Trabalho infantil em lares do Bolsa Família recua 20,1% no país

Bolsa Família

Bolsa Família - Foto: MDS

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou em 16 de outubro de 2026 que o contingente de crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil nos domicílios atendidos pelo Bolsa Família, programa federal de transferência de renda, recuou 20,1% em 2025. A saída de 144 mil jovens dessa condição nas residências beneficiadas representou mais de 95% de toda a retração registrada no Brasil em um ano.

Nos lares que recebem o benefício social, o total de moradores de 5 a 17 anos trabalhando passou de 717 mil em 2024 para 573 mil em 2025. No cenário geral do país, a queda total foi de 151 mil pessoas no mesmo intervalo. “O Bolsa Família pode ter contribuído para garantir uma renda mínima para essas famílias, além de ter condicionalidades relacionadas à frequência escolar. É algo que pode ter contribuído para essa queda”, afirmou Gustavo Geaquinto Fontes, pesquisador e analista do IBGE responsável pelos dados da pesquisa.

Indicadores do Bolsa Família e da Pnad Contínua em 2025

Professor, alunos, educação, sala de aula, escola -wavebreakmedia/shutterstock.com

Os números integram o módulo temático Trabalho de Crianças e Adolescentes de 5 a 17 anos de idade 2025, que faz parte da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), levantamento regular do IBGE sobre força de trabalho e características socioeconômicas da população. Em 2025, o Brasil contabilizava uma população total de 37,8 milhões de pessoas na faixa etária de 5 a 17 anos, das quais 13,1 milhões (34,7% do total) moravam em residências com rendimentos do programa federal. Abaixo estão os dados consolidados da divulgação oficial e das condições financeiras dos domicílios pesquisados:

Leia também: Caixa Tem libera Bolsa Família com novo piso de R$ 691 em outubro

  • Data e horário da divulgação oficial: sexta-feira, 16 de outubro de 2026, às 10h (horário de Brasília).
  • Contingente nacional em trabalho infantil em 2025: 1,499 milhão de crianças e adolescentes de 5 a 17 anos (4,0% da população nessa faixa etária), ante 1,65 milhão em 2024 (4,3% do grupo), uma queda de 9,2% no ano.
  • Proporção de jovens em trabalho infantil em 2025 por grupo: 4,4% nos domicílios beneficiários do Bolsa Família contra 4,0% na média nacional (diferença de 0,4 ponto percentual).
  • Rendimento médio mensal real domiciliar per capita em 2025: R$ 660 nos lares com moradores de 5 a 17 anos atendidos pelo Bolsa Família, frente a R$ 1.990 nos domicílios não beneficiados com moradores da mesma idade.

Como as regras do Bolsa Família e da lei trabalhista afetam os jovens?

A exigência de manutenção das crianças nas salas de aula para o recebimento do auxílio governamental refletiu diretamente nos indicadores educacionais medidos pelo instituto em todo o território nacional. Entre os trabalhadores infantis que residiam em domicílios atendidos pelo Bolsa Família em 2025, a taxa de frequência escolar atingiu 89,8%, índice superior à média geral verificada entre todas as crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil no país, que ficou em 86,9%, chegando ao patamar de 98,8% especificamente no recorte de estudantes com 14 e 15 anos de idade.

Continue lendo: Bolsa Família unifica migração para o BPC e sobe piso em 2026

O resultado nacional também reflete a combinação de ações institucionais e do cenário econômico brasileiro. “Existem políticas públicas, inclusive do próprio Ministério Público do Trabalho, voltadas para isso [lidar com o trabalho infantil]. O próprio Bolsa Família pode ter contribuído, ao garantir uma renda mínima para essas famílias, para essa queda. São vários fatores, como o mercado de trabalho aquecido. A taxa de desocupação no país tem atingido mínimos históricos. A renda domiciliar per capita em 2025 aumentou, a renda do trabalho aumentou”, declarou o analista do IBGE.

Pela legislação brasileira, qualquer atividade laboral é proibida para menores de até 13 anos. Na faixa de 14 e 15 anos, o trabalho é autorizado exclusivamente na condição de aprendiz, modalidade que exige vínculo escolar e formação técnico-profissional. Já para os jovens de 16 e 17 anos, a contratação é permitida com carteira assinada, desde que a função não seja exercida em horário noturno nem em ambiente insalubre ou perigoso.

