Pesquisadores da área de longevidade nos Estados Unidos e na Europa reuniram evidências clínicas para contestar seis crenças populares sobre envelhecimento, suplementos e hábitos de vida. O levantamento mostra que substâncias vendidas para retardar a velhice não têm eficácia comprovada em humanos e que o emagrecimento após os 65 anos pode elevar o risco de morte.
O interesse público pelo tema cresceu de forma acelerada nos últimos meses, impulsionado por vídeos em plataformas como YouTube e TikTok que recomendam injeções de peptídeos e compostos químicos sem aval médico. “Há muita coisa circulando nessa área que não tem base científica, e é realmente importante desfazer alguns desses equívocos”, afirmou Sofiya Milman, professora de estudos sobre longevidade humana no Instituto de Pesquisa sobre o Envelhecimento da Albert Einstein College of Medicine, em tradução livre.
Expectativa de vida saudável nos EUA e o foco da longevidade
O primeiro equívoco apontado pelos cientistas é a ideia de que a pesquisa sobre longevidade busca apenas adicionar anos ao calendário biológico das pessoas. De acordo com Steven Austad, professor de biologia da Universidade do Alabama em Birmingham, o objetivo central da ciência atual é ampliar a chamada expectativa de vida saudável, termo conhecido em inglês como health span, reduzindo o período em que o indivíduo convive com limitações físicas ou cognitivas.
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Essa distinção sustenta a refutação do segundo mito, segundo o qual a população mundial está vivendo mais tempo e em melhores condições clínicas. Nos Estados Unidos, único país de alta renda analisado em um levantamento recente a registrar queda na expectativa de vida saudável entre 2010 e 2019, os avanços médicos que mantêm pacientes vivos diante de câncer e cardiopatias funcionam como um jogo de bater em toupeiras, segundo a comparação feita por Steven Austad, pois abrem espaço para o aumento de quadros graves de fim de vida, como a demência, enquanto adultos jovens apresentam maior probabilidade de desenvolver doenças crônicas do que há uma década.
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Suplementos de NAD+ e HGH funcionam para a longevidade?
A terceira crença derrubada pelos especialistas envolve o uso de medicamentos e suplementos como resveratrol, peptídeos, hormônio do crescimento humano (HGH) e precursores da coenzima NAD+ (como NR e NMN), substância que atua na produção de energia celular. Aladdin Shadyab, professor associado de saúde pública, ciência da longevidade humana e medicina da Universidade da Califórnia em San Diego (UC San Diego), explica que nenhum composto demonstrou capacidade de prolongar a vida humana, ainda que alguns testes tenham obtido resultados positivos em vermes e camundongos.
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A premissa comercial de que a coenzima NAD+ cai com o envelhecimento e precisa de reposição foi contrariada por uma pesquisa publicada em 13 de maio de 2026 na revista científica Nature Metabolism. O trabalho, intitulado “Human whole-blood NAD+ levels do not vary with age or lifestyle interventions” (Os níveis de NAD+ no sangue total humano não variam com a idade ou intervenções no estilo de vida, em tradução livre), foi liderado por Maria Trętowicz e pelo bioquímico Riekelt Houtkooper, do Amsterdam University Medical Center. A equipe utilizou cromatografia líquida de ultra-alta eficiência acoplada à espectrometria de massa de alta resolução, método laboratorial de precisão para medir moléculas no sangue, e constatou que os níveis sanguíneos da substância permanecem estáveis na velhice.
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Além da falta de eficácia comprovada para estender a vida, o consumo de certas substâncias antienvelhecimento oferece perigo direto ao organismo. Uma revisão de ensaios clínicos identificou que a administração do hormônio do crescimento humano em idosos saudáveis aumenta a incidência de síndrome do túnel do carpo, inchaço e dores articulares. Abaixo estão os dados quantitativos dos estudos que embasam os alertas dos pesquisadores:
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- Quatro vezes maior: crescimento nas buscas na internet sobre longevidade no final de 2025 em relação ao final de 2024, segundo relatório de 2026 do fundo de capital de risco XRC Brand Capital Fund.
- Seis meses: ganho aproximado na expectativa média de vida nos Estados Unidos entre 2009 e 2019, período acompanhado de retração na saúde geral, conforme estudo de 2025.
