Famílias do Bolsa Família respondem por 95,36% da queda do trabalho infantil

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Bolsa Família Foto: Bolsa Família - Lyon Santos/ MDS

Os domicílios beneficiários do programa Bolsa Família concentraram 95,36% da redução total do trabalho infantil registrada no Brasil entre 2024 e 2025, segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta sexta-feira (16). O número de crianças e adolescentes de 5 a 17 anos nessa condição nos lares atendidos pelo benefício caiu 20,1% no período, o que representa 144 mil jovens a menos trabalhando.

Em todo o território nacional, o contingente de pessoas de 5 a 17 anos em situação de trabalho infantil recuou 9,2% na mesma comparação anual, passando de 1,65 milhão em 2024 para 1,499 milhão em 2025. A retração total de 151 mil casos levou o indicador ao menor patamar da série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), iniciada em 2016. Nos lares que recebem o Bolsa Família, o total de trabalhadores infantis baixou de 717 mil para 573 mil.

Como o Bolsa Família influencia a queda do trabalho infantil?

Bolsa família
Foto: Bolsa família – Foto: Pamela Marciano / Shutterstock.com

Em 2025, o Brasil contabilizava 13,1 milhões de moradores de 5 a 17 anos em residências atendidas pelo programa federal de transferência de renda, o equivalente a 34,7% da população total do país nessa faixa etária, estimada em 37,8 milhões de pessoas. Para o analista e pesquisador do IBGE responsável pelo levantamento, Gustavo Geaquinto Fontes, as regras exigidas para a manutenção do benefício ajudam a explicar o resultado: “A gente sabe que o Bolsa Família tem condicionalidades, por exemplo, em relação à frequência escolar, que pode ser um fator que contribui para essa queda importante, entre outras políticas públicas”.

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A taxa de frequência escolar entre crianças e adolescentes em trabalho infantil que viviam em domicílios do Bolsa Família atingiu 89,8% em 2025, índice superior aos 86,9% verificados no conjunto total de jovens trabalhadores no país. A diferença ocorre mesmo diante de uma desigualdade de orçamento: o rendimento médio mensal real domiciliar por pessoa nos lares com jovens de 5 a 17 anos atendidos pelo programa foi de R$ 660 em 2025, cerca de um terço do valor apurado nas residências não beneficiadas com moradores da mesma idade, que chegou a R$ 1.990.

A pesquisadora de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), Janaína Feijó, avaliou que o reforço na renda familiar reduz a pressão para a entrada precoce de adolescentes no mercado e citou a expansão de contratos formais por meio do programa Jovem Aprendiz. Gustavo Geaquinto Fontes apontou que o cenário econômico de 2025 também exerceu influência sobre os números: “Existem políticas públicas, inclusive do próprio Ministério Público do Trabalho, voltadas para isso [lidar com o trabalho infantil]. O próprio Bolsa Família pode ter contribuído, ao garantir uma renda mínima para essas famílias, para essa queda. São vários fatores, como o mercado de trabalho aquecido. A taxa de desocupação no país tem atingido mínimos históricos. A renda domiciliar per capita em 2025 aumentou, a renda do trabalho aumentou”.

Números da Pnad Contínua sobre o trabalho infantil em 2025

O levantamento oficial detalha o perfil demográfico, a distribuição regional e a natureza das ocupações exercidas pelo público de 5 a 17 anos no Brasil.

