As partículas finas liberadas pela poluição de aviões sofrem transformações químicas na atmosfera que aumentam seu potencial oxidativo — um indicador de toxicidade — de seis a sete vezes por unidade de massa. A descoberta é de um estudo liderado por pesquisadores da Universidade de Basileia, na Suíça, divulgado em comunicado oficial pela instituição na quinta-feira (15) e publicado na revista científica Environmental Science: Atmospheres.
O levantamento constatou que essa elevação na reatividade ocorre quando o material particulado envelhece no ar por um período equivalente a até 12 dias sob a ação da luz solar e de componentes atmosféricos. O trabalho foi coordenado pelo grupo de Markus Kalberer, professor de Ciências Ambientais na Universidade de Basileia, e tem como primeiros autores conjuntos Alexandre Barth, pesquisador da mesma universidade, e Battist Utinger, pesquisador do Departamento de Ciências Ambientais e do Instituto Suíço de Nanociência (Swiss Nanoscience Institute) da instituição.
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“Nosso estudo mostra que é importante olhar além das partículas de exaustão recém-emitidas. Processos atmosféricos podem alterar significativamente as propriedades oxidativas das partículas e, portanto, seu potencial de prejudicar a saúde humana”, afirmou Battist Utinger, em tradução livre.
Testes em laboratório compararam emissões da poluição de aviões e de navios
Para identificar como a poluição se comporta depois de lançada no ambiente, os cientistas compararam em laboratório dois tipos de emissões de transporte pesado em condições recém-emitidas e após o envelhecimento fotoquímico. O primeiro foco foi o material particulado gerado pela câmara de combustão de um pequeno motor a jato de aeronave abastecido com o combustível de aviação JP-8. O segundo analisou um motor a diesel marítimo operando com duas variações de combustível: óleo combustível pesado com baixo teor de enxofre (conhecido pela sigla em inglês LS-HFO) e óleo gasoso marítimo (MGO).
A simulação do envelhecimento atmosférico pelo intervalo de 1 a 12 dias expôs os gases e partículas à radiação ultravioleta, reproduzindo a incidência da luz solar por meio de um reator fotoquímico operado em colaboração com a Universidade de Rostock. Enquanto as emissões provenientes da turbina de aeronave apresentaram o salto de seis a sete vezes no potencial oxidativo por unidade de massa ao final do ciclo equivalente a cerca de 12 dias, as partículas expelidas pelo motor a diesel de navios permaneceram amplamente estáveis com o passar do tempo.
A aferição exata dessas propriedades químicas foi realizada com um equipamento desenvolvido especificamente na Universidade de Basileia. Batizado em inglês de Online Oxidative Potential Ascorbic Acid Instrument (OOPAAI), o aparelho mede de forma contínua e direta o potencial oxidativo das amostras analisadas.
Ação das partículas finas da poluição de aviões no sistema respiratório e dados da OMS
O aumento da reatividade química preocupa os pesquisadores devido ao tamanho diminuto desses poluentes. As partículas finas analisadas possuem diâmetros na escala de nanômetros — bilionésimos de metro — e, justamente por serem microscópicas, penetram de maneira profunda no trato respiratório humano quando inaladas.
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Ao alcançarem o interior do organismo, essas estruturas desencadeiam reações químicas que induzem ao estresse oxidativo e provocam inflamação celular. De acordo com o estudo, a exposição frequente ou prolongada a esse processo favorece danos celulares capazes de levar ao desenvolvimento de doenças respiratórias crônicas e problemas cardiovasculares.
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que a exposição a altas concentrações de material particulado no ar está associada a uma estimativa anual de mais de 7 milhões de mortes prematuras em todo o mundo. Os efeitos sobre a saúde pública variam conforme a concentração dos poluentes na atmosfera e o tempo em que a população fica exposta a eles.
Limites da legislação atual diante do envelhecimento da poluição de aviões
Os autores do trabalho alertam que os protocolos atuais de monitoramento e controle da poluição atmosférica avaliam apenas as partículas no momento em que são recém-emitidas pelos motores, desconsiderando o ganho de toxicidade que ocorre dias depois na atmosfera. Além disso, o setor de transporte pesado — que engloba aeronaves, navios e veículos comerciais — enfrenta barreiras técnicas para a eletrificação direta, o que impulsiona a indústria a buscar combustíveis alternativos, como amônia, metanol, hidrogênio e querosene sintético. Segundo os cientistas, essa transição exige que a avaliação de novos combustíveis também leve em conta as transformações químicas sofridas pelos poluentes no ar.
“Este estudo mostra claramente que os marcos legais atuais, como a Ordenança Suíça sobre Controle da Poluição do Ar, não contabilizam adequadamente as fontes mais tóxicas de material particulado fino e suas propriedades”, declarou o professor Markus Kalberer.
Cronologia de publicação e dados técnicos do artigo na revista da Royal Society of Chemistry
O artigo científico que detalha os resultados foi intitulado em inglês “Online characterisation of oxidative potential and reactive oxygen species of fresh and aged aircraft turbine and ship engine particulate emissions” e publicado no periódico Environmental Science: Atmospheres, editado pela instituição britânica Royal Society of Chemistry. A pesquisa recebeu financiamento do programa Horizon 2020 da União Europeia, sob o registro de concessão 955390, e do Fundo Nacional Suíço para a Ciência (SNSF).
O estudo seguiu o seguinte cronograma editorial e institucional até a divulgação dos dados ao público:
- 22 de setembro de 2026: publicação online inicial do artigo científico na revista Environmental Science: Atmospheres.
- 1 de outubro de 2026: inclusão do trabalho na edição oficial de Volume 6, Número 10, ocupando as páginas 1629 a 1638 do periódico, sob o identificador digital DOI 10.1039/d5ea00174a.
- 9 de outubro de 2026: publicação de uma errata formal na revista para corrigir a grafia do nome do coautor Tuukka Kokkola e ajustar a duplicação da afiliação da Universidade da Finlândia Oriental.
- Quinta-feira, 15 de outubro de 2026: divulgação do comunicado de imprensa oficial pela Universidade de Basileia detalhando as conclusões da equipe.
Apesar da comprovação do aumento de reatividade em ambiente controlado, os próprios pesquisadores destacam que os testes mediram indicadores químicos de potencial oxidativo em laboratório, sem o acompanhamento direto de populações expostas. Ainda não se sabe em que proporção exata essa alteração química nas partículas de aeronaves se traduz em um aumento específico de casos de doenças, o que dependerá da realização de futuros estudos toxicológicos diretos em células ou em grupos humanos.
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