Pesquisadores da Austrália e dos Estados Unidos conduzem um projeto de engenharia genética para tentar recriar o tigre-da-Tasmânia, marsupial carnívoro extinto em 1936 e também conhecido pelo nome científico de tilacino (Thylacinus cynocephalus). A iniciativa reúne o laboratório TIGRR (Pesquisa de Restauração Genômica Integrada do Tilacino, na sigla em inglês), da Universidade de Melbourne, e a empresa norte-americana de biotecnologia Colossal Biosciences, sediada em Dallas, utilizando células-tronco e edição de DNA para buscar a geração de um organismo com características físicas e biológicas semelhantes às da espécie desaparecida.
O trabalho científico registrou avanço técnico em 17 de outubro de 2024, quando as duas instituições anunciaram a reconstrução de um genoma do tilacino com 99,9% de completude, restando 45 lacunas no sequenciamento. O material genético foi obtido a partir de uma cabeça do animal preservada em etanol há 110 anos, da qual as equipes também isolaram moléculas longas de RNA ácido responsável pela síntese de proteínas retiradas de áreas como língua, cavidade nasal, cérebro e olho.
Beth Shapiro, diretora científica da Colossal Biosciences e diretora do Laboratório de Paleogenômica da Universidade da Califórnia em Santa Cruz (UCSC), avaliou a qualidade do material biológico utilizado na pesquisa. “As amostras de tilacino usadas para o nosso novo genoma de referência estão entre os espécimes antigos mais bem preservados com os quais minha equipe já trabalhou”, afirmou, em tradução livre.
Continue lendo: Lobo-guará pode receber reforço genético testado em desextinção
Edição de células e estudos sobre o crânio do tigre-da-Tasmânia
A estratégia de laboratório é liderada na Austrália por Andrew Pask, professor da Universidade de Melbourne, líder do laboratório TIGRR e membro do Conselho Consultivo Científico da Colossal Biosciences. Nos Estados Unidos, a frente tecnológica conta com George Church, professor de genética nas universidades de Harvard e no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), que fundou a empresa de biotecnologia ao lado do empreendedor e diretor-executivo (CEO) Ben Lamm.
O método desenvolvido pelos geneticistas consiste em comparar o DNA recuperado do animal extinto com o de espécies de marsupiais que ainda existem. O procedimento prevê a retirada de células-tronco de um parente vivo com código genético próximo, o dunnart-de-cauda-gorda (pequeno marsupial australiano com aparência similar à de um camundongo). Em seguida, os pesquisadores aplicam técnicas de edição genética, como a ferramenta CRISPR, que funciona como uma tesoura molecular capaz de cortar e substituir trechos específicos do DNA, para inserir os genes do tigre-da-Tasmânia nas células do dunnart.
Acompanhe: Escavação no Castelo dos Mouros acha muro pré-romano inédito
O objetivo da modificação celular é transformar esse material editado em embriões viáveis. Conforme o planejamento das instituições, o desenvolvimento embrionário deverá ocorrer em um útero artificial ou por meio de gestação substituta em uma fêmea da própria espécie dunnart. “Estamos ficando mais perto a cada dia de conseguir colocar o tilacino de volta no ecossistema o que, claro, também é um grande benefício para a conservação”, disse Andrew Pask, em tradução livre.
Além do mapeamento de DNA e RNA, o projeto incluiu análises anatômicas divulgadas em 2026. Pesquisadores ligados à Colossal Biosciences publicaram um estudo de análise morfométrica (medição das formas anatômicas) sobre a estrutura do crânio e o estilo de mordida do tilacino. O levantamento apontou que o crânio da espécie extinta apresenta um mosaico de características que não possui equivalente funcional entre os mamíferos vivos na atualidade. A empresa norte-americana também mantém projetos similares voltados para a tentativa de recriação do mamute-lanoso, do pássaro dodô e do lobo-terrível (canídeo pré-histórico extinto).
