O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou nesta sexta-feira (16) que o trabalho infantil no Brasil recuou 9,2% entre 2024 e 2025. Com a redução de 151 mil jovens nessa condição, o contingente de crianças e adolescentes de 5 a 17 anos submetidos ao trabalho irregular chegou a 1,499 milhão, o equivalente a 4,0% da população total de 37,8 milhões nessa faixa etária, marcando o menor patamar da série histórica iniciada em 2016.
Mais de 95% dessa retração nacional ocorreu em domicílios atendidos pelo Programa Bolsa Família, onde o número de jovens trabalhando caiu 20,1% no período, o que representa 144 mil pessoas a menos (passando de 717 mil em 2024 para 573 mil em 2025). Os números integram o módulo sobre trabalho de crianças e adolescentes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, apresentada no Rio de Janeiro em 16 de outubro de 2026.
Bolsa Família e mercado aquecido puxam queda do trabalho infantil
Em 2025, cerca de 13,1 milhões de pessoas de 5 a 17 anos moravam em residências beneficiárias do Bolsa Família, o que correspondia a 34,7% da população brasileira nessa faixa de idade. Nesses lares, a proporção de jovens em situação de trabalho infantil recuou de 5,2% em 2024 para 4,4% em 2025. O rendimento médio mensal real domiciliar por pessoa nas casas que recebiam o benefício era de R$ 660, valor equivalente a cerca de um terço do registrado nos domicílios não beneficiados com moradores da mesma faixa etária, que chegava a R$ 1.990.
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O pesquisador e analista do IBGE responsável pelo estudo, Gustavo Geaquinto Fontes, explicou que a pesquisa não apura o motivo individual de saída do trabalho, mas associou o recuo à combinação de melhora econômica com ações de fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e do Ministério Público do Trabalho (MPT). “Existem políticas públicas, inclusive do próprio Ministério Público do Trabalho, voltadas para isso [lidar com o trabalho infantil]. O próprio Bolsa Família pode ter contribuído, ao garantir uma renda mínima para essas famílias, para essa queda. São vários fatores, como o mercado de trabalho aquecido. A taxa de desocupação no país tem atingido mínimos históricos. A renda domiciliar per capita em 2025 aumentou, a renda do trabalho aumentou”, disse Fontes.
O analista do IBGE também apontou a exigência de presença nas aulas como um fator de retenção dos jovens nas escolas. “O Bolsa Família pode ter contribuído para garantir uma renda mínima para essas famílias, além de ter condicionalidades relacionadas à frequência escolar. É algo que pode ter contribuído para essa queda”, afirmou.
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Como o trabalho infantil se divide por idade, região e atividade em 2025
Para definir a ilegalidade da ocupação, o IBGE segue normas específicas conforme a idade do cidadão e os critérios da Organização Internacional do Trabalho (OIT), agência multilateral ligada às Nações Unidas que regula relações trabalhistas. É classificado como trabalho infantil qualquer atividade econômica remunerada ou produção para o próprio consumo feita por crianças de até 13 anos; para adolescentes de 14 e 15 anos, toda ocupação fora da condição de aprendiz; e, para jovens de 16 e 17 anos, o serviço sem carteira assinada ou em funções insalubres, perigosas ou noturnas. Do total de 1,499 milhão de jovens nessa situação em 2025, 1,141 milhão exerciam atividades econômicas e 358 mil faziam apenas produção para o próprio consumo.
O levantamento mostra que 525 mil crianças e adolescentes atuavam em ocupações da Lista das Piores Formas de Trabalho Infantil (Lista TIP), relação oficial que reúne funções com risco de acidentes ou danos à saúde, como construção civil, operação de máquinas agrícolas, aplicação de agrotóxicos, matadouros e coleta de lixo. Esse grupo teve queda de 6,3% frente aos 560 mil registrados em 2024, atingindo o menor número da série, mas ainda representava 36,2% dos jovens que exerciam atividades econômicas. Os demais recortes demográficos e regionais da pesquisa indicam a seguinte distribuição em 2025:
- Faixa de 5 a 13 anos: incidência de 1,1% da população do grupo (18,7% do total de casos no país).
