Universidade Stanford reverte branqueamento de corais em tanque

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Branqueamento de corais - Tunatura/ istockphoto.com Foto: Branqueamento de corais - Tunatura/ istockphoto.com

Pesquisadores da Universidade Stanford reverteram totalmente o branqueamento de corais em laboratório ao colocar fragmentos doentes em contato físico direto com clones genéticos saudáveis. A técnica, publicada na quarta-feira (14) na revista científica Science Advances, promoveu a recuperação completa dos animais marinhos em sete semanas, o processo de cura mais rápido já documentado para essa condição.

Os experimentos ocorreram na Hopkins Marine Station, localizada em Pacific Grove, na Califórnia, Estados Unidos, sob a liderança do doutorando em oceanos na Stanford Doerr School of Sustainability, Danny Collins, e do coautor e professor de Ciências Marinhas na Universidade Stanford, Steve Palumbi. “Enquanto corais branqueados podem estar morrendo, eles ainda não estão mortos. A pergunta que queríamos responder é: uma vez que um coral branqueou, o que podemos fazer?”, afirmou Collins, em tradução livre. O pesquisador detalhou a reação da equipe diante dos resultados em tanque: “Isso foi chocante, impressionante. Ficamos maravilhados ao assistir o coral saudável restaurar a cor dos corais branqueados essencialmente bem diante dos nossos olhos”.

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Dados da pesquisa da Universidade Stanford sobre a cura de corais

A investigação científica contou com suporte técnico e financiamento institucional nos Estados Unidos, incluindo o desenvolvimento de peças sob medida pelo engenheiro de pesquisa no Fabrication Lab da Hopkins Marine Station, Tom Rolander, que projetou um suporte impresso em 3D para acoplar um telefone ao microscópio durante o acompanhamento das amostras, além da participação da pesquisadora e especialista de contato na Stanford Doerr School of Sustainability, Fiorenza Micheli.

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  • Publicação oficial: 14 de outubro de 2026, no periódico Science Advances (identificador digital DOI 10.1126/sciadv.aeh1580).
  • Local dos experimentos: Laboratórios da Hopkins Marine Station, em Pacific Grove, Califórnia, Estados Unidos.
  • Espécie avaliada: Fragmentos criados em aquário de Pocillopora damicornis, um tipo de coral ramificado.
  • Amostragem comparativa: 10 pares de fragmentos de corais, divididos entre cinco pares em contato direto e cinco pares separados por poucos milímetros.
  • Financiamento do projeto: National Science Foundation (NSF), agência governamental norte-americana de fomento à pesquisa, e Universidade Stanford.
Recife de coral
Recife de coral – Tunatura/ Istockphoto.com

Fusão de tecidos em Pocillopora damicornis multiplica microalgas em 10 vezes

A descoberta teve início a partir de um episódio acidental registrado em 2025 no laboratório do professor Steve Palumbi, quando dois fragmentos da mesma colônia de coral — um saudável e outro sem pigmentação — tombaram dentro de um tanque e permaneceram encostados, fazendo a cor retornar exatamente no ponto de toque. Na mesma época, Danny Collins estudava como bactérias causadoras de doenças presentes em detritos plásticos eram transmitidas aos corais por meio do contato físico, o que motivou o grupo a inverter a lógica para testar a transferência de organismos benéficos. “Bactérias nocivas entram nos corais através do contato físico. Estávamos curiosos sobre o que aconteceria se usássemos o contato para reintroduzir algo bom – as algas benéficas de corais saudáveis”, declarou Collins.

Na natureza, os corais dependem de microalgas simbióticas, chamadas de endossimbiontes, que vivem alojadas dentro de seus tecidos e realizam fotossíntese para fornecer alimento ao animal, além de garantir a sua coloração característica. Quando a temperatura da água do mar sobe além do limite tolerado, os corais expulsam essas microalgas vitais, ficam brancos e passam a correr risco de morte por falta de nutrição, em um processo cuja reabilitação natural costuma levar meses ou anos. No teste comparativo conduzido em Stanford, todos os cinco fragmentos branqueados que tocaram fisicamente seus clones saudáveis recuperaram a saúde de forma integral, enquanto os cinco fragmentos mantidos a alguns milímetros de distância declinaram ou morreram.

