Servidores públicos têm fundos de aposentadoria mirados na investigação do Banco Master

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Banco Master - Divulgação Banco Master

Mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, revelaram os bastidores da atuação de executivos e dos dirigentes do União Brasil, Antônio Rueda e ACM Neto, para captar recursos de institutos estaduais de previdência de servidores públicos. Com base no material divulgado nesta sexta-feira (16), a corporação pediu mandados de busca e apreensão em endereços ligados aos dois políticos, mas o Supremo Tribunal Federal (STF) não autorizou a operação.

Em uma proposta de delação premiada rejeitada pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República (PGR), Vorcaro afirmou que Rueda, presidente nacional do União Brasil, e ACM Neto, vice-presidente da legenda e ex-prefeito de Salvador, atuaram para viabilizar aplicações de fundos previdenciários no banco em troca de comissões de 10% sobre os valores captados. Documentos financeiros apontam que a instituição repassou R$ 6,4 milhões a escritórios de advocacia ligados a Rueda e R$ 5,4 milhões a uma empresa de consultoria de ACM Neto.

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Amapá Previdência transferiu R$ 300 milhões ao Banco Master após mensagens apagadas

Um dos episódios detalhados pela investigação envolve a Amapá Previdência, órgão que administra as aposentadorias dos servidores públicos do estado. Em abril de 2024, executivos do banco discutiam uma captação total prevista de R$ 400 milhões no instituto, cujo aporte foi aprovado por um comitê presidido por Jocildo Silva Lemos, ex-tesoureiro de campanha do senador e presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), apontado como responsável por sua indicação ao cargo.

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Em 12 de julho de 2024, uma notícia sobre problemas envolvendo títulos do Banco Master na Caixa Asset gerou apreensão entre os executivos. Naquele dia, o tesoureiro do banco, Alberto Felix, enviou mensagem a Vorcaro alertando sobre o risco na operação: “A reunião lá do Amapá está acontecendo. Mas o Rueda que disse que ia segurar as operações”.

Às 11h45 da mesma data, Rueda apagou dez mensagens consecutivas do diálogo com o banqueiro e escreveu: “Apaga essas mensagens”. Cerca de uma hora depois, o então diretor comercial do Banco Master, Fernando Mascarenhas, avisou Vorcaro sobre a liberação parcial dos recursos: “Aprovado 200 M agora no Amapá. Nesse minuto”.

Ainda em julho de 2024, Alberto Felix tratou com o controlador do banco sobre o pagamento de uma comissão de R$ 8,9 milhões referente à consultoria de dois intermediários, identificados como Ricardo e Raphael, pela operação no estado. Vorcaro autorizou a emissão de uma nota de R$ 8 milhões no dia seguinte. Em 1º de agosto de 2024, quando a Amapá Previdência já havia transferido R$ 300 milhões à instituição financeira, a tesouraria registrou: “Pagamos 11 mm contas a pagar, comissão Amapá”.

Valores e cronologia das operações do Banco Master sob investigação

Os diálogos recuperados pelos investigadores no âmbito da Operação Compliance Zero registram datas, valores de repasses e uma lista de negociações em andamento anotada por Fernando Mascarenhas em 12 de julho de 2024 (“400 Amapá, 350 RJ, 250 Amazonas, 160 Campos dos Goytacazes, 500 Maricá, 100 BH, 200 Alagoas”), que somava R$ 1,96 bilhão:

  • 12 de novembro de 2023: Fernando Mascarenhas avisa Vorcaro sobre o início das tratativas com o dirigente partidário (“Rueda me ligou aqui, vai tá no banco amanhã? Good news”).
  • 21 de novembro de 2023: após viagem de Rueda no jato do banqueiro a Rondônia e Manaus ao lado de Ricardo e Raphael, Mascarenhas celebra a perspectiva de captar R$ 1,2 bilhão até o fim daquele ano.
  • Junho de 2024: mensagens citam a captação de R$ 50 milhões na Amazonprev, fundo previdenciário do Amazonas, autorizada por um presidente empossado 28 dias antes e ex-contador da campanha do governador Wilson Lima (União Brasil).
  • 12 de julho de 2024: Mascarenhas lista negociações em andamento de R$ 500 milhões em Maricá, R$ 400 milhões no Amapá, R$ 350 milhões no Rio de Janeiro, R$ 250 milhões no Amazonas, R$ 200 milhões em Alagoas, R$ 160 milhões em Campos dos Goytacazes e R$ 100 milhões em Belo Horizonte.
  • Agosto de 2024: o departamento jurídico do Banco Master apresenta a contratação do escritório Rueda & Rueda Advogados, do qual Antônio Rueda é sócio, para atuar em quatro ações pelo valor total de R$ 15,4 milhões.
  • 3 de fevereiro de 2026: a Polícia Federal prende Deivis Marcon Antunes, ex-presidente do Rioprevidência, órgão estadual que destinou cerca de R$ 2 bilhões ao Banco Master.
  • 16 de outubro de 2026: revelação do conteúdo integral das conversas extraídas do aparelho de Vorcaro em Brasília.
Foto: Banco Master Daniel Vorcaro – Reprodução

Atuação de lobistas no Rioprevidência e viagens em jatos de Daniel Vorcaro

A Polícia Federal atribui a consultoria citada nas conversas do Amapá a Ricardo Siqueira Rodrigues, conhecido como Ricardo Gordo. Ele é apontado pelos investigadores como lobista de Vorcaro no Rioprevidência e operava com comissão de 10%, o mesmo percentual relatado pelo ex-banqueiro na proposta de delação rejeitada.