Cronologia e dados do projeto do tigre-da-Tasmânia
O programa de pesquisa envolve marcos laboratoriais estabelecidos na Austrália e nos Estados Unidos ao longo da última década:
- 2017/2018: primeiro sequenciamento do genoma do tilacino realizado pela equipe de Andrew Pask a partir de um filhote retirado da bolsa materna em 1909 e conservado em álcool no museu australiano Museums Victoria (catalogado como espécime C5757).
- Março de 2022: criação do laboratório TIGRR na Universidade de Melbourne com recursos de uma doação filantrópica de US$ 5 milhões feita pelo fundo Wilson Family Trust, distribuída ao longo de dez anos.
- 16 de agosto de 2022: anúncio oficial da parceria entre a Colossal Biosciences e a Universidade de Melbourne, em Melbourne e Dallas, com estimativa inicial de dez anos para o eventual nascimento dos primeiros filhotes, condicionada ao sucesso dos experimentos.
- 17 de outubro de 2024: divulgação da reconstrução do genoma de referência e da extração de RNA de tecidos moles.
Ceticismo científico sobre a recriação do tigre-da-Tasmânia
A viabilidade de recriar uma espécie extinta por meio de edição genética divide pesquisadores e enfrenta questionamentos sobre os limites biológicos do procedimento. Críticos da área apontam que gerar um organismo geneticamente modificado a partir de outra espécie hospedeira não equivale a recuperar o animal original, uma vez que diferenças no DNA, no desenvolvimento embrionário, na fisiologia e no comportamento podem impedir a reprodução exata das características do tilacino.
Jeremy Austin, professor associado e biólogo evolucionista do Centro Australiano de DNA Antigo, questiona o foco e a aplicabilidade dessas pesquisas. “A desextinção é uma ciência de conto de fadas”, declarou Austin, em tradução livre. O pesquisador afirmou ainda que a desextinção do tilacino ou do mamute está mais voltada para a atenção da mídia aos cientistas do que para a realização de ciência séria.
O debate entre biólogos e conservacionistas abrange também a destinação de recursos financeiros e os riscos ecológicos. Parte da comunidade científica discute se os investimentos aplicados na tentativa de reverter extinções teriam maior efetividade se direcionados à proteção de espécies atualmente ameaçadas e à preservação de habitats naturais. Além disso, a garantia de que um animal gerado em laboratório nasça saudável e sobreviva depende da superação de barreiras técnicas de reprodução e adaptação.
Caça recompensada levou o tigre-da-Tasmânia à extinção em 1936
O tigre-da-Tasmânia habitava a maior parte do continente australiano e a ilha da Nova Guiné, mas desapareceu do território continental há cerca de 3.100 anos, ficando restrito à ilha da Tasmânia. O declínio final da população ocorreu após a colonização europeia na região, impulsionado pelo avanço sobre o ambiente natural e pela caça humana sistemática.
Em 1830, a companhia agropecuária Van Diemen’s Land Co. instituiu o pagamento de recompensas financeiras pelo abate do marsupial. A prática ganhou caráter estatal em 1888, quando o Parlamento da Tasmânia aprovou uma recompensa oficial no valor total de 1 libra por cada tilacino morto entregue às autoridades.
Confira também: Cientistas dos EUA derrubam 6 mitos populares de longevidade
O governo australiano concedeu status de proteção oficial à espécie em julho de 1936. Dois meses depois, porém, em 7 de setembro de 1936, morreu no Zoológico Beaumaris, em Hobart, capital da Tasmânia, o último exemplar conhecido da espécie em cativeiro, um indivíduo chamado Benjamin. Após décadas sem registros comprovados na natureza, o tigre-da-Tasmânia foi declarado oficialmente extinto na década de 1980.
Para que uma eventual reintrodução de animais recriados por engenharia genética ocorra no futuro, os pesquisadores apontam a necessidade de concluir as etapas de gestação embrionária e realizar estudos prévios sobre o papel ecológico do organismo e os impactos de sua presença nos ecossistemas atuais.
