A Polícia Federal extraiu mensagens do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ex-presidente do Banco Master, que mostram a organização de encontros privados com mulheres recrutadas no exterior e citam políticos em Brasília. O conteúdo divulgado neste domingo (18) inclui diálogos em que o investigado cogitava apresentar uma cidadã ucraniana ao presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), e conversas com o senador Ciro Nogueira (PP-PI).
Os registros descrevem a montagem de eventos reservados frequentados por empresários e autoridades, que ocorriam de forma paralela a encontros jurídicos e empresariais promovidos ou patrocinados por Vorcaro. Nas conversas, o senador Ciro Nogueira, presidente nacional do PP, aparece sugerindo a presença de convidadas em ocasiões fechadas, enquanto o ex-banqueiro tratava sobre o pagamento de mulheres estrangeiras, incluindo refugiadas ucranianas.
Logística de Diogo Batista e citação a Hugo Motta em Lisboa
O recrutamento das participantes ficava a cargo do empresário Diogo Batista, responsável pela compra de passagens, reservas de hotéis, pagamentos e toda a logística das viagens, descrevendo as mulheres nos diálogos como integrantes de uma figuração. Em junho de 2024, durante uma viagem a Lisboa para o fórum jurídico do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes, Vorcaro pediu a Diogo Batista o envio de 6 mulheres, referidas pelo ex-banqueiro como “6 gatas”, e orientou que elas só publicassem fotografias nas redes sociais após o retorno ao Brasil.
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Na véspera de uma festa na capital portuguesa, ainda em junho de 2024, Vorcaro afirmou ao empresário que o deputado Hugo Motta estaria interessado em uma das convidadas e que ela poderia ficar com o parlamentar. Questionado por Batista sobre quem seria o convidado, o ex-banqueiro especificou tratar-se de “Hugo mota”, descrevendo-o como “amigo Cirão, deputado, proximo presidente”. Em seguida, Vorcaro sugeriu direcionar a estrangeira ao político: “Vamos dar a gringa pra ele”, acrescentando a palavra “Ucrania”.
Grupo de WhatsApp com Ciro Nogueira e diálogos com parlamentares
O material apreendido pela Polícia Federal também detalha a interação de Daniel Vorcaro com lideranças partidárias e parlamentares em grupos de mensagens e viagens internacionais realizadas ao longo de 2024. O senador Ciro Nogueira integrava um grupo de WhatsApp batizado de “Reunião semanal”, do qual também participavam o ex-banqueiro, o presidente do União Brasil, Antonio Rueda, o ex-ministro das Comunicações do governo Jair Bolsonaro, Fábio Faria, e o cantor Gusttavo Lima.
Em junho de 2024, Ciro Nogueira enviou mensagem ao grupo sobre um encontro na capital federal: “Poderíamos convidar umas amigas, mas tem de ser bem segredo”. Antonio Rueda observou que a data sugerida coincidiria com o Dia dos Namorados e, em conversa privada com Vorcaro, afirmou que havia “muita namorada p dar conta”.
Outros congressistas aparecem nos registros extraídos pelos investigadores. Em julho de 2024, o deputado federal Elmar Nascimento (União-BA) propôs ao ex-banqueiro “levar umas amigas pra algum lugar reservado” e, em setembro do mesmo ano, esteve com Vorcaro e as mulheres do grupo em Trancoso, na Bahia. Já em outubro de 2024, durante passagem por Roma, o senador Irajá (PSD-TO) enviou a mensagem “Cadê nossas norueguesas!?” ao ex-presidente do Banco Master; o senador declarou posteriormente que tratou com Vorcaro apenas sobre um projeto de legalização de resorts com cassinos.
Prisão de Daniel Vorcaro e apuração sobre o Banco Master
Daniel Vorcaro teve o sigilo telefônico quebrado e o aparelho celular apreendido pela Polícia Federal no curso das investigações que resultaram em sua prisão em 4 de março de 2026. Antes da queda do Banco Master, os dados obtidos pela corporação já indicavam que o executivo mantinha uma estrutura de viagens de luxo e espaços reservados para buscar aproximação com autoridades. Em 13 de abril de 2024, por exemplo, Elmar Nascimento já havia enviado mensagem a Vorcaro mencionando a ideia de organizar uma festa privada, enquanto em 26 de fevereiro de 2025, mesmo mês em que Hugo Motta foi eleito presidente da Câmara, o ex-banqueiro relatou à namorada que participava de um jantar na residência oficial com Motta e seis empresários.
Até a divulgação dos arquivos em 18 de outubro de 2026, o conteúdo extraído não comprova a participação dos parlamentares citados em esquemas criminosos nem demonstra envolvimento direto dos políticos na suposta exploração sexual investigada pela Polícia Federal. Os diálogos também não confirmam se o encontro entre Hugo Motta e a cidadã ucraniana chegou a ocorrer em Lisboa. Procurado para comentar as citações, o presidente da Câmara dos Deputados não havia se pronunciado até a publicação das mensagens.