No Rio de Janeiro, o executivo e ex-diretor jurídico do Banco Master, Luiz Rennó, mencionou em mensagem que Rueda poderia ajudar a instituição por ter contatos em diferentes estados. Já em 2025, o lobista Julio Cezar Avelino escreveu a Vorcaro sobre a atuação de um mesmo grupo em Rondônia e no Amazonas, citando ligação com o presidente do União Brasil.

Além dos contratos jurídicos e das tratativas com fundos, as mensagens expõem a oferta de benefícios pessoais. Em dezembro de 2023, Vorcaro colocou seus jatos executivos à disposição de Rueda. Em março de 2024, após um pedido do político, o banqueiro mencionou um apartamento e hospedagem no hotel Rosewood, em São Paulo. Dois meses depois, em maio de 2024, enviou uma aeronave para levar familiares de Rueda a Miami para acompanhar uma etapa da Fórmula 1.

Os diálogos registram ainda que, em julho de 2024, Vorcaro esteve na casa de Rueda em Brasília e depois contatou Paulo Henrique Costa, então presidente do Banco de Brasília (BRB). Dois dias mais tarde, Rueda avisou que o dirigente do banco público precisava falar com Vorcaro.

No caso de ACM Neto, as mensagens relatam um fim de semana passado com Vorcaro, Rueda e o deputado Elmar Nascimento na casa do ex-banqueiro em Trancoso, na Bahia, em setembro de 2024. No mês seguinte, após reunião em uma charutaria em São Paulo, ACM Neto escreveu a Vorcaro que a situação política em Brasília estava consolidada. Outros trechos mencionam Fabiano Zettel, cunhado e apontado como operador financeiro de Vorcaro, relatando ser procurado por um interlocutor ligado a ACM Neto, a quem o ex-banqueiro alegou na delação rejeitada ter entregue dinheiro em espécie.

Liquidação do Banco Master e descontos indevidos no INSS

Os recursos tratados nas mensagens reveladas em 16 de outubro de 2026 pertencem a Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS), que administram aposentadorias de servidores públicos estaduais e municipais, e não ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), responsável pelos trabalhadores do setor privado. Paralelamente a essas investigações, porém, o INSS identificou descontos indevidos nos benefícios de milhares de aposentados e pensionistas por meio de empréstimos consignados ligados ao Banco Master que nunca teriam sido contratados.

O Banco Master sofreu liquidação em novembro de 2025, deixando um rombo bilionário que afetou o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), o BRB e 18 fundos públicos de pensão e previdência que tentam recuperar os valores aplicados. No Rio de Janeiro, o ex-presidente do Rioprevidência, Deivis Marcon Antunes que segundo a apuração teve indicação articulada por Rueda com o governador Cláudio Castro (PL), teve a prisão preventiva mantida pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) em março de 2026, investigado por gestão temerária após auditoria do Ministério da Previdência Social e apuração do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ).

O que dizem Antônio Rueda e ACM Neto e o que falta comprovar

As mensagens extraídas pela Polícia Federal não comprovam que Antônio Rueda e ACM Neto tenham recebido diretamente a comissão de 10% citada por Vorcaro. Também não há confirmação de que todos os R$ 1,96 bilhão listados por Mascarenhas em julho de 2024 tenham sido efetivamente transferidos ao banco, nem o que teria sido entregue nos contatos envolvendo Fabiano Zettel.

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Em defesa, Antônio Rueda declarou que sua relação com o Banco Master foi estritamente profissional e que os R$ 6,4 milhões referem-se a serviços de advocacia prestados com emissão de notas fiscais e recolhimento de impostos. Ele afirmou que os diálogos sob sigilo foram retirados de contexto e que adotará medidas para proteger sua honra.

ACM Neto negou ter atuado para que institutos previdenciários, incluindo a Amapá Previdência, aplicassem recursos no banco ou ter participado de decisões do governo federal sobre a instituição. O ex-prefeito afirmou não conhecer Fabiano Zettel e declarou que os R$ 5,4 milhões recebidos decorrem de um contrato mensal de consultoria iniciado em janeiro de 2023, com emissão de notas fiscais e pagamento de tributos, colocando-se à disposição das autoridades desde março de 2026.

Beatriz: Beatriz Lima é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024.