Fóssil de 100 anos revela dinossauro de 120 milhões de anos na Europa

Fóssil de dinossauro - Maciej Bledowski / shutterstock.com

Fóssil de dinossauro - Maciej Bledowski / shutterstock.com

Uma equipe liderada pela University College London (UCL) e pelo Museu de História Natural de Londres identificou uma nova espécie de dinossauro carnívoro batizada de Invictibellatrix amberina. Descrito em estudo publicado na quarta-feira, 14 de outubro de 2026, na revista científica Royal Society Open Science, o predador viveu há cerca de 120 milhões de anos na atual Ilha de Wight, no Reino Unido, e tinha o porte aproximado de um tigre grande.

Embora medisse entre 3 e 4 metros de comprimento total, o animal representaria uma ameaça hipotética maior para os seres humanos do que o Tyrannosaurus rex, caso tivessem coexistido. Segundo Cassius Morrison, paleontólogo do Departamento de Ciências da Terra da UCL e autor principal do estudo, o tamanho de uma pessoa adulta seria ideal para o caçador. “Ele não era o predador de topo de seu tempo, mas para os humanos este dinossauro teria sido mais perigoso do que um T. rex. Nós teríamos sido presas de tamanho perfeito, cerca de um terço do peso corporal deles. Eles definitivamente teriam nos perseguido. Um T. rex não teria se dado ao trabalho, pois seríamos pequenos demais”, afirmou o pesquisador, em tradução livre.

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Garras de até 20 centímetros e caça com os braços no Invictibellatrix amberina

O Invictibellatrix amberina pertence ao grupo dos megaraptoranos (Megaraptora), uma linhagem de dinossauros terópodes carnívoros bípedes que eram parentes próximos dos tiranossauros. Diferentemente do T. rex, que dependia da força das mandíbulas para abater animais de grande porte, os megaraptoranos possuíam cabeças mais estreitas e utilizavam braços longos e musculosos, equipados com grandes garras curvas, como principal arma de ataque para capturar suas vítimas.

Foto: Paleontólogo, Esqueleto de Dinossauro – gorodenkoff/ Istockphoto.com

Com base na anatomia de parentes próximos do mesmo grupo, os cientistas calcularam que o novo dinossauro atingia pouco mais de 1,5 metro de altura, estatura equivalente à de um ser humano adulto, e tinha o corpo possivelmente coberto por penas. As garras curvas das mãos mediam entre 10 e 20 centímetros de comprimento. “Ele provavelmente teria penas e suas garras poderiam ter cerca de 10 centímetros a 20 centímetros de comprimento. Ele teria comido pequenos dinossauros, lagartos e mamíferos, ocupando um papel semelhante na cadeia alimentar ao da hiena atualmente”, explicou Morrison.

Durante o Cretáceo Inferior, especificamente na idade geológica Barremiana, o predador habitava o ambiente de planície aluvial da região conhecida como Formação Wessex. Naquele ecossistema, o Invictibellatrix amberina não ocupava o topo da cadeia alimentar e dividia o território com dinossauros herbívoros saurópodes rebbachissaurídeos, parentes do Iguanodon, além de predadores maiores do grupo dos espinossaurídeos.

Fóssil do Invictibellatrix amberina passou mais de 100 anos em gaveta de museu

A identificação da nova espécie não exigiu uma escavação recente, pois o único fóssil conhecido do animal estava guardado no acervo do Museu de História Natural de Londres desde 1924. O fragmento ósseo foi encontrado originalmente ao pé de uma falésia na costa sudoeste da Ilha de Wight pelo paleontólogo amador Reginald Walter Hooley. Após a morte do colecionador, o museu britânico adquiriu a peça como parte de um lote com mais de 1.000 espécimes reunidos por Hooley, e o osso permaneceu armazenado em uma gaveta por mais de um século sem descrição científica formal.

Para analisar a peça sem danificá-la, os pesquisadores utilizaram exames de tomografia computadorizada e criaram modelos digitais em três dimensões do interior do fóssil, que corresponde exclusivamente à caixa craniana, a parte posterior do crânio responsável por abrigar o cérebro. A tecnologia revelou características anatômicas inéditas que confirmaram a existência de uma espécie desconhecida, incluindo uma crista nucal sagital em formato de ampulheta e um forame magno — abertura óssea por onde a medula espinhal se conecta ao cérebro — com formato oval.

Morrison destacou o tempo em que o material ficou sem identificação no acervo londrino. “É um verdadeiro mistério que este fóssil tenha passado despercebido por tanto tempo, guardado em uma gaveta por quase 100 anos. Muitos ossos são encontrados na Ilha de Wight; quem sabe o que mais está esperando para ser descoberto”, disse o autor principal. Paul M. Barrett, professor e pesquisador do Museu de História Natural de Londres e autor sênior do artigo, ressaltou a importância das coleções antigas. “Apesar de mais de 200 anos de coletas, a Ilha de Wight continua a nos surpreender com novas espécies de dinossauros, e achados de dinossauros carnívoros, como o Invictibellatrix, têm sido particularmente raros. Trabalhos como este mostram o valor excepcional de trabalhar com coleções históricas de museus, onde ainda há muitas descobertas a serem feitas”, declarou Barrett.

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Descoberta do Invictibellatrix amberina comprova rota migratória pela Europa

O registro na Inglaterra representa o primeiro fóssil confirmado de um dinossauro megaraptorano em todo o continente europeu. As análises biogeográficas conduzidas pela equipe indicam que esses predadores surgiram provavelmente na Ásia e se espalharam de forma ampla durante o Cretáceo Inferior, utilizando a Europa como rota terrestre de passagem até alcançar o supercontinente Gondwana, no hemisfério sul, que reunia as massas continentais da América do Sul, África, Antártida e Austrália. Após se extinguirem regionalmente nos continentes do norte (Laurásia), os megaraptoranos evoluíram no hemisfério sul para se tornarem predadores gigantes de topo no Cretáceo Superior. “Esta nova espécie é a primeira prova que temos de que os megaraptoranos também estiveram presentes na Europa e que chegaram a Gondwana por este caminho, em vez de saltarem de ilha em ilha mais ao sul”, afirmou Charlie R. Scherer, doutorando em Ciências da Terra na UCL e segundo autor do estudo.

O batismo científico do animal carrega referências evolutivas e sociais definidas pelos autores. O nome do gênero, Invictibellatrix, significa “guerreira invicta” em latim, escolha que alude tanto à ascensão futura dos megaraptoranos como predadores dominantes quanto a uma mensagem dos cientistas de esperança e resistência contra o bullying, a discriminação e a opressão. Já o termo específico amberina refere-se à presença de âmbar nos depósitos rochosos da formação geológica onde o crânio foi recolhido.

Além de Morrison, Scherer e Barrett, o estudo na Royal Society Open Science é assinado pelos pesquisadores Philip Mannion, Laura B. Porro, Brett Clark e Daniel D. Folkes. Como a descrição do Invictibellatrix amberina baseia-se apenas no fragmento da caixa craniana, as medidas corporais de 3 a 4 metros de comprimento e 1,5 metro de altura, o tamanho das garras de 10 a 20 centímetros e a cobertura de penas permanecem como estimativas científicas deduzidas a partir de parentes evolutivos, dependendo da localização de novos esqueletos na Ilha de Wight para confirmação direta.

Janderson Luiz: Janderson Luiz é colaborador da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024. Formação: Atleta Profissional de Futebol