Césio-137 em Goiânia ganha minissérie na Netflix baseada na atuação técnica de Walter Mendes Ferreira

Walter Mendes Ferreira

Walter Mendes Ferreira - Reprodução/Tv Globo

O isolamento rápido de áreas contaminadas em Goiânia, em setembro de 1987, impediu que o maior acidente radiológico urbano do planeta atingisse proporções ainda mais severas na capital de Goiás. A resposta imediata das equipes de campo nasceu da identificação precisa de uma substância até então desconhecida, procedimento técnico que protegeu a população local de uma exposição prolongada à radiação.

A medição que revelou o perigo ficou a cargo do físico Walter Mendes Ferreira, acionado para examinar um artefato entregue na sede da Vigilância Sanitária. Com 29 anos na época dos fatos, o especialista operou aparelhos detectores de radiações ionizantes e atestou a emissão de índices graves a partir de uma cápsula rompida.

O laudo técnico acionou imediatamente a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), órgão federal responsável pelo controle e pela segurança de materiais nucleares no país, dando partida às medidas oficiais de contenção. Passadas quase quatro décadas desde o episódio de setembro de 1987, o trabalho executado nos primeiros momentos da emergência serve de base para produções audiovisuais em plataformas de streaming.

Inspeção na Vigilância Sanitária e triagem no Estádio Olímpico

O artefato radioativo deu entrada na repartição pública de saúde dentro de uma sacola plástica comum, levado de maneira improvisada por parentes de uma das pessoas que haviam violado a peça. O material ficou guardado nas dependências do órgão durante um dia inteiro, até o chamado da equipe especializada para a vistoria técnica. Assim que os medidores apontaram taxas de radiação incompatíveis com a segurança humana, o edifício precisou ser esvaziado às pressas e os quarteirões vizinhos foram bloqueados.

Confirmado o risco severo de contaminação, os órgãos de saúde e de energia nuclear montaram uma força-tarefa para mapear o trajeto do pó luminoso pela cidade. A operação instalou um posto central de triagem no Estádio Olímpico, local para onde milhares de habitantes do centro de Goiânia se dirigiram a fim de passar por exames com contadores Geiger, aparelhos que detectam partículas radioativas na pele e nas vestimentas.

Nas semanas posteriores ao alerta inicial, a força-tarefa técnica executou quatro frentes principais para reduzir os impactos humanos e materiais na área urbana atingida:

  • Exame e monitoramento direto de mais de 112 mil moradores com suspeita de contato ou exposição à substância radioativa.
  • Mapeamento e bloqueio de casas, depósitos de ferro-velho e ruas que registravam índices elevados de irradiação.
  • Assistência médica imediata às pessoas que já apresentavam sinais clínicos severos, incluindo tonturas, náuseas e distúrbios gastrointestinais.
  • Articulação junto a entidades internacionais para o recebimento de trajes de proteção e a vinda de técnicos especializados em processos de descontaminação.

Retirada da peça em clínica desativada e abertura da cápsula

A cadeia de eventos começou quando dois catadores de materiais recicláveis entraram no prédio de uma clínica de radioterapia que estava abandonada na zona central do município. Desconhecendo a função e os riscos do maquinário médico, os trabalhadores desmontaram o cabeçote de um aparelho de teleterapia e levaram a peça até um ferro-velho da região.

O rompimento do invólucro protetor de chumbo liberou o cloreto de césio, um sal de alta solubilidade que apresentava um brilho azulado no escuro. A característica luminosa do composto despertou a curiosidade da vizinhança, fazendo com que pedaços do material fossem repassados entre parentes, amigos e moradores próximos ao longo de diversos dias.

Mapeamento de focos urbanos e demolição de imóveis

A confirmação técnica do vazamento obrigou o poder público a montar uma operação logística inédita no território nacional para cercar todos os pontos de irradiação. Os grupos de campo rastrearam cada endereço por onde o cilindro e os vestígios do pó passaram, lista que abrangeu casas, ônibus do transporte coletivo e pontos comerciais.

Os alertas de segurança para os habitantes caminharam junto com a limpeza pesada das estruturas físicas da capital goiana. Para impedir que a chuva e o vento espalhassem o sal radioativo para outras regiões, as equipes interditaram quadras inteiras e demoliram residências com altos índices de contaminação.

Formação em engenharia nuclear e cargo na CNEN aos 73 anos

Natural de Minas Gerais, Walter Mendes Ferreira direcionou sua trajetória profissional para a proteção de estruturas e compostos radioativos. A graduação em física serviu de alicerce para especializações cursadas em centros de pesquisa nacionais e estrangeiros, preparação voltada ao gerenciamento de emergências de alta complexidade.