- Faixa de 14 e 15 anos: incidência de 5,9% do grupo (23,2% do contingente total).
- Faixa de 16 e 17 anos: incidência de 14,5% do grupo (concentrando 58,1% de todo o trabalho infantil).
- Gênero: meninos somavam 980 mil casos (65,4% do total, com queda de 10,0% ante 1,089 milhão em 2024), enquanto meninas eram 519 mil (queda de 7,5% ante 561 mil em 2024).
- Raça e cor: pretos e pardos representavam 67% do contingente, com taxa de prevalência de 4,4%, acima dos 3,2% registrados entre brancos.
- Volume regional: o Sudeste tinha o maior número absoluto, com 481 mil jovens, seguido por Nordeste (408 mil), Norte (249 mil), Sul (233 mil) e Centro-Oeste (128 mil).
- Proporção regional: o Norte teve a maior taxa proporcional (6,3% da população de 5 a 17 anos), e o Sudeste registrou a menor (3,3%).
Impacto do trabalho infantil na frequência escolar e nas tarefas domésticas
A rotina de trabalho reflete diretamente no abandono dos estudos e na carga horária semanal dos adolescentes. Em 2025, a taxa de frequência escolar entre jovens de 5 a 17 anos em situação de trabalho infantil foi de 86,9%, índice inferior aos 97,5% observados na população total da mesma idade. No recorte de 16 e 17 anos, 79,6% dos trabalhadores infantis iam à escola, contra 89,6% da média geral dessa faixa etária. Além disso, 21,4% do total de trabalhadores infantis tinham jornadas de 40 horas semanais ou mais; entre os jovens de 16 e 17 anos, 29,6% cumpriam 40 horas ou mais por semana e quase metade trabalhava ao menos 25 horas semanais.
A pesquisa também mapeou o trabalho doméstico não remunerado e o cuidado de pessoas no próprio lar ou na casa de parentes, tarefas que envolviam 42,1% (15,9 milhões) de toda a população brasileira de 5 a 17 anos em 2025. A dedicação a esses afazeres era maior entre meninas (47,9%) do que entre meninos (36,6%) e subia conforme a idade: 32,7% no grupo de 5 a 13 anos, 60,7% entre 14 e 15 anos e 64,6% na faixa de 16 e 17 anos. Do total que realizava tarefas domésticas, 15,0 milhões não exerciam atividade econômica e 944 mil acumulavam as duas funções, sendo que 86,5% dedicavam até 14 horas semanais aos serviços de casa e 8,4% gastavam de 15 a 24 horas.
Evolução do trabalho infantil no Brasil de 2016 a 2025
Mesmo com o recuo acumulado de 28,6% desde o início da medição padronizada, o Brasil descumpriu a Meta 8.7 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (Agenda 2030) da Organização das Nações Unidas (ONU), acordo internacional que previa a erradicação total do trabalho infantil até 2025. Nos lares do Bolsa Família, a queda acumulada entre 2016 e 2025 foi de 41,0%, reduzindo a diferença em relação à média nacional de 2,1 pontos percentuais para 0,4 ponto percentual. A trajetória da série histórica do IBGE registrou as seguintes variações:
- 2016 — Início da série histórica com 2,1 milhões de crianças e adolescentes em trabalho infantil (5,2% da população de 5 a 17 anos), sendo 971 mil (7,3%) em lares do Bolsa Família.
- 2019 — Após quedas sucessivas desde 2016, o indicador acumulou retração de 15,7% no período pré-pandemia.
- 2020 e 2021 — Coleta presencial suspensa pelo IBGE em razão da pandemia de covid-19.
- 2022 — Contingente voltou a subir 7% na comparação com 2019, alcançando 1,9 milhão de jovens.
- 2023 — Registro da maior queda percentual anual da série, de 14,7% ante 2022, reduzindo o total para 1,62 milhão de pessoas (4,2% da faixa etária).
- 2024 — Oscilação positiva de 2,1% em relação ao ano anterior, elevando o número para 1,65 milhão de jovens (4,3% do grupo).
- 2025 — Recuo anual de 9,2%, levando o contingente a 1,499 milhão de pessoas (4,0% da faixa etária) e a 573 mil (4,4%) nos domicílios do Bolsa Família.