Veja também: Bolsa Família sobe piso para R$ 691 e libera consulta em outubro

Divisão das atividades econômicas e perfil demográfico no IBGE

Do total de 1,499 milhão de crianças e adolescentes em trabalho infantil no Brasil em 2025, o levantamento apontou que 1,141 milhão exerciam atividades econômicas voltadas ao mercado e 358 mil realizavam apenas produção para o próprio consumo, categoria que engloba cultivo agrícola ou criação de animais exclusivamente para o sustento do lar. Nos domicílios do Bolsa Família com registro de trabalho infantil, 34,2% faziam apenas atividades de autoconsumo, proporção que foi de 23,9% na média nacional.

Confira também: Governo Lula reajusta Bolsa Família após 3 anos sem correção

A pesquisa também mapeou o total de 525 mil jovens de 5 a 17 anos submetidos em 2025 a ocupações enquadradas na Lista das Piores Formas de Trabalho Infantil (Lista TIP), relação oficial que classifica funções com risco de acidentes ou danos à saúde, como construção civil, coleta de lixo e comércio ambulante. Esse foi o menor contingente já registrado para essa categoria na série do instituto. A distribuição completa do trabalho infantil por idade, gênero, cor ou raça e regiões geográficas em 2025 apresentou os seguintes números:

  • Prevalência por faixa etária: 1,1% das crianças de 5 a 13 anos (18,7% do total de trabalhadores infantis); 5,9% dos adolescentes de 14 e 15 anos (23,2% do total); e 14,5% dos jovens de 16 e 17 anos (871 mil pessoas, ou 58,1% do total).
  • Divisão por sexo: 65,4% eram meninos (980 mil pessoas) e 34,6% eram meninas (519 mil pessoas).
  • Recorte por cor ou raça: pretos e pardos somavam 67% dos jovens em trabalho infantil, embora representassem 59,7% da população brasileira de 5 a 17 anos.
  • Contingente absoluto por região: Sudeste com 481 mil, Nordeste com 408 mil, Norte com 249 mil, Sul com 233 mil e Centro-Oeste com 128 mil.
  • Taxa proporcional por região: a Região Norte registrou o maior índice relativo (6,3%) e o Sudeste teve o menor percentual (3,3%).

Trajetória do trabalho infantil e do Bolsa Família desde 2016

Os dados de 2025 representam o menor patamar de trabalho infantil no Brasil desde o início da série histórica da Pnad Contínua, em 2016, quando o país contabilizava 2,1 milhões de crianças e adolescentes nessa condição (5,2% da população de 5 a 17 anos). Naquele primeiro ano de apuração, 971 mil jovens em lares beneficiários do Bolsa Família trabalhavam, o equivalente a 7,3% do grupo atendido pelo programa e uma diferença de 2,1 pontos percentuais acima da taxa média nacional da época. No acumulado entre 2016 e 2025, a retração do trabalho infantil atingiu 41,0% entre os beneficiários do auxílio federal, contra um recuo acumulado de 28,6% no contingente geral do país.

Saiba mais: Bolsa Família sobe para R$ 691,00 nos pagamentos de outubro

Ao longo de toda a década monitorada pelo IBGE, o indicador nacional registrou uma queda de 15,7% no intervalo entre 2016 e 2019, seguida pela interrupção da coleta presencial nos anos de 2020 e 2021 em razão da pandemia. Quando o levantamento foi retomado em 2022, o número de crianças e adolescentes ocupados subiu 7% e alcançou 1,9 milhão de pessoas, voltando a cair 14,7% em 2023 e apresentando uma oscilação positiva de 2,1% em 2024, antes de atingir o piso de 1,499 milhão em 2025. Apesar da redução recorde no período, o Brasil descumpriu a meta global estipulada nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU), acordo internacional que previa a erradicação completa do trabalho infantil até o fim de 2025.

Bruna: Bruna Santos é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve e colabora para o portal desde 2024. Formação: Professora.