Estudo da USP aponta queda de renda sem ganho em benefícios sociais

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Dinheiro, cédula de 200 reais, carteira - Andrzej Rostek/ istockphoto.com Foto: Dinheiro, cédula de 200 reais, carteira - Andrzej Rostek/ istockphoto.com

A estagnação ou o corte no crescimento real dos benefícios sociais e previdenciários reduziria a renda agregada de municípios do interior do Brasil entre 6,8% e 10,8% até 2029. A projeção faz parte de um estudo divulgado na última sexta-feira (16) pelo Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), ligado à Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (FEA-USP), em São Paulo.

O levantamento analisa o efeito de possíveis travas no reajuste de aposentadorias, pensões, Bolsa Família (programa federal de transferência direta de renda) e Benefício de Prestação Continuada (BPC, auxílio de um salário mínimo pago a idosos e pessoas com deficiência de baixa renda). Segundo a economista Luiza Nassif Pires, co-diretora do Made-USP e coautora da pesquisa, “manter a valorização real da previdência, do BPC e dos programas de transferência de renda é a garantia mínima de dignidade para as famílias e de sobrevivência para o comércio local no Brasil profundo”.

Peso dos benefícios sociais chega a 50% do orçamento familiar no interior

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Dos 5.569 municípios brasileiros considerados na análise, cerca de 4 mil estão situados fora das capitais e regiões metropolitanas. Nessas cidades menores, a participação das transferências públicas na economia local chega ao dobro do patamar verificado nos grandes centros urbanos. Para as famílias de baixa renda, que contam com rendimento mensal de até 1,5 salário mínimo por pessoa, os repasses previdenciários e assistenciais representam até 50% de todo o orçamento doméstico.

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O estudo utiliza dados do Ceará para demonstrar a diferença de dependência financeira entre os municípios de um mesmo estado. Enquanto na capital cearense e na região metropolitana os benefícios sociais e previdenciários respondem por 22% da renda agregada total, nas cidades do interior do estado essa fatia sobe para 40%. “Para quem vive no limite, qualquer reajuste abaixo da inflação empurra a família diretamente para a pobreza”, afirmou Luiza Nassif Pires.

De acordo com os pesquisadores, cerca de um terço da perda de renda projetada até 2029 decorre do efeito multiplicador indireto sobre o consumo e a atividade comercial das cidades. Nos municípios pequenos, o calendário de pagamentos movimenta diretamente farmácias, mercados e lojas de material de construção, sustentando a arrecadação de impostos das prefeituras e o nível de emprego. Quando o fluxo financeiro perde força pela falta de reajuste acima da inflação, a retração atinge em cadeia comerciantes e trabalhadores que não recebem nenhum repasse governamental direto.

Luiza Nassif Pires avalia que o uso imediato dos recursos pelas famílias mais pobres amplia a circulação de moeda nas economias municipais. “Como o valor recebido por essas famílias é usado quase integralmente para a aquisição de itens de primeira necessidade, o dinheiro circula imediatamente no comércio local, garante empregos e mantém a arrecadação municipal ativa”, declarou a economista. Ela acrescentou que um eventual congelamento nos repasses “geraria uma reação em cadeia na atividade econômica que atinge inclusive as famílias que não dependem do socorro público”.

Qual seria a queda de renda no interior de cada estado sem o ganho real dos benefícios sociais?

Intitulado “Quanto perdem as economias do interior quando os benefícios sociais deixam de crescer? Simulações dos efeitos na renda e na pobreza”, o documento foi publicado como Nota de Política Econômica com base nos microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua Anual de 2025. Além de Luiza Nassif Pires, assinam o trabalho os pesquisadores do Made-USP Clara Brenck, Clara Saliba e Theo Diogo.

Para projetar o período de três anos entre 2027 e 2029, a equipe comparou a manutenção do ritmo de crescimento real verificado entre 2022 e 2025 com cenários de congelamento e com o padrão de correção aplicado entre 2018, 2019 e 2022, quando não houve ganho real para o salário mínimo. “Olhando para o impacto que a queda de renda provoca, fica nítido o estrago que uma trava no crescimento dos benefícios pode fazer nas economias locais”, disse a co-diretora do centro de pesquisa.

A simulação mostra que a ausência de valorização real teria impacto desigual pelo território nacional, concentrando as maiores retrações de renda total nos interiores do Norte e do Nordeste até 2029:

  • Interior do Rio Grande do Norte, Amapá e Piauí: queda estimada entre 17% e 18% na renda total;
  • Interior do Amazonas, Sergipe e Pernambuco: retração aproximada de 15% na renda total;
  • Interior de Alagoas, Bahia, Ceará e Maranhão: perda calculada entre 10% e 13% na renda total;
  • Interior de Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Espírito Santo, São Paulo, Mato Grosso, Rio Grande do Sul e Santa Catarina: redução de até 6,5% na renda agregada.

Simulação do Made-USP aponta que congelamento entre 2022 e 2025 levaria 2,7 milhões à pobreza

Os economistas também realizaram uma simulação retrospectiva sobre o período de 2022 a 2025 para medir o que teria ocorrido caso os valores dos benefícios estivessem congelados. Nesse cenário, cerca de 2,7 milhões de moradores de municípios fora das regiões metropolitanas teriam entrado na pobreza, sendo que 2,4 milhões deles cairiam diretamente para a situação de extrema pobreza. Caso tivesse sido mantida apenas a regra de reajuste observada de 2018 a 2022, sem aumento real do piso nacional, 1,8 milhão de habitantes do interior teriam passado para baixo da linha de pobreza no período analisado.

Em números absolutos, o aumento projetado da população em situação de pobreza entre 2022 e 2025 sem a política de ganhos reais atingiria com mais força seis estados:

  • Bahia: acréscimo de até 336 mil pessoas na pobreza;
  • São Paulo: aumento de até 263 mil pessoas na pobreza;
  • Minas Gerais: elevação de até 251 mil pessoas na pobreza;
  • Maranhão, Pará e Ceará: crescimento superior a 200 mil pessoas na pobreza em cada unidade da federação.

Reajuste do Bolsa Família em outubro de 2026 e regras de correção do salário mínimo

O levantamento da FEA-USP foi divulgado em meio ao debate econômico sobre o controle de gastos públicos obrigatórios e a revisão de regras de correção orçamentária para o próximo mandato presidencial. Desde 2023, a política de valorização do salário mínimo voltou a somar a inflação acumulada no ano anterior ao crescimento real do Produto Interno Bruto (PIB, a soma de todos os bens e serviços produzidos no país) de dois anos antes, mecanismo que garantiu ganhos acima da inflação para as aposentadorias equivalentes ao piso previdenciário e para o BPC entre 2022 e 2025.

Já no caso da transferência direta de renda, começou a ser pago na segunda-feira, 19 de outubro de 2026, o calendário de outubro do Bolsa Família com reajuste de 15,04%, percentual calculado sobre o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) acumulado desde março de 2023. Com a correção, o piso mensal do programa subiu de R$ 600 para R$ 691 por família, enquanto o valor médio nacional do benefício passou de R$ 675 para R$ 777.

A nota técnica também registra que as maiores perdas de renda projetadas para os interiores de estados do Norte e do Nordeste coincidem com regiões onde o ganho relativo de votos do candidato Flávio Bolsonaro (PL) em comparação ao desempenho de Jair Bolsonaro na eleição de 2022 foi mais expressivo. A disputa pelo segundo turno da eleição presidencial entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) ocorre neste domingo, 25 de outubro de 2026.

Jeronimo Santos é colaborador da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2016: Formação: Marketing

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