Netflix muda de estratégia para estancar perda de público e desvalorização das ações

Netflix - Sheila Fitzgerald / Shutterstock.com

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A companhia de streaming Netflix promove uma ampla reestruturação corporativa em outubro de 2026, sediada em Los Gatos, na Califórnia, que inclui a demissão de cerca de 1.000 funcionários e a troca dos principais executivos de criação. Batizado internamente de Project Meridian (Projeto Meridiano), o plano ocorre em meio à desaceleração do engajamento do público nos Estados Unidos e foi acompanhado pela divulgação do balanço financeiro do terceiro trimestre nesta terça-feira (20).

O pacote de cortes representa aproximadamente 6% da força de trabalho global da empresa, que somava cerca de 16.000 pessoas no fim de 2025, configurando a maior rodada de desligamentos desde 2022. Em memorando enviado às equipes na quarta-feira (14), os co-CEOs da Netflix, Ted Sarandos e Greg Peters, justificaram o ajuste: “Nossa missão – entreter o mundo – é ambiciosa, e cumpri-la exige que sejamos disciplinados sobre onde priorizamos nossas pessoas e recursos”, afirmaram, em tradução livre. Antes de fixar a redução em 6%, a diretoria chegou a discutir internamente o corte de até 10% dos postos, atingindo sobretudo os setores de produto, tecnologia, jurídico e recursos humanos.

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Mudanças na cúpula da Netflix: saídas de Bela Bajaria e Dan Lin

Poucas horas após o comunicado sobre as demissões na quarta-feira (14), a diretora global de conteúdo (Chief Content Officer, executiva-chefe da área criativa), Bela Bajaria, foi informada de seu desligamento após quase dez anos na companhia. Na quinta-feira (15), a empresa oficializou a contratação do veterano de televisão e cinema Peter Rice, ex-executivo da Disney e da Fox, para assumir o posto.

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Ao comentar a nomeação, Rice declarou ser grato a Bela Bajaria por construir uma equipe global notável e afirmou estar ansioso para expandir tudo o que ela e a equipe criaram. Ele ficará responsável por administrar um orçamento anual global de conteúdo de cerca de US$ 20 bilhões, direcionado a séries roteirizadas e não roteirizadas, produções cinematográficas e transmissões de eventos ao vivo, como esportes.

As trocas na liderança continuaram na segunda-feira (19), quando o chefe da divisão de filmes da Netflix, Dan Lin, deixou o cargo após quase três anos na função. Lin havia assumido a cadeira em abril de 2024 no lugar de Scott Stuber e teve como maior destaque de sua gestão a animação KPop Demon Hunters, que venceu o Oscar e se tornou o longa-metragem mais assistido da plataforma. Ainda não há confirmação oficial sobre quem assumirá em definitivo a chefia de cinema; até lá, Peter Rice acumulará a supervisão interina do departamento.

Foto: Netflix, dólar – izzuanroslan / Shutterstock.com

Balanço da Netflix no 3º trimestre de 2026 e reação do mercado

Mesmo com o lucro acima do esperado por analistas no terceiro trimestre, as ações da Netflix recuaram entre 4% e 6% nas negociações pós-pregão de 20 de outubro de 2026. O movimento refletiu a decisão da empresa de reduzir sua projeção de receita com publicidade para o ano fechado de 2026 e apresentar uma estimativa para o quarto trimestre abaixo do consenso do mercado financeiro.

  • Receita do 3º trimestre de 2026: US$ 12,87 bilhões, alta de 11,8% na comparação com igual período do ano anterior.
  • Lucro líquido do 3º trimestre de 2026: US$ 3,66 bilhões (alta anual de 44%), equivalente a US$ 0,87 por ação (crescimento de 49% ante o 3º trimestre de 2025 e acima da previsão de US$ 0,82 do mercado).
  • Margem operacional no 3º trimestre de 2026: 34,6%, superando os 28,2% registrados um ano antes.
  • Previsão de receita com publicidade em 2026: reduzida de cerca de US$ 3 bilhões para US$ 2,7 bilhões.
  • Projeção de receita para o 4º trimestre de 2026: US$ 13,44 bilhões, abaixo do consenso de mercado de US$ 13,51 bilhões.
  • Projeção de receita total para o ano fechado de 2026: US$ 51,1 bilhões, o que representa crescimento anual de 13%, com meta de margem operacional de 31,5%.

Foco da Netflix em séries e filmes após baixo alcance em jogos

A reformulação criativa responde a preocupações manifestadas internamente há meses pelo co-CEO Ted Sarandos sobre a queda no tempo que o público norte-americano passa na plataforma e a falta de novas séries de grande apelo popular, diante do avanço de concorrentes como YouTube e TikTok. Durante o evento Screentime, o executivo resumiu o momento da operação afirmando que, no geral, a empresa não está crescendo tão rápido quanto ele gostaria e que as equipes trabalham para fazer isso avançar com maior rapidez.

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Documentos internos da empresa apontam que experimentos para diversificar o catálogo tiveram desempenho desigual. Enquanto eventos esportivos ao vivo registraram boa audiência, apenas 3,5% dos assinantes utilizam os videogames da plataforma mensalmente, deixando a divisão de jogos cerca de 10% abaixo das metas de alcance e engajamento traçadas para 2026. Com isso, a direção decidiu reconcentrar investimentos em filmes e séries, buscando também formatos de produção mais baratos.

Paralelamente, um levantamento da consultoria Antenna indicou que a Netflix não obteve adição líquida de assinantes nos Estados Unidos em nenhum mês de 2026 até o fim de setembro, embora tenha mantido a menor taxa de cancelamento (churn, índice de clientes que encerram a assinatura) do setor no país, em 2,1% no mês de setembro. Uma porta-voz da Netflix contestou os números da Antenna e afirmou que os dados não representam o desempenho de negócios da companhia.

Ações da Netflix acumulam queda de 44,6% em 12 meses

No segundo trimestre de 2026, a empresa havia registrado receita de US$ 12,6 bilhões (avanço anual de 13%) e margem operacional de 33%. A companhia deixou de divulgar seu total de clientes pagantes após informar a marca de 325 milhões de assinaturas em 2025.

Apesar do crescimento operacional, os papéis da Netflix acumulam desvalorização de 44,6% nos últimos 12 meses até outubro de 2026, deixando a empresa com valor de mercado de US$ 285,6 bilhões. A percepção de investidores deteriorou-se após a tentativa malsucedida da plataforma de comprar os ativos de estúdio e o serviço HBO Max, pertencentes à Warner Bros. Discovery, negócio que acabou fechado pela Paramount por cerca de US$ 110 bilhões em outubro de 2026 na fusão com a Skydance.

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Para ampliar a retenção de usuários, a companhia passou a transmitir na França a programação ao vivo da emissora de televisão TF1 e avalia permitir que clientes contratem outros serviços de streaming e canais ao vivo dentro do próprio aplicativo. O novo diretor global de conteúdo, Peter Rice, assume oficialmente suas funções na Netflix na próxima segunda-feira (26).

Beatriz: Beatriz Lima é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024.