Cientistas descobrem nova espécie de tubarão-lanterna no Índico

Nova espécie de tubarão-lanterna - Divulgação/RW Leslie e SV Bogorodsk

Nova espécie de tubarão-lanterna - Divulgação/RW Leslie e SV Bogorodsk

Pesquisadores liderados por David A. Ebert, pesquisador do Pacific Shark Research Center, centro ligado ao Moss Landing Marine Laboratories da San Jose State University, nos Estados Unidos, descreveram formalmente o Etmopterus bulbosus, uma nova espécie de tubarão-lanterna descoberta no sudoeste do Oceano Índico. O animal foi identificado a partir de um único exemplar fêmea coletado entre 400 e 500 metros de profundidade, o equivalente a 1.312 a 1.640 pés, próximo à costa da Ilha Maurício.

Conhecido em português como tubarão-lanterna-de-focinho-grande e em inglês como big-nosed lanternshark, o peixe de águas profundas teve sua descrição científica publicada em 12 de agosto de 2026 no periódico de acesso aberto Journal of the Ocean Science Foundation. O trabalho sobre a espécie ganhou repercussão internacional em 1º de outubro de 2026 e detalhamento no Brasil nesta segunda-feira (12).

A coleta do exemplar ocorreu durante uma expedição de pesquisa realizada em 2025 pelo navio R/V Dr. Fridtjof Nansen, em uma operação científica de arrasto mesopelágico técnica de captura voltada para a zona oceânica intermediária, onde a penetração de luz solar é reduzida. Além de David A. Ebert como autor principal, o artigo é assinado por Robin W. Leslie, pesquisador do Departamento de Ictiologia e Ciências Pesqueiras da Universidade de Rhodes, na África do Sul, e pelos coautores Sergey V. Bogorodsky, Yonela Sithole, Trishul Kaully, T.K. Seetohul e Marcel van Staden.

Dados de catalogação e medidas do Etmopterus bulbosus

O exemplar fêmea que serviu de base para a identificação oficial da espécie é classificado na biologia como holótipo, termo técnico usado para o indivíduo físico único sobre o qual se fundamenta a descrição de um novo organismo na ciência. Os registros oficiais do estudo reúnem os parâmetros exatos da coleta e da morfologia dentária do animal:

  • Código de catalogação do holótipo: SAIAB 214299
  • Local de captura: próximo à costa da Ilha Maurício, no sudoeste do Oceano Índico
  • Profundidade da coleta: de 400 a 500 metros (1.312 a 1.640 pés)
  • Embarcação da expedição em 2025: navio de pesquisa R/V Dr. Fridtjof Nansen
  • Publicação científica: periódico Journal of the Ocean Science Foundation, volume 47, páginas 8 a 23
  • Contagem dentária na primeira fileira: 19 dentes na mandíbula superior e 29 dentes na mandíbula inferior

Focinho bulboso e genética diferenciam o Etmopterus bulbosus

A característica física mais marcante do Etmopterus bulbosus, que inspirou a escolha de seu nome científico, é a presença de um focinho grande, bulboso e de formato subcônico. Quando examinado fresco pelos cientistas, o animal apresentava coloração em tons de marrom e preto na superfície ventral, parte inferior do corpo, acompanhada por uma leve tonalidade arroxeada na região superior.

A anatomia externa também inclui particularidades nos dentículos dérmicos, que são estruturas rígidas semelhantes a pequenas escamas ou espinhos que revestem a pele dos tubarões. “A nova espécie pode ser distinguida de todos os outros membros do clado E. pusillus por uma combinação de um grande focinho bulboso, uma faixa distinta de dentículos alargados em forma de espinho que se estende posteriormente desde acima da axila da nadadeira peitoral até um pouco além da ponta traseira livre da primeira nadadeira dorsal, e pelo formato das marcações nos flancos e na cauda”, afirmaram David A. Ebert e os coautores no artigo, em tradução livre.

Para confirmar que o exemplar não pertencia a um grupo já catalogado, a equipe conduziu análises morfológicas combinadas ao sequenciamento de DNA. Os testes posicionaram o peixe no clado grupo de espécies que compartilham um ancestral comum exclusivo do Etmopterus pusillus. O exame genético revelou uma divergência mínima de 10,29% na sequência do gene mitocondrial COI em comparação com os parentes conhecidos mais próximos do mesmo grupo.

Na comparação física com animais da mesma região geográfica, os cientistas observaram semelhanças morfológicas com o Etmopterus sentosus, espécie registrada no leste da África e em Madagascar. A distinção entre os dois animais ocorre justamente pelo formato bulboso do focinho do novo tubarão, pela organização específica dos dentículos dérmicos ao longo do tronco e pelo desenho das marcas laterais e caudais.

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Gênero Etmopterus reúne 43 espécies e capacidade de emitir luz

O pequeno porte é uma marca recorrente entre os parentes do animal recém-descrito na Ilha Maurício. O grupo inclui o tubarão-lanterna-anão, de nome científico Etmopterus perryi, que é considerado o menor tubarão conhecido pela ciência e mede aproximadamente 21,2 centímetros de comprimento total. Ao todo, o gênero Etmopterus contabiliza 43 espécies conhecidas, distribuídas majoritariamente em águas profundas e regiões oceânicas de difícil acesso para observação direta.

Outro traço biológico associado aos integrantes do gênero Etmopterus é a presença de fotóforos na pele. Esses órgãos especializados são capazes de produzir luz própria, fenômeno conhecido como bioluminescência. Nas zonas profundas onde a luz do sol não chega, essa emissão luminosa está ligada a mecanismos de sobrevivência como a atração de presas, a camuflagem no ambiente escuro e a defesa contra predadores.

No âmbito da preservação ambiental, a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), entidade global que monitora o risco de extinção da biodiversidade, já avaliou 40 das 43 espécies conhecidas do gênero Etmopterus. Desse conjunto analisado pela instituição, 36 espécies receberam a classificação de menor preocupação, 3 foram enquadradas na categoria de dados insuficientes e 1 foi listada como vulnerável.

Exemplar único limita dados sobre hábitos do Etmopterus bulbosus

Como a descrição científica do Etmopterus bulbosus baseia-se exclusivamente em uma única fêmea capturada durante o arrasto no Oceano Índico, diversos aspectos biológicos do animal permanecem desconhecidos. Ainda não há confirmação sobre o tamanho máximo real que a espécie pode atingir na fase adulta, seus hábitos alimentares, o ciclo de reprodução, a extensão exata de sua distribuição geográfica, o seu estado de conservação perante a IUCN e a forma exata como a bioluminescência se manifesta em indivíduos vivos no fundo do mar.

Beatriz: Beatriz Lima é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024.