Aedes albopictus cresce 55% na Europa e leva dengue a 31 países

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Dengue Foto: Dengue - Foto: Sameer Neamah Mahdi/ Shutterstock.com

A elevação das temperaturas globais rompeu antigas barreiras geográficas e permitiu que os insetos vetores da dengue, zika e chikungunya se firmassem em zonas de clima temperado na Europa, nos Estados Unidos e na região Sul do Brasil. A adaptação desses transmissores a áreas antes consideradas frias amplia o risco de surtos locais fora das faixas tropicais.

Em território europeu, a presença do mosquito tigre asiático, de nome científico Aedes albopictus, cresceu 55% no intervalo de sete anos, alcançando 31 nações do bloco. Já nos Estados Unidos, o levantamento dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), agência federal de saúde pública do país, contabilizou 2.145 infecções confirmadas por dengue ao longo de 2026, com volume concentrado principalmente na Flórida.

Ondas de calor aceleram reprodução do vetor em países europeus

Casos de contaminação autóctone por dengue, que ocorrem quando o paciente contrai o vírus dentro do próprio país sem histórico de viagem ao exterior, já foram identificados pelo Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças (ECDC) em território da Croácia, França, Itália, Espanha e Portugal. O estabelecimento do inseto nessas regiões frias acompanha a subida das médias de temperatura registradas nos meses de verão do hemisfério norte.

mosquito da dengue
Foto: mosquito da dengue – Kwangmoozaa/Shutterstock.com

Dados levantados pelo observatório climático europeu Copernicus mostram que 52% da extensão territorial da Europa passou por condições de estresse térmico muito forte durante o verão de 2026. O aumento na repetição de ondas intensas de calor acelera a reprodução das fêmeas do mosquito e estende o período do ano em que a transmissão biológica do vírus consegue ocorrer.

Para o pesquisador em saúde pública da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e consultor do World Mosquito Program, Luciano Moreira, o aquecimento do planeta favorece diretamente a sobrevivência dos vetores em novas latitudes. “Essas mudanças ocorrem devido ao aquecimento global. Ouviu-se relatos até de casos de Aedes aegypti na região metropolitana de Londres. Esses mosquitos estão se adaptando a essas condições climáticas, que têm se tornado melhores para eles”, afirmou o especialista.

Indicadores da expansão dos vetores e registros de casos em 2026

  • Expansão territorial na Europa: crescimento de 55% na dispersão do mosquito tigre (Aedes albopictus) em sete anos, com presença confirmada em 31 países do continente.
  • Anomalia climática europeia: 52% da área continental submetida a estresse térmico muito forte no verão de 2026, segundo o observatório Copernicus.
  • Notificações nos Estados Unidos: 2.145 diagnósticos de dengue confirmados pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças em 2026, sendo 485 concentrados na Flórida.
  • Escalada na região Sul: cerca de 2,4 mil casos confirmados no Rio Grande do Sul em 2026, ante 80 registros contabilizados no estado em 2018.
  • Controle biológico em Niterói: queda de 90% nas infecções por dengue após a cobertura de 100% do município fluminense com a bactéria Wolbachia.

Condados da Flórida decretam emergência e avaliam uso da Wolbachia

O salto no número de doentes levou os condados de Hillsborough, Pasco e Pinellas, todos na Flórida, a decretarem emergência sanitária no fim de setembro de 2026. Na mesma região norte-americana, a administração do condado onde fica a cidade de Orlando divulgou, pela primeira vez em um intervalo de 15 anos, um alerta sanitário voltado especificamente a doenças transmitidas por picadas de mosquitos.

Diante da disseminação do vírus, o projeto Debug, iniciativa conduzida pelas empresas Alphabet e Verily, pediu permissão às agências reguladoras dos Estados Unidos para liberar 32 milhões de mosquitos machos portadores da bactéria Wolbachia durante o período de dois anos em áreas da Califórnia e da Flórida. O método tem como objetivo reduzir a população de insetos aptos a transmitir a doença nos ambientes urbanos.

