Cientistas identificam nova espécie de tubarão na Ilha Maurício

Tubarão - constantinopris/ istockphoto.com

Tubarão - constantinopris/ istockphoto.com

Um grupo internacional de cientistas descreveu formalmente o Etmopterus bulbosus, uma nova espécie de tubarão-lanterna de águas profundas encontrada na costa da Ilha Maurício, no sudoeste do Oceano Índico. O animal foi identificado a partir de um único exemplar fêmea de 21,5 centímetros de comprimento total quando recém-capturado, recolhido entre 400 e 500 metros de profundidade.

O estudo com o registro oficial da espécie foi publicado em 12 de agosto de 2026 no periódico científico Journal of the Ocean Science Foundation. A pesquisa teve como autor principal David A. Ebert, pesquisador do Pacific Shark Research Center, ligado ao Moss Landing Marine Laboratories da San José State University, nos Estados Unidos. A captura ocorreu durante uma expedição do navio de pesquisa R/V Dr. Fridtjof Nansen realizada em 2025, por meio de uma operação de arrasto mesopelágico, técnica de coleta em águas intermediárias onde a luz solar não chega.

Continue lendo: Aldeias Avá Guarani recuperam cultivo de milho sagrado no Paraná

Medidas e registro do Etmopterus bulbosus na Ilha Maurício

O exemplar único que serviu de base para a descrição científica, chamado tecnicamente de holótipo, recebeu um código oficial de catálogo e teve suas medidas detalhadas pelos biólogos em laboratório. Abaixo estão os dados técnicos levantados no estudo sobre o animal coletado:

Saiba mais: Peixes-gelo da Antártida vivem sem hemoglobina por mutação no DNA

  • Código de catalogação do holótipo: SAIAB 214299 (fêmea).
  • Profundidade da captura: entre 400 e 500 metros no sudoeste do Oceano Índico.
  • Comprimento total do animal fresco: 21,5 centímetros (215 milímetros).
  • Arcada dentária na primeira fileira: 19 dentes na mandíbula superior e 29 dentes na mandíbula inferior.
  • Divergência genética: mínimo de 10,29% na sequência de DNA mitocondrial em relação a espécies próximas.
  • Publicação científica: volume 47, páginas 8 a 23 do Journal of the Ocean Science Foundation.

Focinho arredondado e análise genética do Etmopterus bulbosus

A escolha do nome científico Etmopterus bulbosus — chamado popularmente em inglês de big-nosed lanternshark, ou tubarão-lanterna-narigudo, em tradução livre — é uma referência direta à característica física mais visível do animal: um focinho grande, arredondado e bulboso que se projeta para a frente. Quando recém-coletada pela expedição, a fêmea apresentava uma coloração marrom-escura e preta na parte ventral, combinada com um tom arroxeado na parte superior do corpo, matiz que desbotou após o processo de preservação química em laboratório, no qual o corpo também retraiu para 21 centímetros (210 milímetros).

Veja também: Reconstrução do blazar 3C 345 por IA muda método de medição da dinâmica de buracos negros

Para comprovar que o exemplar não era apenas uma variação de um animal já conhecido, os pesquisadores realizaram o sequenciamento do DNA mitocondrial, focando especificamente no gene COI. Os testes laboratoriais demonstraram que o código genético do Etmopterus bulbosus diverge em pelo menos 10,29% das sequências disponíveis de outras espécies próximas do mesmo gênero, confirmando o status de espécie inédita. Nas análises morfológicas e genéticas, o tubarão foi posicionado no grupo evolutivo (clado) do Etmopterus pusillus, mas também revelou semelhanças superficiais com a espécie Etmopterus sentosus por possuir uma área de dentículos dérmicos — escamas rígidas semelhantes a pequenos espinhos que revestem a pele — mais alargados acima da axila da nadadeira peitoral.

Comparação do Etmopterus bulbosus com o menor tubarão do mundo

Com 21,5 centímetros do focinho até a ponta da cauda no momento da captura, o exemplar da Ilha Maurício tem dimensões muito próximas às do tubarão-lanterna-anão (Etmopterus perryi), espécie que atinge cerca de 21,2 centímetros de comprimento total e detém o título de menor tubarão conhecido pela ciência no mundo. O trabalho de medição e descrição reuniu especialistas de diferentes instituições da África do Sul e da República de Maurício, além da coordenação norte-americana.

Acompanhe: Aceleração da Terra leva cientistas a suspender segundo bissexto em 2027

Assinam o artigo como coautores Robin W. Leslie, pesquisador do Departamento de Ictiologia e Ciências Pesqueiras da Universidade de Rhodes; Sergey V. Bogorodsky e Yonela Sithole, ambos pesquisadores do South African Institute for Aquatic Biodiversity; Tirouvi Kaully, pesquisador do Albion Fisheries Research Centre, órgão vinculado ao Ministério da Agroindústria, Segurança Alimentar, Economia Azul e Pescas da República de Maurício; Tooshit Kumar Seetohul, pesquisador do Mauritius Oceanography Institute; e Michaela van Staden, pesquisadora do Departamento de Genética da Universidade de Stellenbosch.

Bioluminescência e as 43 espécies do gênero Etmopterus

O novo tubarão integra o gênero Etmopterus, grupo marinho que soma 43 espécies conhecidas no levantamento citado pelos cientistas. Muitas dessas espécies possuem na pele estruturas chamadas fotóforos, células especializadas capazes de produzir bioluminescência, que é a emissão de luz própria no ambiente escuro do oceano profundo. Essa iluminação biológica serve para atrair presas, promover camuflagem ou afastar predadores em regiões abissais e mesopelágicas.

Confira também: Pesquisas de longevidade enfrentam limites biológicos da vida

Por habitarem profundidades que ficam abaixo da zona de operação da maioria das frotas de pesca de arrasto comercial, grande parte desses animais sofre menor pressão pesqueira direta. De acordo com os dados da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), entidade global que monitora a biodiversidade, 40 das 43 espécies do gênero Etmopterus já passaram por avaliação de risco: 36 foram classificadas na categoria Pouco Preocupante, três constam como Dados Insuficientes e uma aparece listada como Vulnerável.

Como a descrição do Etmopterus bulbosus baseou-se em apenas um indivíduo fêmea coletado em 2025, os autores do estudo apontam que ainda não é possível determinar qual é o tamanho máximo real que a espécie atinge na idade adulta. Também permanecem desconhecidos os hábitos reprodutivos, o tamanho da população, o estado de conservação e a distribuição geográfica exata desse tubarão no Oceano Índico até que novos exemplares sejam capturados e catalogados em futuras expedições.

Bruna: Bruna Santos é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve e colabora para o portal desde 2024. Formação: Professora.