Fatores emocionais e sociais levam mulheres a adiar a realização da mamografia e a investigação do câncer de mama no Brasil durante a campanha do Outubro Rosa, em outubro de 2026. O atraso na procura por atendimento médico ocorre pelo receio da morte, medo do diagnóstico, preocupação com a autoimagem, sobrecarga de rotina e mitos sobre a doença, mesmo quando há acesso a consultas e informação.
Além do desconforto físico e da exposição do corpo, a possibilidade de receber uma notícia difícil afasta pacientes dos consultórios. A médica psiquiatra Bianca Bolonhezi explica que o adiamento funciona como um mecanismo cerebral de fuga. “Diante de algo que nos assusta, o cérebro tende a buscar alívio imediato, e uma das formas mais rápidas de conseguir isso é evitar a situação. Adiar o exame traz uma sensação momentânea de tranquilidade, como se, sem o resultado, o problema não existisse”, afirmou.
Ansiedade e impacto psicológico no diagnóstico do câncer de mama
Esse comportamento de fuga, segundo a psiquiatria, mantém a paciente em estado de alerta. “A evitação alimenta a ansiedade. Quanto mais a mulher adia, maior o exame se torna na cabeça dela, e mais difícil fica marcar. Ela passa a conviver com uma dúvida constante, que pode ser mais desgastante do que o próprio exame”, declarou Bianca Bolonhezi. A médica acrescenta que a abordagem familiar e médica precisa evitar cobranças excessivas: “Cada mulher tem a sua história, e o medo precisa ser acolhido, não julgado. Dizer que ela está sendo irresponsável costuma aumentar a culpa e a vergonha, o que reforça ainda mais a evitação”.
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A psicóloga especialista em saúde mental e comportamento no trabalho, Aline Rezende Graffiette, fundadora da Mental One, aponta que a falta de um diagnóstico concreto amplia a projeção de quadros graves. “Quando não temos uma resposta, a mente tende a preencher esse espaço com possibilidades. O problema é que, diante de uma situação que envolve a saúde, essas possibilidades costumam se voltar para os cenários mais negativos”, disse. Estudos qualitativos sobre o impacto psicológico da doença indicam que o receio da retirada da mama, o medo de perder a identidade feminina e a autonomia, além da associação direta do tumor com a morte, são barreiras históricas para o enfrentamento do problema, tema debatido por especialistas como a médica oncologista clínica Sara Scremin e o médico mastologista Guilherme Novita, presidente da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM).
Projeções do INCA para o câncer de mama até 2028
Para o triênio de 2026 a 2028, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima o registro de 78.610 novos casos de câncer de mama por ano no Brasil, um aumento frente à estimativa anterior, referente ao triênio de 2023 a 2025, que projetava 73.610 casos anuais. A taxa de risco estimada pela instituição para o período atual é de 71,57 casos para cada 100 mil mulheres brasileiras, sendo que a proporção aproximada é de que 4 em cada 5 diagnósticos ocorram em pacientes com mais de 50 anos de idade. De acordo com a publicação “Estimativa 2026–2028: Incidência de Câncer no Brasil”, o país deve contabilizar um total de 781 mil novos casos de câncer por ano no período — cerca de 518 mil ao excluir os tumores de pele não melanoma —, mantendo a neoplasia mamária como a mais frequente e a principal causa de morte por câncer na população feminina.
Relembre: Mamografia aos 40 anos amplia rastreamento de câncer de mama no SUS
Mitos sobre genética e recomendações para a mamografia no SUS
Na última segunda-feira, 19 de outubro de 2026, data do Dia Mundial de Combate ao Câncer de Mama, entidades reforçaram o combate à desinformação. Um dos principais mitos que atrasam a ida ao médico é a crença de que a doença atinge apenas quem tem histórico na família, mas os dados do INCA mostram que entre 90% e 95% dos casos não estão associados a mutações genéticas hereditárias. Outra crença recorrente é a de que o autoexame substitui a mamografia; embora a observação do corpo auxilie a identificar alterações, o toque não detecta tumores milimétricos em estágios iniciais antes de se tornarem palpáveis.
O médico oncologista Ângelo Bezerra destaca que o acompanhamento antecipado tem ampliado a detecção. “Hoje, por exemplo, nós discutimos o início do rastreamento do câncer de mama a partir dos 40 anos. As mulheres fazem a mamografia, e isso tem identificado mais casos da doença”, afirmou. O Ministério da Saúde e o INCA recomendam a mamografia de rastreamento a cada dois anos para mulheres na faixa etária de 50 a 74 anos, embora a realização do exame seja garantida por lei no Sistema Único de Saúde (SUS) a partir dos 40 anos. Já a Sociedade Brasileira de Mastologia recomenda que o exame seja feito anualmente a partir dos 40 anos.
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