El Niño: Por que a série de ondas de calor prevista para o Brasil não se confirmou?

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Queimadas na Amazônia - Divulgação/CBMRR Foto: Queimadas na Amazônia - Divulgação/CBMRR

O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) revisou seu diagnóstico climático em outubro de 2026 e deixou de prever uma série de fortes ondas de calor para o Brasil até o encerramento do ano. A atualização modifica o cenário divulgado pela própria instituição no fim de agosto, quando os modelos projetavam a ocorrência de pelo menos seis episódios de calor intenso no país sob a influência do fenômeno El Niño.

A mudança na projeção brasileira ocorre porque as águas do Atlântico Tropical Norte não apresentaram aquecimento elevado nos últimos meses, condição que havia atuado em conjunto com o aquecimento do Oceano Pacífico nos anos anteriores de temperaturas extremas. “Novos cálculos que fizemos mostram uma perspectiva de poucas ondas de calor. Claro que ainda estamos na primavera, o verão nem começou, o que pode trazer mudanças, mas, por enquanto nada aponta para isso”, afirmou o coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Cemaden, José Antonio Marengo Orsini, conhecido como José Marengo.

Por que o Cemaden mudou a previsão de ondas de calor no Brasil?

El Niño - coffeekai/istockphoto.com
Foto: El Niño – coffeekai/istockphoto.com

A estimativa inicial do Cemaden havia sido elaborada a partir de uma análise histórica de 47 anos de registros de temperatura no território nacional, tomando como referência principal os eventos severos de El Niño observados nos períodos de 2015/2016 e de 2023/2024. Naqueles dois ciclos climáticos, a elevação das temperaturas médias no Oceano Pacífico ocorreu de forma simultânea ao aquecimento acentuado da superfície do mar no Atlântico Tropical Norte, combinação que favoreceu a formação de bloqueios atmosféricos e disparou a sequência de ondas de calor durante a primavera brasileira. Em 2026, contudo, os sensores oceânicos indicaram que o Atlântico Tropical Norte manteve estabilidade térmica, salvo pequenas variações que não foram suficientes para reproduzir o padrão atmosférico registrado nas crises climáticas passadas.

“Nesses anos (2015/2016 e 2023/2024) houve muitas ondas de calor na primavera. Porém, nesses anos, tivemos também as águas do Atlântico Tropical Norte muito quentes juntamente com o El Niño”, declarou José Marengo. As medições técnicas do Cemaden, acompanhadas por pesquisadores como a doutora em Ciências do Sistema Terrestre Mabel Calim Costa, registraram em julho de 2026 uma anomalia média de temperatura da superfície do mar de 0,43°C acima do normal no Atlântico Tropical Norte, índice inferior à marca de 1,14°C acima da média observada na mesma faixa oceânica durante o ano de 2023.

Nos levantamentos meteorológicos oficiais, uma onda de calor é caracterizada quando as temperaturas máximas e mínimas de uma determinada área permanecem excepcionalmente acima da média normal para aquela região por um período mínimo de três dias consecutivos. O cruzamento dos dados históricos do órgão federal mostra como a frequência desses eventos variou entre diferentes ciclos: enquanto o episódio de El Niño de 1982 e 1983 contabilizou três ondas de calor no país, o ciclo de 2023 e 2024 acumulou nove ondas de calor em território brasileiro.

OMM projeta recorde de 3,7°C no Pacífico durante o El Niño

A redução na expectativa de calor extremo consecutivo na primavera brasileira não indica enfraquecimento do El Niño em escala global. A Organização Meteorológica Mundial (OMM), agência ligada à Organização das Nações Unidas (ONU), divulgou um boletim climático informando que o fenômeno segue em processo de intensificação nas águas do Oceano Pacífico. O documento aponta um consenso firmado entre 13 centros nacionais e internacionais de meteorologia coordenados pela entidade.

“Poderá ser um dos mais fortes desde pelo menos 1950”, declarou a secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, em comunicado oficial divulgado com a Atualização Climática Sazonal Global. De acordo com o levantamento da agência, a anomalia média da temperatura da superfície do mar na chamada região Niño 3.4, localizada no Pacífico tropical, subiu de 1,6°C acima do normal em junho para 2,5°C em agosto de 2026. Os modelos indicam que esse aquecimento deve atingir um patamar recorde no trimestre final do ano, superando a marca histórica de 2,6°C acima da média que havia sido registrada entre novembro de 2015 e janeiro de 2016.

Mesmo sem o reforço térmico do Atlântico Norte, a presença do El Niño mantém seu padrão histórico de interferência no regime de precipitações e temperaturas em diferentes áreas do continente sul-americano. O fenômeno, que se repete em intervalos naturais de dois a sete anos, costuma provocar aumento no volume de chuvas na Região Sul do Brasil, períodos de seca nas regiões Norte e Nordeste e elevação das temperaturas médias nas regiões Sudeste e Centro-Oeste.

Estudo da Universidade de Chicago projeta 451 mil mortes pelo Super El Niño

Em paralelo ao monitoramento das agências meteorológicas, um relatório do Laboratório de Impacto Climático (Climate Impact Lab), vinculado à Universidade de Chicago e cofundado pelo professor de Economia Michael Greenstone, calculou os impactos humanos associados à intensidade do chamado Super El Niño no ciclo de 2026 e 2027. A pesquisa projeta que o calor extremo ligado ao fenômeno pode provocar 451 mil mortes adicionais em todo o planeta nos primeiros nove meses de atuação da anomalia, no intervalo entre junho de 2026 e fevereiro de 2027, na comparação com os índices de um ano climaticamente normal.

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Segundo as estimativas da instituição norte-americana, as temperaturas globais da superfície terrestre devem ficar 1,2°C acima da média normal durante o período analisado, acompanhadas por um crescimento de 44% na quantidade de dias classificados como extremamente quentes. No recorte específico para o território brasileiro, o estudo do Climate Impact Lab projeta a ocorrência de 13.271 mortes adicionais associadas ao calor no intervalo compreendido entre setembro de 2026 e fevereiro de 2027.

Datas, órgãos responsáveis e projeções oficiais do El Niño

  • 29 de agosto de 2026: data da divulgação do levantamento inicial do Cemaden que estimava pelo menos seis ondas de calor no Brasil até o fim do ano.
  • 22 de setembro de 2026: data da publicação do relatório do Climate Impact Lab, da Universidade de Chicago, sobre a mortalidade global associada ao aquecimento.
  • 8 de outubro de 2026: data da publicação da Atualização Climática Sazonal Global pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), com sede internacional e coordenação de 13 centros meteorológicos.
  • 20 de outubro de 2026, às 12h00 (horário de Brasília): data da divulgação da revisão do diagnóstico do Cemaden descartando a série de fortes ondas de calor no Brasil.
  • 3,7°C acima da média: anomalia recorde de temperatura projetada pela OMM para a superfície do mar na região Niño 3.4 do Oceano Pacífico entre outubro e dezembro de 2026.
  • Dezembro de 2026 a fevereiro de 2027: período previsto pela OMM para o pico de intensidade do El Niño, em dezembro, e para a persistência do fenômeno com quase 100% de probabilidade até fevereiro.

Beatriz Lima é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024.

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