Casos de dengue podem chegar a 5,6 milhões em 2027 com Super El Niño
Projeções epidemiológicas de dengue no Brasil apontam que o país pode registrar entre 1 milhão e 5,6 milhões de infecções em 2027 sob os efeitos climáticos de um Super El Niño. A estimativa central calculada pelo sistema InfoDengue e pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em integração com o Ministério da Saúde, prevê cerca de 1,7 milhão de notificações no período.
O cenário motivou a farmacêutica japonesa Takeda a lançar nesta segunda-feira (5) uma nova fase da campanha nacional de conscientização batizada de #SemSombraDeDengue, veiculada na televisão aberta e nas plataformas digitais sob a mensagem “Não se engane: a dengue é pior do que parece”. A iniciativa busca combater a baixa adesão à segunda dose do imunizante Qdenga e alertar para o risco de desassistência e desinformação prévia ao período de maior transmissão.
Rodrigo Martins, diretor da Unidade de Negócios de Especialidades e Vacinas da Takeda, explicou a estratégia do laboratório diante do panorama epidemiológico: “O movimento #SemSombraDeDengue ganha uma nova fase com a campanha ‘Não se engane: a dengue é pior do que parece’. Nosso objetivo central é resgatar o senso de urgência da população e combater o distanciamento com que a doença é tratada no país”.
Impacto do Super El Niño e avanço do sorotipo DENV-3
As análises meteorológicas e laboratoriais indicam que as variações extremas de temperatura e pluviosidade causadas pelo Super El Niño alteram a dinâmica do mosquito vetor em diferentes regiões brasileiras. Conforme as modelagens da Fiocruz e do Ministério da Saúde, a Região Sudeste pode apresentar elevação de cerca de 60% no volume de casos em comparação com ciclos anteriores, enquanto a Região Sul enfrenta previsão de aumento de 20% nas transmissões locais.
A preocupação das autoridades sanitárias é ampliada pela identificação de maior circulação do sorotipo DENV-3, especialmente no território do Sudeste. Como a maior parte da população não teve contato recente com essa linhagem viral específica nos últimos anos, a carência de imunidade natural eleva o risco de quadros graves e eleva a demanda sobre a rede hospitalar.
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Vivian Lee, diretora médica da Takeda Brasil, lembrou a severidade observada em temporadas epidêmicas recentes para justificar a necessidade de medidas preventivas antes do verão. Segundo ela, “em dados consolidados de um único ano, a dengue chegou a causar nove vezes mais mortes do que acidentes automobilísticos em rodovias, 35 vezes mais óbitos do que afogamentos em piscinas e 44 vezes mais mortes do que engasgos. Por isso, o alerta precisa ser antecipado”. Em 2024, a enfermidade afetou mais de 6,5 milhões de pessoas e gerou mais de 6 mil óbitos no país.
Como funciona a vacinação com a Qdenga no Brasil?
A vacina Qdenga é a única autorizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) com distribuição ativa no território nacional. No Sistema Único de Saúde (SUS), o imunizante integra o Programa Nacional de Imunizações (PNI) direcionado gratuitamente para o público de 10 a 14 anos de idade, enquanto na rede privada a indicação aprovada abrange a faixa dos 4 aos 60 anos, sempre com esquema de duas doses.
Um dos principais obstáculos no enfrentamento da doença reside na evasão entre a primeira e a segunda aplicação nos postos municipais. Dados históricos compilados pelo SUS mostram que a taxa de comparecimento para o encerramento do protocolo vacinal atinge 54%, o que deixa parcela expressiva dos vacinados sem a resposta imunológica máxima contra os quatro sorotipos existentes.
A efetividade da cobertura completa foi atestada em pesquisa coordenada pelo médico infectologista e pesquisador da Fiocruz Julio Croda, professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). O trabalho analisou mais de 166 mil testes realizados em adolescentes no estado de São Paulo durante surtos epidêmicos, concluindo que o esquema integral garante 87,9% de efetividade contra hospitalizações decorrentes da dengue e 73,1% de proteção contra episódios sintomáticos.
Números consolidados da vacina Qdenga no território nacional
O acompanhamento operacional da distribuição e aplicação da vacina registra os seguintes indicadores oficiais registrados até setembro de 2026:
- 12,6 milhões de doses aplicadas na população em municípios brasileiros
- 8 milhões de pessoas imunizadas com pelo menos a primeira dose
- 21,7 milhões de doses entregues pela fabricante ao PNI entre janeiro de 2024 e agosto de 2026
- 30 milhões de unidades do imunizante distribuídas internacionalmente pela fabricante
- 54% de taxa média histórica de retorno dos usuários para a aplicação da segunda dose
Cronograma de fornecimento das doses contratadas pelo Ministério da Saúde
O atendimento da demanda pública no país segue um cronograma de contratações escalonadas firmado entre o governo brasileiro e a indústria farmacêutica:
- Fim de 2025: cumprimento integral do primeiro contrato, com entrega de 15,6 milhões de doses
- Junho de 2026: assinatura do segundo termo aditivo para aquisição de mais 18 milhões de doses
- Julho de 2026: envio antecipado da primeira remessa do novo contrato, contendo 4 milhões de unidades
- 31 de agosto de 2027: prazo final estabelecido para a entrega total das 18 milhões de doses do contrato vigente
Com o encerramento do contrato em vigor previsto para agosto de 2027, o Ministério da Saúde totalizará 33,6 milhões de doses recebidas para reforço do calendário nacional. A intensidade definitiva dos efeitos do Super El Niño e o padrão meteorológico exato ao longo dos próximos meses continuam sob acompanhamento contínuo dos modelos climáticos do Instituto Nacional de Meteorologia e da Organização Meteorológica Mundial.
