O diretor-executivo (CEO) da SpaceX e da Tesla, Elon Musk, confirmou na terça-feira (20), nos Estados Unidos, que as duas companhias criaram comitês especiais independentes para avaliar uma possível fusão. A combinação dos negócios formaria uma empresa com valor de mercado estimado em US$ 3,5 trilhões, no que seria a maior operação corporativa da história.
A confirmação oficial ocorreu durante a teleconferência de resultados do terceiro trimestre de 2026 da SpaceX, período encerrado em 30 de setembro de 2026. Na apresentação aos investidores, Musk defendeu a aproximação entre a empresa aeroespacial e a fabricante de veículos elétricos, mas condicionou o avanço das tratativas à análise dos conselheiros. “Acho que seria uma boa ideia, mas isso realmente depende dos comitês especiais das duas empresas”, afirmou o executivo.
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Conflito de interesses de Elon Musk e regras para aprovação na Tesla
Os grupos de trabalho foram formados pelos conselhos de administração das duas empresas a pedido de acionistas e reúnem apenas diretores independentes. A Tesla também contratou a assessoria de um banco de investimentos para atuar nas negociações, que começaram nas últimas semanas e podem resultar na compra da montadora pela SpaceX.
Por comandar simultaneamente a SpaceX e a Tesla e deter fatias relevantes em ambas as companhias, Elon Musk declarou que está fora das deliberações sobre o negócio. Atualmente, o empresário possui quase 20% das ações da Tesla e cerca de 45% (pouco menos de 50%) do capital da SpaceX, participação que lhe garante aproximadamente 82% do poder de voto na empresa espacial. “Como tenho conflito de interesses, não posso participar das discussões dos comitês especiais”, disse Musk.
Ainda assim, o executivo reiterou seu apoio à união das estruturas operacionais e tecnológicas das companhias diante da sobreposição de atividades. “Eu realmente acho que há muitos méritos em combinar as empresas”, declarou. Segundo ele, “há muito a ganhar com a cooperação no desenvolvimento de softwares de superinteligência.”
Para que a operação saia do papel, os comitês especiais precisam primeiro chegar a um consenso sobre o formato da transação. Qualquer acordo fechado terá de ser submetido ao voto dos acionistas e exigirá a aprovação de 50% de todas as ações da Tesla em circulação. Os termos financeiros, a proporção de troca de ações e o cronograma de uma eventual proposta ainda não foram definidos pelos comitês, e não há confirmação de que o negócio será concluído.
Primeiro lucro da SpaceX na bolsa e avanço da inteligência artificial
O anúncio das negociações formais coincidiu com o primeiro lucro trimestral registrado pela SpaceX desde que a companhia abriu seu capital na bolsa norte-americana Nasdaq (sob o código SPCX), em julho de 2026. No seu segundo balanço como empresa listada, a companhia reverteu dois trimestres seguidos de perdas devido à expansão da sua divisão de inteligência artificial (IA). Em vez de comercializar apenas modelos próprios, a empresa ampliou o faturamento alugando capacidade de processamento de seus centros de dados para companhias do setor de tecnologia, como Anthropic, Google (controlado pela Alphabet) e Reflection AI, mudando o perfil de uma receita historicamente ancorada na internet via satélite Starlink.
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Os principais números financeiros e operacionais do terceiro trimestre de 2026 divulgados pela SpaceX foram:
- Lucro líquido: US$ 4,4 bilhões no trimestre, revertendo o prejuízo de US$ 1,1 bilhão registrado no mesmo período do ano anterior.
- Receita total: US$ 14,58 bilhões (cerca de R$ 73,1 bilhões), crescimento anual de 161% que superou a projeção de US$ 12,72 bilhões de analistas do mercado.
- Divisão de inteligência artificial: faturamento de US$ 7,56 bilhões (R$ 37,9 bilhões), um salto de 830% (quase dez vezes) em relação ao ano anterior.
- Serviço Starlink: receita de US$ 5,2 bilhões no trimestre, encerrando o período com uma base entre 13,6 milhões e 14 milhões de assinantes.
- Investimentos em ativos e infraestrutura (CapEx, sigla em inglês para despesas de capital): US$ 19,6 bilhões (R$ 98,3 bilhões), quase o triplo na comparação anual, sendo US$ 16,4 bilhões aplicados diretamente na área de inteligência artificial.
Ao comentar o desempenho trimestral e o avanço simultâneo nas frentes espacial e de computação, o executivo resumiu a fase atual da companhia. “Estamos em um momento de inflexão para a SpaceX em lançamentos, conectividade e superinteligência”, declarou Musk, em tradução livre. Com base na demanda por centros de dados, ele projetou que a receita recorrente anual — estimativa de faturamento com contratos que se repetem regularmente ao longo de um ano — da SpaceX deve atingir entre US$ 500 bilhões (R$ 2,5 trilhões) e US$ 1 trilhão (R$ 5 trilhões) até o final de 2027.
Histórico de aquisições em IA e cronograma da fábrica Terafab
A aproximação societária entre os negócios comandados por Musk e a aposta em infraestrutura de computação avançaram ao longo de 2026 por meio de aquisições bilionárias e projetos industriais conjuntos. Em fevereiro de 2026, a SpaceX comprou a empresa de inteligência artificial xAI em uma transação avaliada em US$ 1,25 trilhão. Seis meses depois, em agosto de 2026, a própria SpaceX e a Tesla anunciaram um investimento inicial de US$ 16,8 bilhões para erguer a Terafab, uma joint venture (empresa criada em parceria pelas duas companhias) dedicada à fabricação de chips avançados de inteligência artificial no Condado de Grimes, no estado norte-americano do Texas. Pelas cotações de mercado de outubro de 2026, a SpaceX figura como a sétima empresa mais valiosa do mundo, avaliada em cerca de US$ 2 trilhões, enquanto a Tesla ocupa a décima primeira posição global, com valor próximo de US$ 1,5 trilhão.
Durante a conferência com investidores, Musk atualizou o cronograma industrial da Terafab no Texas. A empresa conjunta planeja ter seu primeiro chip de teste funcional, desenvolvido com circuitos de memória SRAM, em operação em Austin entre maio e junho de 2027, com a meta de iniciar a produção em larga escala no terceiro trimestre de 2028.
No mercado financeiro, a expectativa em torno da combinação das companhias ganhou força na semana anterior ao balanço, quando o banco Barclays apontou que um acordo de compra da Tesla pela SpaceX poderia ser anunciado antes da assembleia anual de acionistas da Tesla, prevista para dezembro de 2026.