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Durante a união física entre os fragmentos doentes e sadios, os tecidos vivos se fundiram e alinharam canais microscópicos, criando uma ponte biológica para a passagem direta de nutrientes e de microalgas simbióticas. O fluxo substancial dessas algas para o exemplar debilitado teve início entre 36 e 60 horas após o toque inicial, sendo amplamente detectado em até três dias de experimento. Uma vez instaladas dentro do coral resgatado, as microalgas passaram a se multiplicar em uma velocidade até dez vezes maior do que o ritmo observado na regeneração natural em recifes. Avaliações com diferentes intervalos de tempo demonstraram que apenas uma semana de ligação física — e, em alguns casos, de três a cinco dias — bastou para transferir uma quantidade de algas suficiente para que o coral continuasse a se recuperar sozinho mesmo depois de ser separado do doador.

Exigência de clones genéticos limita aplicação direta de Stanford no oceano

Apesar da eficácia demonstrada nos tanques, o procedimento esbarra em uma barreira biológica rigorosa: a recuperação só ocorre quando os dois fragmentos pertencem exatamente ao mesmo clone genético, ou seja, vêm da mesma colônia original. Quando os cientistas colocaram em contato fragmentos de colônias geneticamente distintas, não houve fusão de tecidos; em poucas horas, ambos os corais lançaram filamentos urticantes de ataque um contra o outro, gerando uma competição que resultou na morte dos exemplares branqueados. “Corais geneticamente idênticos se reconhecem quando entram em contato. Seus tecidos se fundem se forem do mesmo clone. Vemos algo semelhante em humanos. Transplantes de órgãos costumam ter sucesso se o doador for seu gêmeo idêntico”, explicou o professor Steve Palumbi.

Além da restrição genética que impede o pareamento manual em larga escala no ambiente marinho, o método ainda não foi testado em recifes naturais no oceano aberto. Todas as observações ocorreram exclusivamente em tanques de laboratório com uma única espécie, a Pocillopora damicornis, sob condições controladas nas quais os corais receberam alimentação superior à disponível na natureza.

Branqueamento atingiu 84% dos recifes do planeta entre 2023 e 2025

A busca por métodos capazes de acelerar a reabilitação de corais ocorre após o quarto evento global de branqueamento em massa, que se estendeu do início de 2023 até meados de 2025, durando cerca de dois anos e meio. Segundo comunicado oficial divulgado em 2 de junho de 2026 pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), agência científica do governo norte-americano, o estresse térmico desse período atingiu 84% da área mundial de recifes de corais nas bacias dos oceanos Pacífico, Atlântico e Índico, alcançando ao menos 83 países e territórios.

Embora ocupem uma fração reduzida do fundo oceânico, os recifes de corais sustentam de 25% a um terço de toda a vida e das espécies marinhas globais. Antes da crise iniciada em 2023, o planeta já havia registrado três eventos globais de branqueamento em massa nos anos de 1998, 2010 e no período entre 2014 e 2017. No Brasil, o primeiro grande episódio de branqueamento foi documentado em 2019, seguido por um novo evento severo provocado pelo calor extremo em 2024. Em 2026, o retorno do fenômeno climático El Niño voltou a elevar as temperaturas nas águas do Oceano Pacífico, renovando o risco para a sobrevivência das colônias.

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Para contornar a inviabilidade de unir clones manualmente no mar, a equipe de Stanford ressaltou que o estudo comprova a capacidade biológica de reação rápida dos animais. “O que foi mais empolgante nisso foi ver o notável potencial que os corais branqueados têm para se recuperar rapidamente. Esses corais branqueados são frequentemente tratados como uma causa perdida”, disse Danny Collins. Como próximo passo nos meses seguintes à publicação, os pesquisadores planejam testar formas de extrair as microalgas simbióticas de colônias sadias e aplicá-las diretamente nos corais branqueados, eliminando a necessidade de contato físico contínuo e de fusão entre tecidos.

Bruna Santos é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve e colabora para o portal desde 2024. Formação: Professora.

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