A empresa americana de biotecnologia Colossal Biosciences anunciou nesta quarta-feira (14), em Dallas, no Texas (Estados Unidos), o desenvolvimento da plataforma interna de inteligência artificial GenoMorph para o projeto de recriação do dodô (Raphus cucullatus), ave extinta no século XVII. A ferramenta computacional identificou cerca de 2.300 alvos genéticos ligados ao formato do bico e do crânio da espécie, enquanto a companhia atingiu a marca de 95% de conclusão na análise do genoma do animal.
De acordo com o CEO e cofundador da Colossal Biosciences, Ben Lamm, o uso de algoritmos busca superar a escassez de material genético preservado da ave. “A desextinção é tanto um problema de dados quanto um problema de biologia”, afirmou o executivo, em tradução livre. Para alimentar o sistema, a equipe liderada pela diretora científica Beth Shapiro, pelo diretor de biologia Andrew Pask e pela diretora de espécies aviárias Anna Keyte construiu um atlas regulatório aviário a partir de centenas de amostras de galinhas, codornas, patos e pombos, cobrindo seis estágios de desenvolvimento embrionário e três áreas da face.
Como a IA GenoMorph e a edição celular recriam o dodô?
O mapeamento realizado pela plataforma GenoMorph dividiu os cerca de 2.300 elementos regulatórios de DNA candidatos em grupos específicos: mais de 650 alvos estão ligados ao tamanho do bico e quase 1.700 correspondem à espessura e à largura da estrutura craniofacial. “O desafio era que os cientistas têm apenas um genoma completo do dodô, tornando difícil distinguir as diferenças genéticas que tornaram o dodô único da variação genética comum. O GenoMorph atua efetivamente como um ‘mapa do tesouro’ para o genoma do dodô, estreitando centenas de milhares de possíveis mudanças genéticas nos alvos com maior probabilidade de explicar seu bico icônico e estrutura facial”, declarou Ben Lamm. Segundo ele, a inteligência artificial aprende como o DNA regulatório molda as aves vivas e identifica os interruptores genéticos que contribuíram para a anatomia da espécie desaparecida.
Como as aves não podem ser clonadas pelas técnicas tradicionais de transferência de núcleo utilizadas em mamíferos, os cientistas aplicam a edição genética em células germinativas primordiais (PGCs, que são as células precursoras de óvulos e espermatozoides) retiradas do pombo-de-nicobar, o parente vivo mais próximo do dodô. No pacote de avanços divulgado em 14 de outubro de 2026, a empresa confirmou a ampliação de sua colônia de pombos-de-nicobar, a obtenção de novas células germinativas dessa espécie, o nascimento das primeiras quimeras de galinha geradas a partir de células-tronco embrionárias e a criação de um sistema de nanopartículas lipídicas para entregar ferramentas de edição genética diretamente em embriões de aves. As células editadas do pombo são inseridas em galinhas geneticamente modificadas que não produzem suas próprias células reprodutivas, funcionando como barrigas de aluguel para gerar os futuros gametas com traços do dodô.
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Números, investimentos e estrutura do projeto do dodô
A operação científica da Colossal Biosciences envolve aportes financeiros bilionários e metas de engenharia genética que integram diferentes laboratórios nos Estados Unidos. Os dados técnicos e financeiros consolidados do anúncio e da estrutura da companhia incluem os seguintes parâmetros:
- Data e horário do anúncio: 14 de outubro de 2026, às 17h00 (horário da Costa Leste dos EUA).
- Local sede da divulgação: Dallas, Texas, Estados Unidos.
- Capital total captado pela empresa: US$ 555 milhões em investimentos acumulados desde a fundação até a expansão da Série C.
- Avaliação de mercado da companhia: US$ 10,32 bilhões (valor de mercado total atingido após aporte na Série C).