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  • Data de divulgação: 16 de outubro de 2026, às 10h (horário de Brasília), pelo IBGE.
  • Divisão das atividades: do total de 1,499 milhão em trabalho infantil, 1,141 milhão exerciam atividades econômicas e 358 mil faziam apenas produção para o próprio consumo.
  • Atividades perigosas: 525 mil crianças e adolescentes (1,4% da população de 5 a 17 anos) atuavam em ocupações da Lista das Piores Formas de Trabalho Infantil (Lista TIP), que reúne funções insalubres ou de risco.
  • Perfil demográfico: os meninos representavam 65,4% do total, e os jovens declarados pretos ou pardos somavam 67% dos trabalhadores infantis (ante 59,7% de participação desse grupo na população geral de 5 a 17 anos).
  • Recorte regional: o Sudeste teve o maior volume absoluto (481 mil casos), seguido pelo Nordeste (408 mil), enquanto o Centro-Oeste registrou o menor número (128 mil); proporcionalmente, a maior taxa ficou na Região Norte (6,3%) e a menor no Sudeste (3,3%).
  • Prevalência por idade no país: a taxa nacional em 2025 foi de 1,1% no grupo de 5 a 13 anos e chegou a 14,5% entre adolescentes de 16 e 17 anos.
  • Afazeres domésticos: realizados por 42,1% da população de 5 a 17 anos (15,9 milhões de jovens) em 2025; o cuidado de pessoas e o serviço doméstico não remunerado não entram na conta oficial de trabalho infantil segundo o critério da Organização Internacional do Trabalho (OIT) adotado pelo IBGE.

Série histórica do IBGE mostra aproximação entre taxas desde 2016

A distância entre o índice de trabalho infantil nos lares do Bolsa Família e a média nacional encolheu ao longo da última década. Em 2016, primeiro ano da série histórica da Pnad Contínua sobre o tema, o Brasil tinha 2,1 milhões de jovens de 5 a 17 anos trabalhando, o equivalente a 5,2% dessa população, enquanto nos domicílios atendidos pelo programa a proporção chegava a 7,3% (971 mil pessoas), uma diferença de 2,1 pontos percentuais. Em 2025, a taxa nos lares beneficiados recuou para 4,4% (ante 5,2% em 2024), ficando 0,4 ponto percentual acima da média brasileira de 4,0% (que era de 4,3% em 2024). No acumulado entre 2016 e 2025, o trabalho infantil caiu 41,0% entre os beneficiários do programa e 28,6% no total do país.

A trajetória nacional teve oscilações no período: após recuar 15,7% entre 2016 e 2019 e passar por dois anos sem coleta presencial devido à pandemia de covid-19 em 2020 e 2021, o indicador subiu 7% em 2022 (atingindo 1,9 milhão), caiu 14,7% em 2023 (1,62 milhão, ou 4,2%) e avançou 2,1% em 2024 (1,65 milhão) antes do recuo de 2025. Nos domicílios do Bolsa Família, a redução ocorreu em todas as faixas etárias: de 5 a 13 anos, a taxa passou de 3,0% em 2016 para 2,3% em 2024 e 1,7% em 2025; de 14 e 15 anos, baixou de 13,2% para 8,7% e 7,5%; e de 16 e 17 anos, recuou de 22,4% para 16,4% e 15,0% nos mesmos anos.

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Brasil descumpre meta da ONU de erradicar trabalho infantil até 2025

Mesmo com o menor nível registrado desde 2016, o país não cumpriu a meta dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU), que estabelecia a erradicação completa do trabalho infantil em todas as suas formas até o ano de 2025. A procuradora do Trabalho e vice-coordenadora nacional da Coordenadoria Nacional de Combate à Exploração do Trabalho da Criança e do Adolescente (Coordinfância) do Ministério Público do Trabalho (MPT), Luísa Carvalho Rodrigues, destacou que o ano de 2025 marcou a retomada do cofinanciamento federal das ações do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti), paralisado desde 2019.

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Para a representante do MPT, a manutenção dos resultados exige orçamento contínuo direcionado às áreas de maior vulnerabilidade. “A gente tem que consolidar esse avanço. E, para isso, tem que ter uma continuidade dessas políticas públicas que têm funcionado, com financiamento e com foco em grupos e territórios mais afetados. É muito importante, por exemplo, que a gente garanta a continuidade de programas de transferência de renda”, declarou Luísa Carvalho Rodrigues.

Maria Clara é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2016: Formação: Atriz.

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