Embrapa comprova ganho de carbono em pastagens recuperadas no país

Pecuária, gado - Cacio Murilo/ shutterstock.com

Pecuária, gado - Cacio Murilo/ shutterstock.com

A recuperação de pastagens degradadas com intensificação moderada aumentou o estoque de carbono no primeiro metro do solo de 102 para 162 toneladas por hectare em experimentos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) realizados em São Carlos (SP). Os estudos, apoiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e consolidados na sexta-feira (16), também validaram um método óptico mais barato que dispensa a escavação de trincheiras para medir o gás retido na terra.

O ganho médio registrado entre 2011 e 2020 foi de aproximadamente 2 toneladas de carbono por hectare ao ano na comparação com o pasto sem cuidados. “O resultado é interessante porque a pastagem que deu o melhor acúmulo de carbono não foi aquela em que colocamos mais nitrogênio nem aquela com maior lotação animal. O equilíbrio parece ser o mais importante”, afirmou o físico Ladislau Martin Neto, pesquisador da Embrapa Instrumentação e coordenador do Projeto Temático apoiado pelo Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG).

Descobertas da Embrapa sobre retenção de carbono em São Carlos

A pesquisa reuniu três estudos complementares conduzidos pela Embrapa Pecuária Sudeste e pela Embrapa Instrumentação, com participação da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e da Universidade Técnica de Munique (TUM), na Alemanha. Os trabalhos investigaram desde a escala nanométrica de fixação da matéria orgânica até a viabilidade comercial de auditorias para o mercado de créditos de carbono.

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  • Em artigo publicado na revista Soil & Tillage Research, a equipe liderada na condução de campo pela pesquisadora Patrícia Perondi Anchão Oliveira, da Embrapa Pecuária Sudeste, comprovou que o manejo moderado superou sistemas de altíssima intensificação no acúmulo de carbono entre 2011 e 2020.
  • Por meio da análise de assinatura isotópica, os cientistas mediram nos primeiros 30 centímetros do solo um acúmulo de 52 toneladas de carbono por hectare vindas das gramíneas sob lotação moderada, contra 37 toneladas no sistema de alta lotação animal.
  • Em estudo de 24 anos divulgado em 21 de janeiro de 2026 e publicado na revista Geoderma pelo pós-doutorando Lucas Raimundo Bento, o pasto manejado atingiu 148 toneladas de carbono por hectare na forma de matéria orgânica associada a minerais do solo, superando as 92 toneladas da área degradada e até ecossistemas nativos de referência.
  • Análises com espectrometria de massa de íons secundários (NanoSIMS) feitas na Alemanha mostraram que a matéria orgânica ocupou no máximo cerca de 3% da superfície mineral na camada superficial, revelando amplo espaço físico para reter mais carbono.
  • Em artigo publicado em 28 de abril de 2026 no Microchemical Journal, o pós-doutorando Vitor da Silveira Freitas validou o uso da espectroscopia no infravermelho próximo (NIRS) em 576 amostras (480 para calibração e 96 para validação) para calcular o carbono diretamente em terra solta.

Comparação dos estoques de carbono por hectare na Fazenda Canchim

A diferença entre os modelos produtivos testados na Fazenda Canchim, em São Carlos, tem explicação biológica e impacto direto no custo do pecuarista, segundo os autores. Quando a pressão de pastejo é excessiva, o gado remove grande parte da biomassa e reduz a capacidade de recuperação das plantas; já na lotação equilibrada, o capim recompõe rapidamente a parte aérea e as raízes, injetando mais carbono até 1 metro de profundidade com menor gasto em fertilizantes químicos. “Esse já é um caso de sucesso na pecuária brasileira, um sistema amplamente adotado pelos pecuaristas”, disse Patrícia Perondi Anchão Oliveira, referindo-se à combinação de gramíneas adaptadas ao clima tropical com gado de origem indiana, como o nelore.