- Cerca de 300 indivíduos: total de participantes dos 20 aos 80 e poucos anos, divididos em sete grupos independentes (coortes), avaliados no estudo da Nature Metabolism (volume 8, páginas 1282 a 1290).
- Cinco anos: tempo médio que as mulheres vivem a mais do que os homens, diferença que não se traduz em velhice livre de doenças.
- Faixa de 61 a 81 anos: idade das mulheres acompanhadas em pesquisa de 2023 sobre o impacto do emagrecimento nas chances de atingir os 90 anos.
- Índice de 59%: aumento no risco de morte associado à perda de peso em pessoas com 65 anos ou mais, calculado em uma metanálise de 2021 que reuniu 30 estudos.
- Proporção de 50%: fatia média das diferenças na duração da vida humana determinada pela genética, cabendo a outra metade a fatores comportamentais e ambientais.
Envelhecimento feminino e o impacto da perda de peso após os 60 anos
O quarto mito afirma que as mulheres permanecem saudáveis por mais tempo por terem uma sobrevida superior à masculina. Pankaj Kapahi, professor e pesquisador do envelhecimento no Buck Institute, em Novato, na Califórnia, esclarece que a população feminina passa uma proporção maior da velhice com incapacidades, artrite, doenças autoimunes e Alzheimer. “Especialmente depois da menopausa, há um declínio significativo em diversos aspectos da saúde delas”, disse Kapahi.
Parte dessa disparidade decorre do foco histórico da ciência em organismos masculinos. Viviana Perez Montes, diretora da divisão de biologia do envelhecimento do Instituto Nacional do Envelhecimento dos Estados Unidos (NIA/NIH), aponta que diversos compostos químicos que ampliam a vida em modelos animais funcionam melhor em machos do que em fêmeas, por mecanismos biológicos que os cientistas ainda desconhecem.
A quinta crença revista pelos pesquisadores é a de que emagrecer traz benefícios em qualquer fase da vida. Em um estudo conduzido por Aladdin Shadyab e colegas, a perda de peso intencional ou não intencional em mulheres reduziu a probabilidade de sobrevivência até as nove décadas de vida, independentemente do peso inicial ou do índice de massa corporal (IMC), fenômeno que os cientistas associam à perda proporcionalmente maior de massa muscular e óssea nos idosos que emagrecem.
Genética pesa mais que hábitos de vida na longevidade após os 95 anos
O sexto mito desfeito pela revisão científica é a garantia de que manter uma rotina regrada assegura a chegada aos 100 anos. Embora exercícios físicos, dieta equilibrada e ausência de tabagismo previnam doenças, a carga genética assume peso superior ao estilo de vida entre os indivíduos que alcançam 95 anos ou mais. Os estudos mostram que centenários não mantiveram rotinas diferentes de peso corporal, alimentação, atividade física, consumo de álcool ou fumo em comparação com pessoas que morreram mais cedo. “Na verdade, não há nada de diferente no estilo de vida delas”, declarou Sofiya Milman sobre as pessoas que atingem essa faixa etária.
A síntese dessas descobertas foi reunida originalmente pela jornalista de saúde Melinda Wenner Moyer em 13 de outubro de 2026 e detalha as instituições científicas responsáveis por cada frente de investigação sobre o envelhecimento humano:
- Albert Einstein College of Medicine (Instituto de Pesquisa sobre o Envelhecimento): análise do perfil genético e comportamental de populações com 95 anos ou mais.
- Universidade da Califórnia em San Diego (UC San Diego): investigação sobre a ineficácia de suplementos em humanos e os riscos da perda de peso na terceira idade.
- Amsterdam University Medical Center: medição laboratorial da estabilidade da coenzima NAD+ no sangue humano ao longo das décadas.
- Buck Institute e Instituto Nacional do Envelhecimento dos Estados Unidos (NIA/NIH): mapeamento do declínio de saúde pós-menopausa e das diferenças biológicas de resposta a tratamentos entre machos e fêmeas.
As equipes científicas mantêm investigações em andamento para identificar por que os compostos testados em laboratório prolongam a vida de animais machos com mais eficiência do que a de fêmeas e quais mecanismos fisiológicos exatos explicam o aumento de mortalidade entre idosos que perdem peso.
