente, quando a perda de capacidade de absorção atingiu níveis recordes.
Instituições envolvidas e alerta para o clima na Amazônia em 2026
O artigo científico contou com a participação do brasileiro Paulo Artaxo, professor titular do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP), e de Alexander W. Cheesman, pesquisador sênior na James Cook University. Também assinam o estudo representantes do Met Office Hadley Centre e do UK Centre for Ecology & Hydrology, com financiamento do Natural Environment Research Council (NERC) e apoio da Agência Espacial Europeia (ESA) via projeto XFires.
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Para Stephen Sitch, professor da Universidade de Exeter e líder científico do projeto XFires, conter apenas a derrubada direta da mata não basta para frear o problema. “Reduzir o desmatamento e a degradação florestal cortaria as emissões diretas dos incêndios, mas nosso estudo mostra que isso também protegeria a Amazônia
dessa fonte secundária e invisível de perda de carbono”, declarou. Os pesquisadores alertam que o fortalecimento de um novo e intenso fenômeno El Niño em desenvolvimento em 2026 pode provocar outro pico severo de danos por ozônio e perda de carbono na floresta.