No currículo acadêmico, o físico soma uma pós-graduação em proteção radiológica e segurança nuclear concluída na Universidade de Buenos Aires, na Argentina, e o título de mestre em engenharia nuclear obtido no Instituto Militar de Engenharia (IME), no Rio de Janeiro. Esse repertório científico embasou as determinações técnicas adotadas no enfrentamento do vazamento em 1987.

Aos 73 anos, o especialista permanece em atividade no serviço público federal, ocupando a chefia da Divisão de Emergências Radiológicas da Comissão Nacional de Energia Nuclear. Na função, ele organiza programas de capacitação técnica e leciona no Centro Regional de Ciências Nucleares do Centro-Oeste, onde transmite a experiência acumulada em campo para novos profissionais.

Johnny Massaro interpreta físico na minissérie Emergência Radioativa

A rotina das equipes técnicas durante os primeiros dias do vazamento em Goiás inspirou o roteiro da minissérie Emergência Radioativa, título incluído no catálogo da Netflix. A obra dramática reconstitui a pressão operacional e os obstáculos logísticos superados pelos profissionais que atuaram na linha de frente.

Na produção, o ator Johnny Massaro assume o papel de um personagem construído diretamente a partir da história do físico que realizou a medição inicial do césio-137. As cenas retratam o instante em que os aparelhos detectam a radiação na sede da Vigilância Sanitária e o acionamento das autoridades federais nas horas seguintes.

O lançamento da série renovou o debate público a respeito das normas de proteção nuclear e dos riscos gerados pelo abandono de aparelhos hospitalares. O enredo coloca em primeiro plano o peso do rigor científico para frear acidentes de grandes proporções em ambientes populosos.

Técnicos que participaram da operação original em 1987 receberam a obra audiovisual como um instrumento de preservação histórica para o público mais jovem. O alcance mundial do serviço de streaming também chama a atenção para a exigência de fiscalização ininterrupta sobre insumos perigosos deixados em prédios urbanos sem uso.

Rastreabilidade de fontes hospitalares e manuais internacionais

O aprendizado obtido durante a contenção da crise em Goiás levou a uma reformulação profunda das regras de segurança radiológica dentro e fora do país. Os órgãos fiscalizadores instituíram o rastreamento obrigatório de fontes seladas empregadas por indústrias e hospitais, além de fixar punições rigorosas para o descarte ou abandono de máquinas. Na área da saúde, o tratamento de pacientes expostos à radiação passou a contar com diretrizes próprias, incluindo a abertura de unidades médicas de referência aptas a executar a descontaminação corporal e a aplicar medicamentos quelantes, substâncias usadas para eliminar metais e elementos radioativos do organismo.

Em escala internacional, entidades reguladoras incorporaram os relatórios técnicos produzidos em Goiânia para atualizar os guias de ação rápida em desastres urbanos. A operação conduzida no estado comprovou a urgência de reunir polícia, agências de meio ambiente e serviços sanitários debaixo de uma coordenação única. Dessa articulação nasceu uma legislação mais rígida, desenhada para coibir o roubo de cápsulas radioativas e manter o treinamento periódico de trabalhadores que lidam com o comércio de sucatas metálicas.

Seis mil toneladas de rejeitos em Abadia de Goiás e quatro óbitos

Os trabalhos de limpeza da capital goiana resultaram no recolhimento de cerca de seis mil toneladas de lixo radioativo, volume composto por vestimentas, mobílias, camadas de terra, automóveis e escombros de imóveis derrubados. Todo o material recolhido passou por triagem, foi lacrado dentro de estruturas de concreto e aço e seguiu para um repositório definitivo instalado na cidade vizinha de Abadia de Goiás, local submetido a vigilância ambiental permanente.

Nas semanas iniciais após o contato direto com o pó luminoso, quatro pessoas morreram em decorrência da Síndrome Aguda da Radiação: uma menina de seis anos, uma mulher adulta e dois jovens. Para além do controle físico dos resíduos em Abadia de Goiás, o governo estadual mantém em funcionamento o Centro de Assistência aos Radioacidentados (C.A.R.A.), órgão de saúde que presta atendimento médico e suporte psicológico regular a centenas de moradores com contaminação atestada e a seus descendentes diretos, assegurando acompanhamento contínuo quase 39 anos depois do episódio.

A combinação entre a resposta rápida registrada na década de 1980 e os programas de vigilância mantidos em operação demonstra o papel das instituições de controle radiológico. O acervo técnico acumulado desde a contenção inicial segue aplicado na prevenção de acidentes com tecnologia nuclear e na fiscalização do descarte de materiais de alto risco.

Manuela: Manuela é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2015