Regeneração das florestas reduz árvores invasoras em 20 anos

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Floresta Foto: Floresta - RudiErnst/ shutterstock.com

Um estudo internacional liderado pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP) demonstra que a regeneração natural de florestas tropicais reduz o domínio de árvores não nativas e invasoras após os primeiros 10 a 20 anos. Os resultados, publicados na revista científica Nature Plants e detalhados nesta sexta-feira (16), revelam que o crescimento lento das espécies nativas sombreia o terreno e impede a multiplicação contínua de plantas exóticas nas Américas.

A pesquisa reuniu cientistas de aproximadamente 60 instituições para avaliar a recuperação de matas secundárias — áreas que voltaram a crescer após o desmatamento. De acordo com Angelica Faria de Resende, pesquisadora de pós-doutorado na Esalq-USP e primeira autora do artigo, a presença inicial de plantas exóticas gera alerta ecológico porque, “ao substituir o papel de uma ou mais espécies nativas e alterar processos naturais, as invasoras podem modificar as redes tróficas e a diversidade funcional, estrutural e biológica na floresta”.

Como a regeneração natural das florestas reduz as árvores não nativas?

O recuo das espécies exóticas ao longo das décadas ocorre por uma mudança na disponibilidade de recursos dentro da própria mata em recuperação. Nos primeiros 10 a 20 anos após o abandono de pastagens ou terrenos abertos, a luz solar atinge o solo sem barreiras, criando um ambiente favorável para plantas de crescimento rápido. Nesse estágio inicial, as árvores não nativas atuam de maneira semelhante às espécies nativas pioneiras, multiplicando-se com facilidade até que as árvores nativas de crescimento lento, capazes de germinar na sombra, cresçam e fechem a copa da floresta.

Área reflorestada às margens do deserto de Taclamacã, na China - Le Yu/Universidade Tsinghua
Área reflorestada às margens do deserto de Taclamacã, na China – Le Yu/Universidade Tsinghua

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Sem a incidência direta de sol pleno, as espécies exóticas perdem a capacidade de dominar o ambiente e passam a ocorrer apenas em baixas densidades na fase adulta da vegetação. “Chamou nossa atenção que tanto a diversidade de espécies quanto a quantidade de indivíduos caíram consideravelmente logo após esse pico inicial”, afirmou Resende. A pesquisadora acrescentou que o comportamento dessas plantas responde diretamente à abertura do terreno: “As não nativas são oportunistas e se aproveitam quando as condições são favoráveis”.

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Os levantamentos de campo mostraram variações importantes na presença dessas árvores conforme o tipo de vegetação e o tempo de maturação da área avaliada:

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  • Florestas úmidas (primeiros 10 a 20 anos): árvores não nativas representaram até 28% do total de troncos (caules) e 22% das espécies registradas.
  • Florestas secas (primeiros 10 a 20 anos): espécies exóticas atingiram o patamar de 9% tanto na proporção de troncos quanto na variedade de espécies.
  • Florestas úmidas (após 50 anos de sucessão): a densidade relativa de árvores não nativas recuou para 5% do total.
  • Florestas secas (após 50 anos de sucessão): a participação de indivíduos exóticos caiu para 4% da vegetação.
  • Distribuição geral nas áreas pesquisadas: plantas não nativas foram identificadas em 41% dos trechos de matas úmidas e em 18% dos trechos de matas secas.

Amostragem de 3.735 espécies na revista Nature Plants e critérios políticos

O levantamento publicado na edição de agosto de 2026 (Volume 12) da revista Nature Plants identificou um total de 3.735 espécies arbóreas nas áreas monitoradas. Desse conjunto, 156 espécies — o equivalente a 4,2% do total — foram classificadas como não nativas em pelo menos um país analisado. A divisão técnica separou esse grupo em 131 espécies não nativas e não invasoras, 14 não nativas potencialmente invasoras (quando já têm registro de invasão em outro país) e 11 classificadas oficialmente como não nativas e invasoras.

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A distinção prática entre uma planta exótica comum e uma invasora depende da capacidade de dispersão sem ajuda humana, como demonstram casos registrados no território brasileiro. O pinus (Pinus elliottii), trazido do hemisfério Norte para extração de madeira e resina, espalha sementes pelo vento e brota de forma espontânea, dominando paisagens naturais e recebendo a classificação de espécie invasora. Em contrapartida, o eucalipto (Eucalyptus spp.), originário da Oceania e cultivado para produção de papel, celulose e madeira, é categorizado como não nativo e não invasor porque permanece restrito aos locais onde foi plantado, ao lado de árvores introduzidas para fins alimentares ou ornamentais, como jaca, manga, jambo e coqueiro.

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A equipe científica observou que a lista oficial de plantas invasoras nem sempre reflete o real comportamento biológico da vegetação no campo. “Em alguns países, o critério científico nem sempre é suficiente, e a decisão de classificar como invasora ou não acaba sendo política, uma vez que órgãos governamentais são responsáveis por expedir listas oficiais de espécies invasoras. Algumas espécies são amplamente utilizadas na agricultura e são percebidas como vantajosas para a economia e, portanto, não são consideradas invasoras”, declarou Resende.

Mesmo fora das listas restritivas de governos locais, determinadas árvores exóticas ou invasoras chegaram a somar mais de 25% de todos os troncos medidos em trechos específicos da pesquisa:

  • Brasil: cajueiro-japonês (Hovenia dulcis).
  • Colômbia: Croton glabellus e leucena (Leucaena leucocephala).
  • Costa Rica: Piper colonense.
  • Panamá: resedá-gigante (Lagerstroemia speciosa).

Metodologia em 10 países das Américas e influência do entorno

Para reconstruir a evolução das matas ao longo de décadas sem precisar esperar um século de crescimento contínuo, os cientistas avaliaram 1.561 parcelas (trechos) de florestas secundárias agrupadas em 58 cronossequências — método que compara áreas vizinhas com diferentes idades de regeneração, desde terrenos recém-abandonados até matas maduras. As espécies não nativas estavam presentes em 81% dessas cronossequências, distribuídas por dez países neotropicais: Bolívia, Brasil, Colômbia, Costa Rica, Guiana Francesa, México, Panamá, Peru, Porto Rico e Venezuela. “Como ninguém consegue acompanhar uma floresta durante cem anos, a gente substitui o tempo pelo espaço: estuda florestas de idades diferentes e reconstrói o processo de regeneração”, explicou a primeira autora.

O cruzamento dos dados ambientais revelou que a variedade de espécies não nativas cresce em regiões com maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Por outro lado, tanto a quantidade de indivíduos quanto a diversidade dessas árvores exóticas caem à medida que aumentam o volume de chuvas (precipitação), a proximidade com terrenos agrícolas e o percentual de cobertura florestal preservada ao redor da área em recuperação.

“Nossos achados sugerem que a regeneração natural de florestas e a manutenção de paisagens relativamente intactas provêm uma solução baseada na natureza para controlar espécies não nativas, ao mesmo tempo em que protegem a biodiversidade natural, a integridade do ecossistema e os modos de vida locais”, afirmou Resende. O estudo teve orientação do professor Pedro H. S. Brancalion, da Esalq-USP, e coautoria de Lourens Poorter e do pesquisador de pós-doutorado Fabio Matos, contando com estágios nas universidades de Stirling, na Escócia, e de Cambridge, na Inglaterra, além de financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), por meio do Programa BIOTA no projeto NewFor, em parceria com a Organização Neerlandesa para a Pesquisa Científica (NWO).

Jeronimo Santos é colaborador da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2016: Formação: Marketing

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