Essa mesma ferramenta de controle biológico já teve aplicação integral na cidade de Niterói, no estado do Rio de Janeiro, onde atingiu 100% da área urbana e derrubou em 90% as notificações da doença. A presença da bactéria Wolbachia dentro das células do mosquito impede que o vírus da dengue se multiplique no inseto, bloqueando a passagem da infecção para os seres humanos durante a picada.

Avanço da transmissão no Rio Grande do Sul e em Buenos Aires

A perda da barreira climática formada pelo frio também alterou o perfil epidemiológico no extremo sul brasileiro, área historicamente poupada das epidemias sazonais típicas das zonas tropicais. O painel de monitoramento do Rio Grande do Sul somou aproximadamente 2,4 mil confirmações de dengue em 2026, número trinta vezes superior às 80 ocorrências registradas em todo o ano de 2018, após o país já ter passado por recordes de casos em 2024 e em 2025.

O infectologista da Fiocruz e professor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), Julio Croda, destaca que a circulação viral já atinge grandes centros urbanos mais ao sul do continente americano. “Corremos o risco de ter surtos cada vez maiores. Como ocorreu com a Argentina. Antes eram vistos casos só no Norte, mas agora temos registros em Buenos Aires. O Brasil inteiro agora tem dengue, antes não era assim”, declarou o médico.

Na avaliação do médico sanitarista da Fiocruz Brasília e ex-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Cláudio Maierovitch, os sistemas públicos de vigilância precisam adotar rotinas permanentes de controle vetorial em áreas antes livres do problema. “É importante que se faça um programa de combate ao mosquito como se faz nos trópicos. Antes, acreditávamos em barreiras geográficas para o mosquito. Mas agora esses limites foram deslocados. As regiões que restaram estão cada vez mais pressionadas”, disse Maierovitch.

Falta de imunidade prévia e atraso no diagnóstico preocupam médicos

A chegada dos vírus e de seus transmissores a municípios sem histórico de epidemias impõe dificuldades diretas às equipes de pronto atendimento. Profissionais de saúde que nunca lidaram com a rotina da dengue podem demorar a reconhecer os sinais clínicos da infecção, confundindo o quadro com outras viroses respiratórias ou gastrointestinais e postergando o início da hidratação do paciente, medida essencial para evitar mortes.

Maierovitch explica esse risco comparando a situação com o atendimento da malária fora da região Norte do país. “Um motivo de preocupação é que o serviço de saúde pode não ter experiência com essas doenças. Aqui no Brasil, isso acontece com a malária. É uma doença da região amazônica, e lá é raro morrer por isso, pois se identifica rapidamente e se trata. Fora dessa região, a doença acaba se tornando mais letal”, afirmou o sanitarista.

Soma-se à falta de treino hospitalar o fato de as populações dessas novas áreas não possuírem anticorpos contra os sorotipos do vírus. Em cidades onde a enfermidade não circulava, toda a comunidade fica exposta ao contágio simultâneo, incluindo idosos e pacientes com doenças crônicas, o que eleva a proporção de casos graves e a demanda por leitos de internação.

Quanto aos relatos sobre a presença do mosquito Aedes aegypti nos arredores de Londres, na Inglaterra, a confirmação oficial e a data exata do encontro dos insetos continuam restritas a registros preliminares. Enquanto isso, as agências de vigilância epidemiológica dos Estados Unidos e da União Europeia mantêm o acompanhamento sobre a dispersão dos vetores e as notificações clínicas.

Luís Henrique Costa é jornalista formado pela FMU, editor-chefe e fundador do Mix Vale, portal de notícias em atividade desde 2011. Responde pela direção editorial do veículo, que cobre Brasil e mundo em economia, benefícios sociais, esportes, tecnologia, ciência e entretenimento. Atua na área há mais de 15 anos e lidera uma equipe de cerca de 15 colaboradores.

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