Ovos impressos em 3D e histórico de espécies da Colossal Biosciences
A chegada aos estágios finais do genoma do dodô adaptou tecnologias que a companhia utilizou anteriormente no projeto do lobo-terrível (dire wolf), espécie extinta da qual a empresa anunciou o nascimento de três filhotes gerados por edição genética do genoma do lobo-cinzento. Além da modelagem por computador e da edição celular, a infraestrutura biológica da Colossal Biosciences conta com um sistema de casca de ovo artificial feito com estrutura hexagonal impressa em 3D e membrana de silicone permeável a gases, capaz de permitir a troca gasosa natural sem necessidade de oxigênio suplementar.
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O equipamento de incubação artificial gerou o nascimento de 26 pintinhos saudáveis após a transferência de embriões e foi projetado sobretudo para viabilizar aves de ovos gigantes, como o moa-gigante da Ilha do Sul da Nova Zelândia — ave extinta há cerca de 600 anos cujo ovo tinha 80 vezes o volume de um ovo de galinha —, além de servir como suporte ao programa do dodô. “Não há nenhuma ave na Terra atualmente que possa desenvolver um embrião de moa dentro de um de seus ovos. Então, temos que criar ovos artificiais para conseguir sustentar esses embriões. Mas, para entender todas as coisas que o ovo precisa fazer, estamos começando com ovos de galinha”, explicou Trevor Snyder, bioengenheiro e vice-presidente de tecnologia de útero artificial da Colossal Biosciences.
Cronologia dos anúncios da Colossal Biosciences para o dodô
Desde a criação da empresa, o cronograma de biotecnologia voltado às aves e a outras espécies extintas registrou etapas sucessivas de captação de recursos e testes embrionários:
- Setembro de 2021 — Fundação da Colossal Biosciences nos Estados Unidos.
- Abril de 2025 — Anúncio do nascimento de três filhotes de lobo-terrível obtidos a partir da edição genética do lobo-cinzento.
- 17 de setembro de 2025 — Divulgação do cultivo inédito de células germinativas primordiais de pombos em laboratório, criação do plantel de galinhas hospedeiras, formação do Comitê Consultivo do Dodô das Ilhas Maurício e captação adicional de US$ 120 milhões.
- 19 de maio de 2026 — Apresentação do sistema de ovo artificial impresso em 3D com membrana de silicone, que resultou no nascimento de 26 pintinhos saudáveis.
- 14 de outubro de 2026 — Lançamento da plataforma de inteligência artificial GenoMorph com 2.300 alvos genéticos mapeados e anúncio de 95% de conclusão do genoma do dodô.
Limitações científicas e planos para o dodô nas Ilhas Maurício
Apesar dos avanços laboratoriais apresentados pela empresa, pesquisadores independentes mantêm cautela em relação aos anúncios da Colossal Biosciences. Os cientistas externos destacam que um animal gerado por essa técnica não será uma cópia genética idêntica do dodô original, mas sim uma ave moderna geneticamente modificada — um híbrido funcional — desenhada para exibir características físicas semelhantes às da espécie extinta. Além disso, os resultados recém-anunciados sobre a plataforma GenoMorph e o sistema de ovo artificial ainda não foram integralmente publicados em periódicos científicos com revisão por pares.
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Quanto ao prazo para o nascimento do primeiro exemplar, o CEO Ben Lamm havia estimado em setembro de 2025 que o projeto levaria de cinco a sete anos (“Por alto, achamos que ainda faltam de cinco a sete anos, mas não faltam 20 anos”, disse na ocasião), mas o comunicado oficial de 14 de outubro de 2026 não fixou uma nova data para a conclusão. Paralelamente aos projetos que incluem o mamute-lanoso, o tigre-da-tasmânia (tilacino), o moa-gigante e o antílope azul (bluebuck), a Colossal Biosciences trabalha em parceria com grupos de conservação e com o governo das Ilhas Maurício, no Oceano Índico, onde o dodô era endêmico antes de desaparecer pela caça e perda de habitat, para planejar uma futura reintrodução da ave em áreas livres de ratos após a realização de estudos ecológicos e consultas comunitárias.
