El Niño: fenômeno ligado ao nascimento de Jesus Cristo tem 95% de chance de força máxima até 2027

6 min de leitura
El Niño - coffeekai/istockphoto.com Foto: El Niño - coffeekai/istockphoto.com

A probabilidade de 95% de o fenômeno climático El Niño atingir intensidade muito forte entre outubro e dezembro de 2026 coloca o Brasil sob alerta para eventos extremos que devem persistir pelo menos até o primeiro trimestre de 2027. Batizado no século XIX por pescadores da costa do Pacífico da América do Sul em referência ao nascimento de Jesus Cristo, o aquecimento anormal das águas oceânicas já altera o regime de chuvas e eleva as temperaturas em grande parte do território nacional.

Os dados constam no Boletim nº 4 do Painel El Niño 2026-2027, elaborado em conjunto pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), pelo Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) e por outras cinco instituições federais. Caso a intensidade muito forte prevista para o trimestre final de 2026 se confirme, as projeções oficiais indicam que o atual episódio, configurado oficialmente em junho de 2026, poderá figurar entre os mais intensos já registrados desde 1950.

El Nino - Sergio Photone / Shutterstock.com
Foto: El Nino – Sergio Photone / Shutterstock.com

Origem do nome El Niño na costa do Peru no século XIX

A denominação El Niño, expressão em espanhol que significa “o menino”, surgiu no século XIX entre comunidades pesqueiras do litoral do Peru. Os trabalhadores da costa do Pacífico da América do Sul observaram a chegada periódica de uma corrente oceânica quente próximo à época do Natal e associaram o evento ao Menino Jesus, razão pela qual o fenômeno carrega uma referência religiosa sem ter relação direta com a figura histórica de Cristo, mas sim com o período do calendário em que as águas aquecidas eram percebidas.

Leia também: Super El Niño atinge 83% de chance no fim de 2026 e eleva alerta de temporais no Sul

Em condições normais, o litoral peruano é banhado por águas frias e ricas em nutrientes impulsionadas pela Corrente de Humboldt, em um processo natural chamado de ressurgência que sustenta a vida marinha e a pesca local. Quando o aquecimento superficial se instala no Oceano Pacífico Equatorial, os ventos alísios enfraquecem ou invertem de direção, bloqueando a subida dessas águas frias e reduzindo a disponibilidade de peixes, o que afeta diretamente o sustento das populações costeiras e o abastecimento de alimentos.

Funcionamento do sistema ENSO e medições da NOAA

O evento ocorre quando a temperatura da superfície do Oceano Pacífico Equatorial permanece acima da média, modificando a interação entre o mar e a atmosfera e a forma como o calor é liberado e distribuído pelo globo. De acordo com a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), o El Niño integra o sistema climático conhecido pela sigla em inglês ENSO (El Niño-Oscilação Sul, ou ENOS em português), ciclo que também compreende a fase fria, chamada de La Niña, e períodos de condições neutras.

Continue lendo: El Niño atinge intensidade recorde histórica no mês de outubro

Os episódios de aquecimento costumam se repetir em intervalos médios habituais de 3 a 5 anos, sempre monitorados por centros meteorológicos internacionais. Para que a NOAA declare oficialmente a condição de El Niño, a anomalia mínima na média trimestral da temperatura da superfície do mar na faixa central e leste do Pacífico Equatorial precisa atingir ao menos 0,5 °C acima do padrão histórico.

No fim de setembro de 2026, as medições do Centro de Previsão Climática (CPC) da NOAA registraram que as anomalias de temperatura da superfície do mar nas áreas central e leste do Pacífico Equatorial já haviam superado a marca de 2 °C. Essa elevação altera os padrões de circulação atmosférica e redistribui a umidade em escala planetária.

Previsão do Painel El Niño para o clima no Brasil até 2027

A evolução do quadro climático é acompanhada no país por uma força-tarefa federal que reúne, além do INPE e do INMET, a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), o Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (CEMADEN), o Serviço Geológico do Brasil (SGB), a Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (SEDEC) e o Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (CENSIPAM). O quarto boletim do grupo detalha que os impactos do fenômeno variam conforme a região e a época do ano, sem provocar efeitos iguais em todo o mapa.

Para o trimestre de outubro, novembro e dezembro de 2026, o relatório aponta previsão de chuvas acima da média na Região Sul, cenário que eleva o risco de tempestades e cheias. Na faixa centro-norte do Brasil, a projeção indica tempo mais seco, o que agrava a estiagem e amplia o risco de incêndios florestais, acompanhado de temperaturas acima da média em grande parte do país, com reflexos diretos na agricultura e nos preços de alimentos.

O avanço da estiagem no interior brasileiro já aparece nos levantamentos parciais do CEMADEN incluídos no Boletim nº 4. Em setembro de 2026, o monitoramento registrou 24 municípios brasileiros em situação de seca extrema, um salto frente aos 4 municípios contabilizados nessa mesma faixa no mês anterior. O número de cidades em seca severa também subiu no período, passando de 153 em agosto para 197 municípios em setembro de 2026.

Indicadores oficiais do El Niño no ciclo 2026-2027

Os órgãos de monitoramento climático utilizam parâmetros oceânicos e levantamentos municipais para dimensionar a força do fenômeno entre 2026 e 2027:

  • Junho de 2026: mês da confirmação oficial da configuração do atual episódio de El Niño;
  • 0,5 °C: anomalia mínima na média trimestral de temperatura do Pacífico Equatorial central-leste exigida para caracterizar o fenômeno;
  • Mais de 2 °C: marca superada pela anomalia de temperatura da superfície do mar no fim de setembro de 2026;
  • 95%: probabilidade calculada pelos órgãos federais de o evento atingir intensidade muito forte entre outubro e dezembro de 2026;
  • 3 a 5 anos: intervalo médio habitual de repetição dos ciclos de aquecimento no Pacífico;
  • 197 municípios: total de cidades brasileiras em seca severa em setembro de 2026, além de outras 24 em seca extrema.

As instituições meteorológicas ressaltam que os modelos oceânicos e atmosféricos permitem identificar riscos climáticos com antecedência, mas os impactos locais dependem da combinação com outros fatores atmosféricos e não determinam com certeza o tempo que fará em cada cidade. As equipes técnicas federais mantêm o acompanhamento contínuo das águas do Pacífico para atualizar as projeções ao longo do primeiro trimestre de 2027.

Luís Henrique Costa é jornalista formado pela FMU, editor-chefe e fundador do Mix Vale, portal de notícias em atividade desde 2011. Responde pela direção editorial do veículo, que cobre Brasil e mundo em economia, benefícios sociais, esportes, tecnologia, ciência e entretenimento. Atua na área há mais de 15 anos e lidera uma equipe de cerca de 15 colaboradores.

Notícias relacionadas