Uso de inteligência artificial aumenta trabalho para 59% no setor de tecnologia

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Empresário olhando imagem de inteligência artificial - Gorodenkoff / shutterstock.com Foto: Empresário olhando imagem de inteligência artificial - Gorodenkoff / shutterstock.com

O primeiro relatório State of the Industry (Estado da Indústria, em português), divulgado pela conferência de tecnologia Web Summit nesta quinta-feira (22) em Lisboa, Portugal, aponta que a inteligência artificial aumentou a carga de trabalho para 59% dos profissionais do setor tecnológico. O levantamento mostra que, em vez de reduzir o expediente com a automação de tarefas, a tecnologia elevou a rotina da maioria dos trabalhadores, enquanto apenas 20% dos entrevistados relataram queda no volume de atividades e outros 20% indicaram pouca mudança.

A pesquisa ouviu 1.455 fundadores, investidores, engenheiros e criadores da comunidade global do evento e identificou que 42% dos participantes também preveem uma redução nas vagas para profissionais em início de carreira nos próximos dois anos. Para a vice-presidente sênior de Operações Tecnológicas da Web Summit, Nidhi Naithani, os números demonstram que não há consenso sobre os rumos do setor. “Este estudo deixa claro que as pessoas estão divididas quanto a um futuro com IA”, afirmou a executiva.

Aumento de trabalho com inteligência artificial chega a 70% na infraestrutura

A percepção de que as ferramentas digitais ampliaram as tarefas diárias é mais forte entre quem desenvolve e mantém os sistemas tecnológicos em funcionamento. Enquanto 42% dos profissionais do mercado esperam que equipes menores consigam entregar um volume maior de produção e somente 9% projetam a ampliação do quadro de funcionários nas empresas, o acúmulo de funções já atinge de forma desigual as diferentes áreas e cargos pesquisados pela organização da conferência. O relatório não demonstra que o enxugamento de equipes esteja ocorrendo na prática, mas detalha os percentuais exatos de profissionais que relataram aumento na carga de trabalho conforme o segmento de atuação e a função exercida:

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Inteligencia Artificial - Summit Art Creations / shutterstock.com
Foto: Inteligencia Artificial – Summit Art Creations / shutterstock.com
  • Infraestrutura de inteligência artificial e aprendizado de máquina (machine learning, técnica em que sistemas aprendem padrões a partir de dados): 70% dos profissionais com mais trabalho;
  • SaaS (software como serviço, programas acessados pela internet mediante assinatura) e software empresarial: 68% com carga maior;
  • Hardware (equipamentos físicos de computação) e internet das coisas (IoT, rede de objetos físicos conectados à internet): 67% de aumento;
  • Profissionais das áreas de engenharia e produto: 64% relataram ampliação na rotina;
  • Fundadores de empresas: 63% registraram acréscimo de tarefas;
  • Investidores do setor: 42% apontaram elevação no volume de trabalho.

Web Summit aponta queda em vagas de entrada nos próximos dois anos

As projeções gerais para o mercado de trabalho até 2028 dividem os participantes do levantamento: 39% aguardam crescimento no número total de trabalhadores em sua área de atuação, 33% preveem encolhimento e 28% não esperam alterações significativas. A apreensão se concentra nas vagas de entrada, destinadas a profissionais de nível júnior que estão começando na profissão, onde a expectativa de corte atinge 42% da amostra geral, mas sobe para 50% entre os executivos de topo (C-suite, grupo que reúne diretores e presidentes de empresas) e chega a 58% entre os investidores, em contraste direto com a visão dos estudantes entrevistados, grupo no qual 55% esperam um aumento na oferta de primeiros empregos.

O receio de perder espaço no mercado varia conforme a idade e a proximidade técnica com a criação das ferramentas. Entre os jovens de 18 a 24 anos, 45% declararam estar preocupados com a segurança do próprio emprego, índice que cai para 32% entre os profissionais com 55 anos ou mais. Engenheiros e programadores também figuram entre os mais apreensivos quanto à manutenção dos postos de trabalho, mesmo sendo os responsáveis por projetar as soluções de automação.

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Segundo Nidhi Naithani, essa reação dos desenvolvedores decorre do contato diário com a evolução dos sistemas. “Parece contraintuitivo, mas, como engenheiros e fundadores são geralmente os construtores e os primeiros a adotar essas tecnologias, eles geralmente têm a melhor compreensão e um lugar na primeira fila para o seu impacto”, declarou a vice-presidente da Web Summit, em tradução livre.

Engenheiros divergem sobre impacto da inteligência artificial no pensamento crítico

Apesar do aumento na rotina diária, 55% dos entrevistados avaliam que o uso da inteligência artificial reforça a capacidade de pensamento crítico, contra 26% que afirmam que a tecnologia enfraquece o raciocínio e 19% que não notam diferença. O otimismo cognitivo é maior entre os profissionais mais velhos, atingindo 71% de aprovação no grupo com 65 anos ou mais, frente a 48% na faixa de 18 a 24 anos, enquanto os engenheiros aparecem novamente na ponta mais cética da amostra, com 37% afirmando que os recursos automatizados prejudicam sua capacidade de pensar.

O ceticismo técnico se repete na análise sobre o volume de dinheiro aplicado no setor. Mais da metade dos profissionais de engenharia e produto considera que os montantes investidos em inteligência artificial já são excessivos. No conjunto total da pesquisa, cerca de um terço dos participantes avalia que o aporte financeiro está acima do ideal e deve desacelerar de forma gradual, uma proporção semelhante acredita que a tecnologia ainda está em estágio inicial e continuará em expansão, e aproximadamente um em cada dez prevê uma queda brusca nos investimentos.

Falhas em plataformas como ChatGPT e Gemini levam ao uso de múltiplos sistemas

A pesquisa do evento realizado em Portugal foi aplicada entre os meses de julho e agosto de 2026, contando com uma base de 1.455 respondentes na qual pouco mais de um terço era composto por mulheres e mais da metade tinha entre 35 e 54 anos. Os dados coletados nesse período mostram que os trabalhadores evitaram a fidelização a uma única empresa fornecedora de tecnologia: cerca de dois terços utilizam ferramentas de pelo menos duas companhias distintas no dia a dia, e 43% recorrem a três ou mais fornecedores simultaneamente.

A estratégia de diversificar os sistemas protege a operação das empresas contra quedas de rede. Em setembro de 2026, plataformas de uso global como ChatGPT, Claude, Grok e Gemini registraram interrupções de serviço dentro de um intervalo de poucas horas, episódio que expôs o risco operacional de depender de uma única ferramenta para cumprir tarefas profissionais.

O levantamento identificou ainda disparidades regionais na escolha de sistemas alternativos, especialmente os modelos com pesos abertos (open-weight, sistemas cujos parâmetros treinados são disponibilizados publicamente para adaptação por desenvolvedores). Cerca de um terço dos profissionais no Oriente Médio, no Norte da África e na Ásia utiliza essas soluções abertas, índice que recua para 15% na América do Norte, enquanto ferramentas de origem chinesa — como DeepSeek, Qwen e Kimi — registram maior adoção no Oriente Médio, no Norte da África e na África Subsaariana. Os dados completos do relatório divulgado em 22 de outubro de 2026 servirão de base para os debates da próxima edição da conferência Web Summit, marcada para ocorrer em Lisboa entre os dias 9 e 12 de novembro de 2026.

Janderson Luiz é colaborador da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024. Formação: Atleta Profissional de Futebol

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