Unicamp cria curativo líquido feito de cana-de-açúcar para a pele

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Cana-de-açúcar - Valentyn Volkov/ shutterstock.com Foto: Cana-de-açúcar - Valentyn Volkov/ shutterstock.com

Pesquisadores da Faculdade de Engenharia Química (FEQ) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) desenvolveram um curativo líquido biodegradável derivado da cana-de-açúcar em Campinas, no interior de São Paulo. A substância, cujos resultados ganharam repercussão nesta sexta-feira (16), reduz em aproximadamente 50% o tempo de cicatrização de ferimentos em comparação aos métodos convencionais e dispensa o uso de gazes, esparadrapos e ataduras.

Aplicada diretamente sobre a lesão, a solução atóxica forma uma película protetora transparente que é metabolizada e absorvida pelo próprio organismo à medida que o tecido se regenera. “Estamos formando um filme inteligente, no sentido de que ele interage muito bem com a pele e cria uma condição de barreira contra agentes externos que causam infecção, servindo como substrato para acelerar a cicatrização da ferida”, disse Rubens Maciel Filho, professor da Faculdade de Engenharia Química da Unicamp e coordenador da pesquisa.

Como funciona o curativo líquido da Unicamp na regeneração celular

O composto tem como base o poliácido lático (PLA), um polímero biocompatível obtido por meio da fermentação do açúcar da cana para transformá-lo em ácido lático, que é uma substância compatível com o corpo humano. Para converter esse material sólido em uma solução líquida segura para aplicação direta sobre ferimentos abertos, o grupo de cientistas combinou o polímero biodegradável a um sistema de solventes de origem renovável e não tóxicos. Quando entra em contato com a superfície machucada, o produto imita a matriz celular do corpo e passa a atuar como um suporte tridimensional para o crescimento das células de regeneração, guiando o fechamento do tecido sob a filosofia descrita pelo coordenador Rubens Maciel Filho como “deixar o corpo fazer melhor o que ele já faz”.

Além de Maciel Filho, a equipe científica responsável pela formulação na universidade é integrada pelos pesquisadores André Luiz Jardini Munhoz, Maria Ingrid Rocha Barbosa Schiavon e Ana Flávia Pattaro. Doutora em Engenharia Química pela Unicamp e sócia-administradora da Dermbio Biotech, a química Ana Flávia Pattaro avaliou o comportamento do tecido regenerado durante os experimentos. “O formato da cicatrização também é adequado e tem todas as características necessárias para uma boa cicatrização”, afirmou.

A membrana formada sobre o ferimento é flexível e resistente à água corrente, o que permite ao paciente tomar banho normalmente sem perder a proteção, embora a película possa ser removida caso haja fricção com água e sabão. Essa elasticidade preserva a mobilidade em áreas de articulações e dobras, como joelhos, cotovelos e dedos, locais onde os curativos tradicionais costumam apresentar dificuldades de adesão ou manutenção. Como o filme é transparente, profissionais de saúde e pacientes conseguem acompanhar visualmente a evolução da ferida sem a necessidade de retirar a cobertura.

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A ausência de trocas periódicas reduz a manipulação da área lesionada e o impacto ambiental do tratamento médico. “O fato de não precisar cortar e não precisar trocar também traz uma potencial diminuição na contaminação cruzada”, afirmou Maria Ingrid Rocha Barbosa Schiavon, engenheira, pesquisadora da Unicamp e coautora do estudo. Sobre o desaparecimento gradual da película conforme a pele se recupera, a cientista completou: “E, como o material é absorvido, não gera resíduos biológicos”.

Dados técnicos e instituições do curativo líquido da Unicamp

  • Tempo máximo de secagem: até 45 segundos após a aplicação para formar a película protetora transparente.
  • Rendimento do produto: 1 mililitro da solução, quando inserido em uma caneta aplicadora, pode render centenas de aplicações.
  • Formas de aplicação: spray aerossol ou dispositivo portátil, como caneta aplicadora e eletrofiador (equipamento que utiliza força elétrica para produzir fibras finas).
  • Desempenho nos testes: redução de aproximadamente 50% no tempo total de cicatrização em ensaios pré-clínicos in vivo (realizados em organismos vivos) em parceria com a Faculdade de Medicina de Jundiaí (FMJ).
  • Financiamento e suporte: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e Agência de Inovação Inova Unicamp.
  • Propriedade intelectual: pedido de patente depositado no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), com titularidade compartilhada entre a Unicamp e a Dermbio Biotech.

Histórico do poliácido lático no Brasil e licenciamento na Unicamp em 2026

Antes do desenvolvimento da nova solução em Campinas, o poliácido lático já era empregado pela medicina na fabricação de fios de sutura, pinos e parafusos cirúrgicos. No entanto, a obtenção desse insumo para a área médica no Brasil dependia de importações de alto custo, e os solventes tradicionalmente utilizados pela indústria para processar o polímero apresentavam toxicidade, o que impedia a aplicação direta na pele humana ou animal. O histórico de pesquisas do grupo com derivados da cana-de-açúcar levou à criação da Dermbio Biotech, uma spin-off acadêmica — empresa-filha surgida dentro da própria universidade e fundada pelos inventores —, que anteriormente já havia licenciado outra tecnologia da instituição voltada à produção de polímeros a partir do ácido lático, trabalho que rendeu aos cientistas o Prêmio Inventores Unicamp.

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O licenciamento exclusivo da tecnologia do curativo líquido para a Dermbio Biotech e os detalhes do seu desenvolvimento foram divulgados originalmente pela Agência de Inovação Inova Unicamp em 10 de setembro de 2026, com nova apresentação dos dados da pesquisa em 16 de outubro de 2026. Além do tratamento de feridas na saúde humana e veterinária, os pesquisadores apontam que a plataforma tecnológica tem potencial de aplicação na indústria de dermocosméticos, no revestimento de implantes e próteses e em sistemas de liberação controlada de medicamentos no organismo.

Etapas na Anvisa antes da chegada do curativo líquido ao mercado

Apesar dos resultados obtidos nos laboratórios da Unicamp e da Faculdade de Medicina de Jundiaí, o curativo líquido ainda não está disponível comercialmente para hospitais ou farmácias. Ainda não há data exata confirmada para o início dos testes clínicos em seres humanos nem prazo oficial para a conclusão do processo e chegada do produto ao mercado.

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Para que a solução possa ser produzida em escala comercial e utilizada em pacientes, a próxima etapa obrigatória envolve a realização de ensaios clínicos em humanos e o cumprimento de todas as exigências regulatórias junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Bruna Santos é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve e colabora para o portal desde 2024. Formação: Professora.

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