Um estudo conduzido no Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) identificou que pessoas com altos índices de neuroticismo têm propensão significativamente maior a desenvolver insônia. A avaliação clínica de 595 brasileiros mostrou que 61,7% dos pacientes diagnosticados com o distúrbio do sono apresentam níveis elevados desse traço de personalidade, contra 32% dos voluntários que dormem bem.
A pesquisa contou com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e teve os resultados publicados no periódico científico Journal of Sleep Research em 19 de fevereiro de 2025, com divulgação oficial pela instituição de fomento em 8 de abril de 2025. O levantamento integrou a dissertação de mestrado da psicóloga do sono Bárbara Araújo Conway, sob orientação da professora Renatha El Rafihi-Ferreira, do Departamento de Psicologia Clínica da USP. “Decidimos estudar a influência dos traços de personalidade sobre a insônia por se tratar de um transtorno extremamente prevalente e que traz impactos negativos para a saúde, como maior risco de hipertensão, diabetes, ansiedade e depressão. Essas diversas condições de saúde física e mental levam a uma pior qualidade de vida de forma geral”, afirmou Bárbara Araújo Conway.
Ansiedade atua como gatilho entre neuroticismo e insônia
O neuroticismo é definido na psicologia como um traço de personalidade marcado pela instabilidade emocional, pelo foco em aspectos negativos da vida e por uma maior suscetibilidade ao estresse cotidiano. Na análise estatística dos dados coletados na universidade, as pesquisadoras identificaram que os indivíduos com forte presença dessa característica tendem a se desorganizar com mais facilidade diante de adversidades, e que a ansiedade funciona como o mecanismo mediador central que transforma essa instabilidade emocional em prejuízo real ao descanso noturno.
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De acordo com os testes realizados na FM-USP, são os sintomas dessa ansiedade diária que impedem o relaxamento necessário para iniciar ou manter o sono. Os cientistas também testaram a hipótese de participação de outros transtornos psiquiátricos na mesma engrenagem, mas os cálculos demonstraram que a depressão não exerce papel mediador relevante na relação direta entre o alto neuroticismo e a falta de sono.
Divisão dos 595 voluntários e traços avaliados na USP
Para cruzar os dados clínicos de sono com o perfil psicológico dos voluntários, a equipe aplicou um questionário padronizado composto por 60 perguntas. O formulário serviu para mensurar os chamados cinco grandes traços de personalidade: neuroticismo, abertura a experiências, conscienciosidade, amabilidade e extroversão.
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O recrutamento reuniu homens e mulheres na faixa etária de 18 a 59 anos, separados em duas frentes de observação:
- Grupo com insônia: 353 participantes com diagnóstico clínico confirmado do distúrbio e idade média de 40 anos.
- Grupo-controle: 242 indivíduos sem queixas relacionadas ao sono e com idade média de 37 anos.
- Alto neuroticismo: registrado em 61,7% do grupo com insônia e em 32% do grupo-controle.
- Baixa conscienciosidade: verificada em 37,7% dos insones, ante 24,1% dos participantes sem distúrbios do sono.
Diferenças na abertura, conscienciosidade e extroversão nos insones
Além da predominância do neuroticismo, o cruzamento das respostas às 60 questões revelou que os participantes com dificuldade para dormir costumam registrar pontuações rebaixadas em outras três dimensões comportamentais. No recorte dos 353 pacientes insones, 40,7% apresentaram baixa abertura a experiências, perfil associado a pessoas mais convencionais, que evitam situações de desconforto e preferem rotinas rígidas. Já a baixa conscienciosidade, ligada à menor exigência consigo mesmo, menor obstinação e dificuldade em abrir mão de prazeres imediatos em troca de metas de longo prazo, atingiu 37,7% desse grupo. A baixa amabilidade, característica de indivíduos mais céticos e desconfiados em suas relações interpessoais, foi observada em 31,5% dos voluntários com distúrbio do sono.
A extroversão foi o único dos cinco componentes mapeados pelo questionário que não apresentou diferença estatística significativa na comparação entre os voluntários com sono regular e os pacientes com insônia crônica. “Neuroticismo foi o traço que mais se destacou, os insones possuem esse índice bem mais alto. Mas não podemos afirmar que os insones são mais introvertidos”, declarou a autora principal da dissertação.
Incidência da insônia em São Paulo e teoria dos 3 Ps
Os achados da FM-USP somam-se aos modelos teóricos já estabelecidos na medicina do sono, em especial a chamada teoria dos “3 Ps” da insônia. Essa classificação divide a origem e a manutenção do problema em três etapas distintas: a predisposição (fatores biológicos ou psicológicos que deixam a pessoa mais vulnerável ao distúrbio), a precipitação (gatilhos e eventos estressantes que provocam o aparecimento dos sintomas) e a perpetuação (hábitos e comportamentos inadequados que mantêm o ciclo de noites maldormidas ativo ao longo do tempo).
O avanço no mapeamento desses fatores de predisposição busca responder a uma questão de saúde pública de larga escala. Estimativas internacionais apontam que cerca de 30% da população adulta mundial sofre de insônia. Na cidade de São Paulo, o índice supera a média global: dados do Estudo Epidemiológico do Sono (Episono) mostram que 45% dos moradores da capital paulista relatam sofrer com o problema.
Abordagem da ansiedade e falta de especialistas em TCC-I no Brasil
Para a prática médica e psicológica, a conclusão do trabalho acadêmico indica que o atendimento a pessoas com queixas crônicas de sono não deve se restringir à prescrição de medicamentos genéricos ou a orientações básicas de higiene do sono. Pacientes que identificam sintomas persistentes de falta de descanso noturno associados à ansiedade devem procurar avaliação de médicos e psicólogos para um diagnóstico integrado.
“Sabemos que a maioria dos insones tem alto índice de neuroticismo. Esses pacientes merecem investigar e tratar sua ansiedade para que a insônia também melhore. Por vezes isso envolve terapias e medicações diferentes, por isso é importante ter um olhar mais amplo para a história e especificidade de cada indivíduo”, disse Bárbara Araújo Conway.
A orientadora do levantamento reforçou a necessidade de adaptar os protocolos clínicos ao perfil emocional identificado no consultório. “Essas descobertas são importantes na prática clínica, pois ao receber pacientes com esse traço de personalidade é fundamental pensar em um plano de tratamento que foque não somente no sono, mas também na ansiedade”, afirmou a professora Renatha El Rafihi-Ferreira.
Na medicina, o método considerado padrão-ouro para reverter o distúrbio é a terapia cognitivo-comportamental aplicada à insônia (TCC-I), intervenção focada na mudança de hábitos e pensamentos disfuncionais sobre o descanso. As pesquisadoras da USP apontam, contudo, que o Brasil ainda conta com poucos psicólogos especializados em sono para ofertar esse tipo de tratamento específico à população.