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  • Intensificação moderada (correção de acidez, 200 quilos de nitrogênio por hectare ao ano e lotação equilibrada): 162 toneladas de carbono por hectare no primeiro metro do solo.
  • Alta lotação em regime de sequeiro (alta fertilização e muitos animais, sem irrigação): 139 toneladas de carbono por hectare.
  • Altíssima intensificação (irrigação artificial, altas doses de nitrogênio e alta densidade de gado): 111 toneladas de carbono por hectare.
  • Pastagem degradada de referência (sem adubação e sob pastejo contínuo): 102 toneladas de carbono por hectare.

Espectroscopia NIRS dispensa trincheiras de 1 metro para gerar créditos

Para transformar o carbono retido em remuneração financeira nos sistemas de Medição, Relato e Verificação (MRV), o protocolo internacional tradicional exige abrir trincheiras de até 1 metro de profundidade e coletar blocos intactos de terra em cilindros metálicos (amostras indeformadas) para medir separadamente a densidade do solo e o teor de carbono. O método validado por Vitor da Silveira Freitas sob supervisão de Martin Neto, com coautoria dos pesquisadores José Ricardo Macedo Pezzopane, Alberto Carlos de Campos Bernardi e Débora Marcondes Bastos Pereira Milori, aplica radiação infravermelha na faixa de 780 a 2.500 nanômetros diretamente sobre amostras de terra solta (deformadas) retiradas com trado, aparelho manual de perfuração. Os resultados não tiveram diferença estatística frente ao método convencional.

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“A espectroscopia NIRS já é admitida em metodologias do Verified Carbon Standard [VCS], gerenciado pela Verra [organização internacional sem fins lucrativos que desenvolve e administra padrões para certificação de projetos ambientais], o que amplia o interesse da abordagem para projetos do mercado voluntário de carbono”, declarou Ladislau Martin Neto.

Além do ganho climático, o estudo apontou melhora direta na fertilidade de solos tropicais desgastados pela chuva e pelo calor. Na camada superficial de até 5 centímetros de profundidade, a capacidade de troca catiônica (CTC) indicador que mede a retenção de nutrientes como cálcio, magnésio e potássio foi aproximadamente 250% maior na pastagem bem manejada do que na degradada.

Histórico dos experimentos em São Carlos desde a década de 1990

Os testes que sustentam as três publicações ocorrem em áreas de pastagem estabelecidas na década de 1990 na Fazenda Canchim, sede da Embrapa Pecuária Sudeste em São Carlos, que passaram por processos de recuperação e intensificação a partir de 2010. Nos lotes de consórcio avaliados pela equipe, os pesquisadores também demonstraram que o adubo químico (200 quilos de nitrogênio por hectare ao ano) pode ser substituído pela fixação biológica por meio do plantio conjunto do capim-braquiária (Urochloa decumbens) com a leguminosa feijão-guandu (Cajanus cajan).

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Antes da validação do sistema NIRS em abril de 2026, o grupo da Embrapa Instrumentação incluindo os pesquisadores Paulino Ribeiro Villas-Boas, Ladislau Martin Neto e Débora Milori já havia anunciado em 21 de janeiro de 2026 outra técnica óptica, baseada em espectroscopia de emissão por plasma induzido por laser (LIBS) aliada a inteligência artificial, para estimar densidade e carbono em uma única análise. Em um exercício prospectivo, a equipe calculou que, se os cerca de 50 milhões de hectares de pastagens degradadas passíveis de recuperação no Brasil atingissem a taxa anual de 2 toneladas por hectare, o país acumularia 1 bilhão de toneladas de carbono em dez anos, o equivalente a 3,6 bilhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2).

Os pesquisadores ressaltam que o modelo matemático do sistema NIRS ainda não é universal, pois foi calibrado em condições relativamente homogêneas. O próximo passo da equipe é incorporar amostras de solos de diferentes regiões brasileiras, texturas, estruturas mineralógicas e sistemas de manejo para permitir o uso da tecnologia em escala nacional.

Bruna: Bruna Santos é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve e colabora para o portal desde 2024. Formação: Professora.