Consumidores e desenvolvedores passaram a utilizar agentes de inteligência artificial, como o Claude Code (da Anthropic) e o Codex (do ChatGPT), para remover publicidade nativa, telemetria e aplicativos de fábrica em smart TVs. A prática ganhou tração a partir de sábado (17) e permite instalar telas iniciais personalizadas em aparelhos com sistemas Android TV e Google TV, desativando até 25 pacotes pré-instalados de uma só vez.
A modificação das interfaces se apoia no modelo conhecido como programação intuitiva (vibe coding, em inglês), popularizado em 2025, no qual o usuário descreve em texto o que deseja a um robô de conversação e a ferramenta gera o código correspondente. Em um dos casos que impulsionaram o movimento, o desenvolvedor Gathin T. modificou o televisor dos pais após encontrar uma publicidade antes da abertura da Netflix e alcançou mais de 6,2 milhões de visualizações na rede social X (antigo Twitter). “Programei de forma intuitiva a TV dos meus pais nesta tarde! Ela estava mostrando um anúncio patrocinado antes mesmo de você conseguir chegar à Netflix. Dei ao Claude Code o número do modelo, ele encontrou a TV no Wi-Fi, removeu 25 pacotes da Xiaomi e escreveu um novo inicializador. Parece uma Apple TV agora”, afirmou Gathin T., em tradução livre.
Projetos com o Claude Code somam milhares de acessos no GitHub
Após alterar a Xiaomi Mi TV da família no sábado (17), Gathin T. publicou o código-fonte e o passo a passo da modificação em um repositório aberto na plataforma GitHub. Batizado inicialmente de tv-vibehack, o projeto foi renomeado na segunda-feira (19) para cleanyourtv, distribuído sob licença MIT, e acumulou mais de 3.300 estrelas na plataforma em dois dias.
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No mesmo sábado (17), o desenvolvedor Ryan Doyle divulgou vídeos de sua televisão operando com maior velocidade após o uso da ferramenta da Anthropic para apagar rastreadores e programas nativos. “É assim que a TV se move rápido agora que o Claude deletou todos os aplicativos de fábrica lentos e inúteis que vêm com ela”, declarou Doyle, em tradução livre.
Além da limpeza do sistema, Doyle programou um protetor de tela próprio conectado a dados externos. Segundo o desenvolvedor, o uso do Claude Code eliminou anúncios, aplicativos de fábrica, programas espiões e a lentidão da interface, além de permitir a criação de um protetor de tela com o faturamento de seu negócio, calendário, previsão do tempo e notificações de novos pagamentos via Stripe, bastando enviar a descrição do televisor para a ferramenta.
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Outros usuários criaram interfaces com representações em 3D da própria residência para controlar sistemas de iluminação e dispositivos de casa inteligente. Já o usuário Mihir Gupta relatou a redução no tamanho do inicializador do aparelho, que caiu de 192 MB para 83 MB após a substituição do software original de fábrica por uma versão gerada pelo Claude Code.
A onda de modificações originou mais dois repositórios abertos no GitHub voltados à remoção de publicidade e telemetria: o TV Detox (tv-detox), organizado pelo youtuber e desenvolvedor Ansub Khan, e o dumbtv, criado pelo desenvolvedor Muzzammil Yasin Sabuwala. Na documentação do projeto, Sabuwala definiu o objetivo da ferramenta: “Sua TV deve fazer aquilo pelo que você pagou: seus aplicativos, suas entradas HDMI e nada mais. Sem anúncios da própria TV, sem rastreamento do que você assiste, sem atualização que você não pediu”, escreveu, em tradução livre.
Como o Claude Code remove anúncios e pacotes das smart TVs?
O procedimento executado pelas ferramentas de inteligência artificial não exige acesso à raiz do sistema (root) nem altera de forma permanente o software interno do televisor (firmware). A operação utiliza o Android Debug Bridge (ADB), um recurso oficial de desenvolvimento do sistema Android que permite o envio de linhas de comando ao aparelho.
Para realizar o processo, o proprietário ativa as opções de desenvolvedor e a depuração via USB ou rede local nas configurações da televisão. Conectado ao mesmo Wi-Fi, o agente de inteligência artificial acessa o terminal e envia instruções como o comando “pm disable-user”, que desativa os pacotes sem apagá-los definitivamente da memória, permitindo reverter as mudanças por meio de um comando de restauração ou pelo retorno ao padrão de fábrica.
Entre os principais alvos de bloqueio está a tecnologia de Reconhecimento Automático de Conteúdo (ACR, na sigla em inglês). O recurso atua nas smart TVs modernas identificando tudo o que passa na tela por meio de capturas de imagem, áudio ou impressões digitais para direcionar publicidade e comercializar dados de consumo.
Para quem deseja apenas trocar o visual da tela inicial sem utilizar comandos via terminal, a loja oficial Google Play Store já disponibiliza inicializadores prontos para download. O uso direto de inteligência artificial para desativar partes do sistema apresenta riscos operacionais: houve o registro de pelo menos um consumidor que inutilizou completamente uma Android TV ao usar o Claude, outro que teve o processo travado na metade em uma Fire TV, além de situações em que o próprio assistente virtual recusou a ordem direta de “hackear a TV”.
Sistemas compatíveis e dados técnicos da modificação via ADB
A execução dos comandos via ADB depende da arquitetura do sistema operacional instalado no televisor ou no aparelho de streaming. Abaixo estão os dados de compatibilidade, ferramentas e alcance registrados nos projetos de código aberto:
- Sistemas operacionais compatíveis: Android TV, Google TV e Fire TV.
- Marcas e dispositivos suportados pelo método: TCL, Sony, Xiaomi, Hisense, Philips, Skyworth, Nvidia Shield e Chromecast.
- Sistemas proprietários com restrições de acesso ao método ADB: Tizen (equipado em TVs da Samsung) e webOS (utilizado pela LG), para os quais usuários buscam soluções alternativas.
- Agentes de inteligência artificial utilizados: Claude Code (Anthropic) e Codex (ChatGPT).
- Início da viralização dos repositórios: 17 de outubro de 2026.
- Desempenho da publicação do projeto cleanyourtv no X até 19 de outubro de 2026: 4,6 milhões de visualizações (ultrapassando 6,2 milhões na sequência), 26 mil curtidas e 19 mil salvamentos.
Antecedentes no Android TV e nova função da Google Play Store
Antes da disseminação dos projetos em outubro de 2026, o método já havia sido testado e documentado. Em 27 de agosto de 2026, o engenheiro sênior de inteligência artificial Mert Cobanov, do Refik Anadol Studio, relatou no X o uso do Claude Code via ADB, sem acesso root, para desativar aplicativos pré-instalados, reduzir o tempo de animações e instalar a interface FLauncher em uma Android TV com quatro anos de uso.
Paralelamente às modificações em televisores, o Google iniciou na terça-feira (13) a liberação do recurso Sua biblioteca pessoal (Your personal library) na Google Play Store. Desde maio de 2026, o ambiente Google AI Studio já permitia criar aplicativos Android com inteligência artificial e instalá-los no celular via ADB, mas a nova função dispensa o uso de cabos ou comandos de rede.
Com a atualização da loja, usuários com uma conta Google comum podem gerar programas pelo Google AI Studio e instalá-los de forma privada em seus próprios aparelhos, sem que apareçam nas buscas públicas e sem a necessidade de pagar a taxa de registro de desenvolvedor de US$ 25. A funcionalidade exige idade mínima de 18 anos e começou a ser distribuída para usuários nos Estados Unidos e em outros mercados selecionados pela empresa.
